Lá está a ela a olhar para ele daquela maneira… Hoje está toda contentinha, a grande bruxa. Aposto que arranjou maneira de o fazer ficar cá outra vez à noite a acabar mais não sei o quê, muito urgente, a treta do costume. Só ele e ela. Agora é quase dia sim, dia não. Por isso há bocado o chamou lá dentro. A cara dele quando saiu… metia dó. Desgraçado.
Bem que esta manhã voltei a insistir, quando fomos lá abaixo ao café…“tens de fazer alguma coisa, quanto mais amochas pior… um dia destes ficas doente ou passas-te dos carretos e ainda fazes algum disparate e depois como é que é?”. Diz que pediu transferência, mas que ela lhe trocou as voltas, com altos elogios e avaliações do melhor, que não o pode dispensar de maneira nenhuma e mais não sei quê. Então que faça queixa dela! Isso é que era! Tramava-a e na volta ainda recebia umas massas, só para ficar caladinho… Que não, que não pode ser, que é uma vergonha, quem é que ia acreditar, é tudo muito complicado. Hoje vi-o tão mal que até me ofereci para testemunha, não é que tenha visto grande coisa, que ela é fina e sabe-a toda… Claro que o grunho do Sérgio tinha de se meter, armado em matador, “aproveita mas é, meu, que a tipa inda por cima é boazona”… Daaaa! Havia de ser lindo, com a irmã da mulher!
No elevador para cima quase implorei “tu não podes viver assim, ao menos fala com a Ana”… Tarde demais, diz ele. Com tanta noite fora, tanto serão de trabalho, “a Ana anda outra vez com a paranóia dos ciúmes, como quando começámos a namorar e ela nos fazia a vida negra… acha que há qualquer coisa… e o pior é que … olha já cá estamos, abre aí a porta antes que nos puxem”.
Sinceramente, só gostava de saber o que é que ela vê nele… um pãozinho sem sal, sem graça, sem conversa, sem ambição, ainda por cima marreco… Não a percebo, palavra… Com aquela figuraça, com o que aqui ganha, podia ter qualquer um, havia era de gozar e anda-me de volta do mongo do cunhado, metida no escritório até às tantas! Dá Deus nozes a quem não tem dentes, é o que é! Vai-se a ver e é porque ele lhe dá luta, não lhe cai aos pés como os outros… Diz a Rute, que foi vizinha delas, que isto é coisa antiga, que ele nunca lhe deu a menor bola, só tinha olhos para a mosca-morta da Ana… Mas que é tara, é, e das grandes…
Olha, os ingleses já responderam ao mail com a proposta de orçamento …, deixa cá ver … boa, aceitaram, tá tudo bem. Ok, amanhã pego no processo logo que chegar. Agora deixa-me mas é ir, a ver se apanho o Nuno antes de ele se meter no ginásio, a Rute disse que o filme é mesmo fixe e que só está mais esta semana …
- Acho que vou indo … vens ou quê?
- Não posso, tenho umas coisas para acabar ainda hoje, fico mais um bocado…


















Minha cara Joana…que delícia de texto, tão cativante! Lembrei-me logo de Nelson Rodrigues e suas estorietas de amor, morte, adultério, na sua coluna “A vida como ela é”. Em uma delas, ele afirma: o pudor é a mais afrodisíaca das virtudes. Talvez, aí resida a chave…
OLá Luciana, ainda bem que gostou! De Nelson Rodrigues só conheço o fantástico enterro que o Manuel aqui lhe fez(http://www.etudogentemorta.com/cemiterio/nelson-rodrigues/) e mais uma ou outra coisa que fui então espreitar por essa net fora. O que diz do meu texto deixa-me encantada …
Não sei se aqui o afrodisíaco é o pudor ou simplesmente o (para ela) incompreensível desinteresse dele por si e pelos seus irrefutáveis atributos, agravado pela escolha da irmã, tão desprovida dessas mesmas qualidades …
Quando olhei a primeira vez para a fotorgrafia, confesso que vi Scarlett O’Hara e aquele desenxabido Ashley por quem ela tanto penou. Depois foi só arranjar uma Melanie, juntar sal e pimenta e pôr ao lume.…
Oh, Joana, Nelson Rodrigues é um primoroso e inventivo autor, doloroso e rude muitas vezes…um dia envio-lhe a biografia (que tem o lindo título Anjo Pornográfico). Eu o amo tanto pelo que escreve como pelo que não. Também ficou conhecido como Flor de Obsessão…pode alcunha mais sofrida e bela?
E não me fale de Scarlett que ainda estou com lágrimas de ler as leituras de Eugénia…
Tá visto que ele anda mesmo metido com a cunhada!
Absolutamente! Culpado, curvado e escravizado, mas metido!
Gonçalo e Vasco, metido, sim, mas sobretudo e absolutamente num belo dum enredo do qual não vejo — e o pobre dele menos ainda — maneira airosa de sair … E que cada dia que passa mais se adensa … ó se adensa!
