
Jean-Léon Gèrôme, “O Mercado de Escravos”, 1866
O meu nome é Usbek e fui outra vez enviado pelo Meu Senhor às terras do Sol Poente afim de lhe dar novas do que por lá se realizou após a minha derradeira e já remota passagem.
Mal cheguei à úbere Europa, não foi preciso abrir muito os olhos para verificar, que tal como em toda a parte, foram mais as guerras, tribulações e desgraças do que as alegrias e paixões, acontecidas durante a minha longa ausência. Não me surpreendi de na Gironda já não ter encontrado o meu amigo Montesquieu, mas outros como ele apontaram-me uma pátria assaz pitoresca, onde se expunham sem dissimulação os costumes coevos e insólitos destas pálidas gentes. Mandaram-me seguir tudo para ocidente até que a terra se acabasse e ali naquele sítio desolado, intangível às preocupações do mundo, onde já não se pode mais prosseguir e donde é difícil retroceder, habitava um povo singular – os lusitanos.
A primeira e mais patente característica de que dei nota, foi serem os lusitanos devorados por uma canção melancólica à qual davam o nome de Fado, que os deixava prostrados a ponto de nada mais fazerem senão lamentarem o seu destino e maldizerem as Parcas que o haviam engendrado. Alguns se levantavam contra este estado de coisas, não contra a melancolia, repare-se, porque essa era inamovível àqueles espíritos, mas contra o que supunham ser as causas da sua desgraça. Tais inconformados empenhavam uma boa porção das suas forças em invetivar e reclamar do Estado medidas urgentes, leis drásticas, atuações intransigentes e outras radicalidades. Não que as quisessem ver postas em prática, porque mal o dito Estado anunciava um gesto que fosse na direção antes exigida, logo todos se punham a arrancar os cabelos de angústia e a bramar contra tantos e tão fatais erros que se estava mesmo a ver irem suceder-se.
E tão contentes ficavam por julgarem descoberta a solução de todos os problemas e tão felizes se encontravam por terem conseguido impedir novas fatalidades que os lusitanos folgavam em entreolhar-se uns aos outros com ares de inteligência e cumplicidade, venerando aqueles que mais alto haviam protestado como os mais lúcidos de entre eles.
Após o que se remetiam para a prévia sonolência aguardando novo, e inevitável, já se sabia, sobressalto.

















Lindo! Melhor dizendo, letal! Ao lê-lo, lembrei-me do remoque — que ultimamente ouvi citado mais que uma vez — atribuído a Júlio César, sobre aquele povo que habitava os confins da Ibéria e que nem se governava, nem se deixava governar …
Que delicada e instrutiva matéria antropológica. O que aprendo neste extraordinário blog!
Curto, grosso e a despropósito: com escravas destas até eu escravizava…
outros tempos, quem sabe se um dia de regresso, em que havia escravas brancos de senhores morenos…
Zé fico contente por esta ser a primeira de muitas cartes do Uzbek.
Este texto recordou-me um livro que li aqui á uns anos de um Pedro Canais, chamado “A Lenda de Martim Regos”
Pois este quadro tinha dado muitas belas short storys…