A professora de português da minha filha Joana propôs esta semana à turma um exercício diferente: cada um juntaria em casa 6 palavras que, só por si, i.e., fora de qualquer contexto, lhe causassem desconforto. Na aula seguinte, e com base nas escolhas de cada um, fizeram uma enorme lista comum.
Foi, segundo o divertido relato que me chegou, um sucesso. Ferveram, é claro, as gracinhas em que são pródigos os meninos, sobretudo os meninos, de 12–13 anos – que incluíram no elenco a empresa fornecedora dos almoços do colégio, junto com bolor, remela e pé-de-atleta, entre outras pérolas. Quanto às escolhas “a sério”, muitas eram previsíveis ou expectáveis – nunca, ninguém, pobreza, fome, guerra, morte, inveja, racismo, castigo, bater, gritar, ameaçar, rastejante. Mas várias outras surpreenderam-me, pelo que revelam do que pensa e sente esta gente ainda pequena, fruto do que já viu, ouviu e porventura viveu – impossível, tumor, enlouquecer, hospital, bullying, pedófilo, violência, assalto, faca, ataque, terrorismo, bomba, veneno, ganância, longínquo.
Dei por mim a pensar quais seriam as minhas seis desconfortáveis escolhas. Ei-las:
Perfeição/Perfeito
Medo
Frio
Podre
Vazio
Adeus


















Que feliz exercício…aqui o professor do meu filho foi um pouco além, ou talvez mais liberal, e pediu que os alunos, entre 14 e 15 anos, escrevessem rapidamente num pequeno papel três “palavrões” (não palavras grandes) cada, mas sem identificação. Os papéis eram dobrados e depositados num tipo de urna.Depois ele leu os bilhetes e pediu que numa folha avulsa os alunos escrevessem a palavra e o seu presumido significado, além de quando e onde estas palavras eram usadas.Ao final da aula todas as folhas foram rasgadas e jogadas no lixo.
Mas voltando à sua lista, vão aí algumas palavras que me causam desconforto : Mentira, Queda, Despedida, Autoritarismo, Proibição e Superioridade.
PS. Acho que não contei o principal sobre a aula dos “palavrões”. Depois de muita discussão e reflexão, concluíram que praticamente todas aquelas palavras são desnecessárias, pois são ditas sem sentido algum.A maioria perdeu o seu valor de ofensa, o que eu achei ótimoi!
Turmalina, que maravilha, esse exercício! Arriscado, mas decerto muito mais eficaz que horas e horas de sermão e/ou castigo! E esse seu comentário deu-me uma ideia liiiinda para um post!
Dor: medo da, vazio da, do adeus, do frio.
O podre e a perfeição considero-os (são!) recicláveis.
Esse happening escolar é bem interessante, Joana.
Dor, absolutamente.
A perfeição como objectivo ou como qualidade irrita-me. Pelo que envolve de picuinhice, de insatisfação, de ansidedade, de irrealismo e de falta de sentido prático. Gosto de tudo com um ligeiro toque de imperfeição — é mais genuíno.
Podre ou é nojento (a fruta) ou é falso (a paz). Não gosto.
Joana,
tentei (foi fácil) não pensar e, de rajada, sairam-me:
Fracasso
Humilhação
Vergonha
Desemprego
Sufoco
“Escuro de olhos tão fechados“
Impotência
Sei bem que não vale, porque fiz mesmo batota.
Bela lista, Manuel. Todas me incomodam. Confesso que pensei e que escolhi. E que ao fazê-lo estive às voltas com o desemprego e com a impotência, o tremendo impossível que tanto desconforta a minha filha e os colegas.
Seca
Insípido
Indiferente
Segregação
Anorexia
Violência
Luciana, fantástica lista: todas angustiam. Impressionou-me sobretudo a seca. Não por ser a pior delas todas. Mas por ser talvez aquela de que não me lembraria logo. E é uma palavra terrível.
suicídio
ninguém
precipício
abuso
indiferença
cegueira superdotado
Forte, esta sua lista, Ana. Perturbadores o suicídio e o precípicio, mas também o abuso e a indoferença, estes sobretudo quando juntos.