Pássaros raros

Herbert Vogel foi durante toda a sua vida um modesto funcionário do United States Postal Service. Dorothy Vogel, a sua mulher, uma dedicada bibliotecária da Brooklyn Public Library. O vencimento dela, serviu-lhes, ao longo dos anos, para pagarem as despesas de uma existência que se pode descrever, no mínimo, como bastante modesta. O dele, por outro lado, usaram-no para financiar a criação de uma das mais completas e complexas colecções de arte contemporânea e minimalista que algum privado jamais coleccionou nos Estados Unidos ou na Europa. Uma parte da colecção, encontra-se hoje na National Gallery of Art em Washington e uma outra em permanente movimento à volta do mundo. Os exemplares mais interessantes da colecção, no entanto, penso que se encontram ainda no pequeno apartamento que o casal possui em Brooklyn, enfiados debaixo da sua cama de uma vida, encostados ao aquário das tartarugas na bancada da cozinha, ou pendurados por cima do autoclismo, na parede da casa de banho.

Ladies and Gentlemen, please meet, art lovers and collectors, The Vogels!

Herb & Dorothy — a film by Megumi Sasaki 2009

Comentários a “Pássaros raros” (8)

  1. Joana Vasconcelos diz:

    Que extraordinário par! E que apropriado o nome — a fazer lembrar aqueles pássaros (pegas?) que atafulham os ninhos com tudo quanto lhes enche o olho e conseguem para lá transportar no bico (colheres, molas da roupa, moedas …).

    PS — Fantásticas as imagens finais do Central Park com os Gates.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Realmente extraordinário. Prescindirem de alguns dos mínimos essenciais para a maioria das pessoas para alimentar a sua fome desconhecida. Num patamar diferente fazem-me lembrar certos vagabundos que guardam nos seus tugúrios as coisas mais inexplicáveis. Mas são tesouros, que escondem.
    Um dos comentadores do fenómeno fala em ‘greed’, percebe-se a ideia.
    São mesmo pegas, Joana.
    Já agora: farão isto por um qualquer tipo de amor à arte, ou antes porque um dia chegaram à conclusão que mais tarde seriam ricos?

  3. maria diz:

    Nem sempre me espantam as coisas extraordinárias ‚talvez o não sejam, devidamente ‚como esta aqui.
    Que quotidiano!!!

    António,please,não escangalhe o final…

  4. Turmalina diz:

    Que lindo casal e como o amor deles se mescla ao amor pela arte, é tudo uma coisa só. É muita afinidade e cumplicidade.E eles são a prova de que quando existe a vontade, o desejo forte de realização, nada mais importa.Não é preciso espaço, nem dinheiro.É lindo, lindo e lindo!!!

  5. José Navarro de Andrade diz:

    Absolutamente espectacular! My role models, se tivesse coragem.

  6. António Eça de Queiroz diz:

    Maria, claro que não estrago o final.
    Foi só uma provocaçãozinha, também acho que aquilo é genuíno.

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