Presumimos que tenha sido escrita pela calada da noite. É pelo menos fartamente noir. Short e tão perigosa como a Luciana que a assina. Agora, para fazermos o pleno só nos falta uma soft e peaceful short de Mr. Orcama.

Na trilha de Raksin
por Luciana Nepomuceno
A hora: certa. O dia: hoje. O que mais a espanta é a certeza. O deslizar suave da gaveta do arquivo, a mão firme no punho da 45, já ali, insuspeitada, dois passos, a loura nuca vulnerável, o sangue, um passo para trás basta, não há esguicho. Usar o lenço. Limpar a arma. Os tantos sentidos: o acre da pólvora, o surdo da arma na carpete, o rubro a manchar papéis, a seda fria nas mãos, o sal na boca. Ir-se. Chorar na hora de chorar. Dizer: sim, sim, nada havia quando eu saí; e dizer assim: num cruzar e descruzar de pernas e torcendo o lenço. Mas não, mas não, já não lhe bastava aquele corpo, agora danava-se a ter as idéias. Noir demais, sabia-se, e voltou ao trabalho.

















Delicioso Luciana…devidamente acompanhado passo à passo!
Obrigada, Turmalina. Não lhe conto o quanto me agrada planejar mortes, pois já me anunciam como perigosa por uma tão cândida estorinha…
Quem diria… a insuspeitada Luciana…
E tudo escrito, pela calada da noite, a mão firme… no teclado…
Coitado do Ashley, o que ele tem passado com estas senhoras…
Mas se nada lhe fizemos, nem eu nem a gentil moça…e lembrar a trilha de Laura não há de ser crime, será?
O mundo já era perigoso antes, mas agora…
Então, meu caro Antonio, meu pai por vezes reclama de ter me deixado ler o que li e tão cedo…
Ora aqui está a célebre violência nordestina em todo o seu esplendor: silenciosa, recalcada, por abrir até um dia… E ela tem um ar tão cândido que ninguém diria, mas não é sempre assim?
Vascaínico — mas não menos querido — Zé, já avisava o Chico (e eu com ele): quando eu canto, que se cuide, quem não for meu irmão, o meu canto, punhalada, não conhece o perdão…http://www.youtube.com/watch?v=HUXBTAvIjW8&feature=related
Luciana, que fantástico!!!
Gostei sobretudo da meticulosa premeditação, que os homens em geral e os penalistas em particular insistem em associar às mulheres (certo) e à sua extrema crueldade (errado): do que se trate é evidentemente de eficácia e competência.
E também das inúmeras motivações em aberto, diante de um clima tão noir: ciúme, traição, chantagem, espionagem, dívidas de jogo, seguro de vida?
Não são uma delícia sem fim os noir? De tudo e em tudo gosto dos finais abertos, sorrateiros de sentidos. Como me faz falta essa vida que não tive! Duas ou três vezes ao ano ser uma femme fatale…a mim me agrada.
Mas o que mais me agrada, sempre, é esta quase conversa com tão querida amiga…
Excelente!
Obrigada, excelente mesmo é a rica imagem que nos incita aos extremos…
“Saí dali, deixei o carro no hotel fuleiro onde me hospedei. Peguei um táxi e fui para o terminal. Ônibus de volta, e dali, direto para o aeroporto.
Eu sabia, ah, como eu sabia, que nunca iriam chegar até mim.
Nunca ninguém saberia que eu estourei seus miolos, como você estourou meu coração. Crime hediondo. Ambos viciados. As família inconsoláveis.
E eu, em Buenos Aires, assistindo um tango e fumando um cigarro.
A fumaça, suja e fedorenta, me envolve como um casulo. E eu rio, meio sufocada com a simplicidade da morte. E tomo outro gole de vinho.Minhas mãos tremem. É o frio, digo a mim mesma. É o frio.”
Inspirada no noir de Lucy.