
A 13 de Maio de 1940, há precisamente 70 anos portanto, Winston Churchill fazia a sua primeira aparição na Câmara dos Comuns na qualidade de Primeiro-Ministro. A Segunda Guerra Mundial tinha começado e o avanço da Alemanha Nazi parecia imparável. O discurso que então proferiu passou à história: «I say to the House as I said to ministers who have joined this government, I have nothing to offer but blood, toil, tears, and sweat. We have before us an ordeal of the most grievous kind. We have before us many, many months of struggle and suffering.»
O tempo recomendaria que o Primeiro-Ministro português fosse capaz de traduzir hoje estas palavras. Mas de José Sócrates ninguém espera grandes dotes de tradução. Nem capacidade para recriar um discurso desta elevação e coragem. Porque nunca fez o seu género, porque está enredado numa delirante teia de ficção económica de que não consegue libertar-se, mas sobretudo porque passou o seu tempo.
O mesmo não se pode dizer – ainda — do líder da oposição. Pedro Passos Coelho não acertou em definitivo o estilo com que quer apresentar-se ao eleitorado. No meio da crise em que o país mergulhou, mostrou sentido de responsabilidade e ensaiou – com o inegável sucesso que as sondagens vêm provando – uma pose de Estado. Mas ficou desde logo no ar a ideia de que o PSD podia ter exigido mais ao governo no que toca ao esforço de redução da despesa. Porventura mais preocupante, desde então para cá, já veio garantir que, com ele, os sacrifícios não são para durar para além de 2011.
Dir-se-á que o PSD está escaldado com o discurso da verdade ensaiado com estrepitoso fracasso por Manuela Ferreira Leite. E, eu próprio, devo lembrá-lo, já aqui escrevi sobre as limitações da verdade em Democracia. Ainda assim, parece-me possível sustentar a tese de que Passos Coelho comete um erro ao tergiversar nesta matéria. Por três razões simples. Desde logo, porque, se não é verdade que o «Mundo mudou» nas últimas semanas, é bem verdade que nas últimas semanas muitos mais perceberam que ele, de facto, mudou muito. Depois porque acredito que o fracasso de Manuela Ferreira Leite está associado, não apenas ao «falar verdade» de per si, mas sobretudo à sua incapacidade de conciliar um discurso de verdade com um discurso de esperança. Finalmente porque acredito que, se e quando chegar a Primeiro-Ministro, todo o capital de credibilidade e confiança vai ser pouco para que Pedro Passos Coelho possa dar uma resposta consequente aos problemas que o país atravessa.
É em momentos excepcionais que se revelam os líderes excepcionais. Pedro Passos Coelho pode ainda ambicionar não passar à história como mais um personagem do comboio fantasma de governantes medíocres que nos têm conduzido ao abismo. Mas para isso vai ter de apostar forte e de trocar rapidamente os «amanhãs que cantam» de José Sócrates pelo «sangue, suor e lágrimas» de Churchill. Em breve perceberemos se tem ambição e sobretudo se tem estofo para tanto. Oxalá assim seja. E oxalá saibamos ouvir quem quer que seja que ouse falar assim.
Publicado na Visão em 2.6.2010

















Pedro, concordo com tudo. Tive esperança, como sabes, na vitória de Paulo Rangel, mas tenho gostado, até agora, da liderança de Passos Coelho (se bem que também julgue que deveria ter sido muito mais duro com Sócrates). Mas comento o teu post apenas sobre a questão da relação entre a verdade e a democracia. Do meu ponto de vista, nenhum regime, seja ele qual for, poderá sobreviver à mentira (o que não quer dizer que não possa durar muito tempo). Mais: um regime baseado na mentira leva também à queda da civilização em que se implanta. Ora, o problema do Ocidente é justamente o de estar cada vez mais esquecido de realizar a democracia, tal como começou a ser anunciada nos séculos XVI e XVII e continua ainda por cumprir. Nós não vivemos em democracia, mas numa ilusão — em parte ignorante, mas em parte mentirosa — da democracia. É isso, no entanto, o que temos para oferecer ao mundo — ainda que não à maneira de Bush.
De acordo com tudo.
Intervenho apenas para manifestar a minha alegria pessoal pelo fim de uma das personagens mais repugnantes da História do nosso Portugal: morreu o Alva Rosa! Que a terra lhe seja pesada!