O comentário da Turmalina ao post sobre palavras desconfortáveis, no qual ela contava um exercício que o professor do filho fez com adolescentes e com palavrões, fez-me lembrar um artigo que li há tempos na Time e que guardei, de tanto que me divertiu e confortou.
Versava um grave problema da minha infância e adolescência, que aliás subsiste e me exige ainda hoje algum esforço de autodomínio (com resultados variáveis) — palavrões e afins. Eu explico. É inquestionável que em Portugal falamos todos a mesma língua. Mas é-o também que não a falamos da mesma maneira. Não me refiro às cobertas que a sul do Mondego viram colchas e às agulhetas que se transformam em mangueiras. Ou, viajando em sentido contrário, aos cadeados que a norte se tornam aloquetes e às couves que passam a pencas. Refiro-me ao, chamemos-lhe assim, limiar de tolerância muito diverso que no que se refere ao uso de palavras mais fortes, de expressões mais vernáculas, vigora no norte e no sul do país. Sobretudo quando a utilizadora pertence à metade feminina da humanidade. Parece pitoresco e engraçado. Não é. Garanto-o eu, cujo impecável cadastro disciplinar (falar muito é ofensa minor quando se é bom aluno) ficou manchado por esporádicos episódios — sempre após férias passadas a norte, entre primos quase todos rapazes – que resultaram em participações escritas para casa, pelas amáveis freiras, a acusar “linguagem menos própria para uma menina” (devo advertir que não se tratava de palavrões a sério, o que seria estupidez, mas unicamente expressões mais atípicas de entusiasmo e/ou contrariedade)…
O artigo que então me deliciou e que podem encontrar aqui, referia-se ao poder analgésico de tais palavras. Não só, mas também da F word. E baseava-se em estudos levados a cabo por equipas de psicólogos. O ponto de partida: a constatação, por experiência própria de alguns dos peritos envolvidos, de que quando se martela ou se entala um dedo com toda a força, sai asneira. Constatação confirmada por equipas de médicos, enfermeiras e parteiras quanto ao que naquela hora-às-vezes-não-tão-curta proferem as parturientes em apuros. Os testes efectuados apontavam unânimes, para uma conclusão: swearing increases your pain tolerance. A explicação, simples, envolvia um “very primitive reflex”, que partilhariamos com os animais. Porém, e porque “in humans, our vocal tract has been hijacked by our language skills”, em vez de ladrar ou uivar “we articulate our yelp with a word colored with negative emotion.” Uma outra explicação: “swearing serves as an alarm bell, triggering the body’s fight-or-flight response”. O que vale por dizer que praguejar desencadeia uma resposta fisiológica com reflexos a nível da dor: “in swearing, people have an emotional response, and it’s the emotional response that actually triggers the reduction of pain”.
Chegados a este ponto, é meu dever apelar a que perseverem, que leiam o post até ao fim. Porque não há bela sem senão. Em geral e neste caso também. Ou não se estava mesmo a ver? O que se passa é que os mesmos estudos revelam que dizer palavrões reduz mais fortemente a dor nas mulheres que nos homens. Porque, evidentemente, “in daily life men swear more than women”. O que tem o nefasto side-effect de neutralizar o potente analgésico natural. E seria esta, segundo um dos responsáveis pelo estudo, uma das principais razões para que “people should not overuse profanity in their speech and writing”. Não enfraquecer os palavrões, privando-os do seu poder analgésico para quando dele realmente precisarmos! Conclusão:“save them for just the right occasions”!


















Apoiado!
Completamente verdade, o vernáculo com parcimónia é meio Valium — em excesso é mero chá de valeriana…
António, este seu “vernáculo com parcimónia”, de tão rigoroso e assertivo, dir-se-ia retirado de algum simposium terapêutico …
Adorei o texto..como também não privo meu filho de utilizar palavrões em momentos adequados…sim, porque eu acho que algumas vezes é saudável exercitar a lingua do P.… que p.…
Fui criada entre primos e eu era a única menina entre todos os primos.Nunca soube também como é a tal cumplicidade entre irmãs, mas enfim, ao contrário do que pensam, que uma menina criada assim torna-se uma não me toques, ela torna-se sim uma garota mais independente, senão não sobrevive.Eu tentava maneirar na linguagem, mas em jogos de campeonato mundial, ou em partidas de queimada, uma vez ou outra me escapava um elogio ao juiz ou um sonoro palavrão quando a bola me queimava.Só podia ser influência dos meninos, afinal menina de família não falava palavrão, como também não assistia futebol com emoção e nem jogava queimada.Mas foi boa essa convivência, ela me permitiu não me chocar com coisa alguma quando trabalhei em redações majoritariamente masculinas.Hoje, infelizmente, vejo meninas soltando palavrões à torto e à direito, sem critério algum, acho que numa tentativa de chamarem atenção.Não sou moralista, mas como você bem colocou, Joana, é bom deixarmos os palavrões somente para os momentos certos :o)
Turmalina, absolutamente de acordo! E fiquei com ideia que o português daqui e daí, que temos vindo a descobrir nalgumas coisas tão diferente, tem, neste domínio tão visceral, pontos bem comuns…
Se palavrões bem dosados têm aumentados seu poder analgésico, os meus podem dopar-me ou a um cavalo, não duvido…Sou uma menina-menino, gosto (e entendo) de futebol, se pudesse escolher um único gênero de filme escolheria o faroeste, brincava na rua até ferir o pé, creio mesmo que seria capaz de digerir as tais pedras de grande porte, mas se ouço um palavrão já fico toda vermelha, queima-me o rosto e, se em algum momento de fúria assassina ou dor mortal escapar-me um, serão horas de infindáveis e constrangidas risadas que chegam a sufocar-me. Assim, a única coisa que posso concluir é que estou perdendo dinheiro não fazendo logo um contrato com alguma indústria farmacêutica pra tratar de ganhar algum com — como diria o Chico Buarque — “esse grito contido, esse samba no escuro”.
Uffa, que hoje estou para comentários quilométricos!
Lindo! Mas Luciana, no seu caso o seu potencial analgésico é de facto tremendo: segundo o tal artigo, quanto mais trandgressão envolver o uso do palavrão, mais efeito produz. Em si e provavelmente nos seus mais próximos que, desabituados de a ouvir usar tais expressões, vão ficar anestesiados de choque e susto ao ouvi-la, caso um dia aconteça sair-lhe algum !