Assédio laboral-familiar…
Mas isto dá prisão, Joana! Ou não?…
Lá estão os homens a ser discriminados mais uma vez.
É a vida! Como eu o compreendo…
Prisão, dá-me ideia que não, António. A menos , claro, que entretanto isto evolua, quero dizer, degenere numa cena canalha, com agressões físcas e verbais e/ou homicídios. E mesmo aí, talvez pena suspensa. Mas devo advertir que os meus magros conhecimentos de Dto Penal remontam literalmente ao século passado. Agora, adultério e porventura divórcio, uma bela indemnização, eventuais consequências disciplinares, muita publicidade negativa e — não esquecer — uma contra-ordenação muito grave, isso sim!
Mas quais discriminação? Quem é que aqui discrimina homem algum? E já agora porquê “mais uma vez”? Explique-se, ora explique-se lá
Agora a sério, a situação deste homem, como de todos (mais que se imagina) os que são submetidos a assédio sexual (ou não, o chamado mobbing) no trabalho é dramática, pois o facto de se tratar de hipóteses atípicas no que se refere aos “papéis tradicionais” potencia o seu carácter humilhante e vexatório e torna-as particularmente dolorosas e destrutivas …
Joana… amei o pedaço do “um pãozinho sem sal, sem graça, sem conversa, sem ambição, ainda por cima marreco”. Algo no seu texto também me lembrou Nelson Rodrigues que acabou por me inspirar a escrever umas outras palavras sobre a mesma imagem.
Turmalina, tal como disse lá acima em resposta à Luciana, a primeira e mais forte impressão que tive desta imagem foi a do contraste entre a portentosa (em todos os sentidos) mulher e o desenxabido e desinteressante homem… Ele surgiu-me tal qual a personagem que fala no texto o descreve, sem o menor encanto … A tornar incompreensível qualquer tipo de atracção dela por ele — tirando o clássico patrão-secretária, e mesmo esse, aqui, seria decerto muito atípico.… Tão incompreensivel quanto a paixão de Scarlett O’Hara por Ashley (ou a resistência dele aos encantos dela) …
De novo, só posso dizer o quanto me diverte e me deixa satisfeita o que diz sobre este meu texto e o estilo de Nelson Rodrigues .…
E, confesso, fiquei a morrer de curiosidade, à espera do seu texto!!!
É algo simples e muito influenciado por esse seu texto…e já foi enviado para o administrador desse Cemitério, agora não tem mais volta…rss.…..
Liiindoo! Tou esperando!
Joaninha,
a net é realmente uma coisa muito boa!
onde é que poderíamos ler os teus textos se isto não existisse?
olha que já tinha saudades! Afinal desde o 9º ano que não lia nada escrito por ti… as tuas redacções eram SEMPRE lidas em voz alta para a turma toda ouvir. Um deleite!
gostei de todos os posts (que li até agora) e fartei-me de rir com alguns deles.
e as tuas meninas? também são assim talentosas para a escrita?
vou continuar a “passar” por aqui.
beijos e abraços
Não posso acreditar! Cata, que bom ver-te por aqui! Só tu, para te lembrares das minhas redacções: eu então lembro-me dos teus desenhos! Fico mesmo contente por saber que gostas e te divertes! Continua a passar e a dizer coisas! Beijos para todos
Sim, eu explico, Joana.
Voê sabe lá o que tem sido a minha vida…
Discriminação porque sim, porque me apetece, por que quero fazer birra!
Porque foi uma coisa que nunca me aconteceu… E eu até era capaz de ter achado piada!
Porque sou mau. Como as cobras.
…kkkkk…e bruxo.…rs.….
Valha-me Deus, foi pior a emenda que o soneto! Mas que trapalhada!
António, ora diga lá então o que é que nunca lhe aconteceu, mas “até era capaz de ter achado piada”:
a) ser discriminado porque sim
b) ser discriminado por qualquer outro motivo
c) ser assediado por querer fazer birra
d) ser assediado por ser mau como as cobras (agora perdi-me … não é voce que anda aí por todo o blog a dizer que as cobras são amáveis e os polvos inteligentes?)
Não ser perdeu nada, Joana! Agora é que se encontrou! É d)!!!!…
É claro que as cobras são amáveis, toda a gente sabe disso.
Tal como as ostras, coitadas.
Ostras, agora ostras!
António Benedito, porque o caso não é para menos considere-se desde já canonizado e nomeado santo patrono de toda essa desvalida bicharada de que ninguém gosta (com razão, diga-se) — cobras, serpentes, iguanas, ostras, escaravelhos, baratas, moreias … (estou arrepiada só de escrever, que nojo)! Assim uma espécie de São Judas Tadeu, mas em versão insectos e rastejantes. Que vai passar a constar das listagens de santidades, junto ao São Roque, que vela pelos cães, e ao Santo Antão, que se bem me lembro trata dos animais domésticos. Vai aliás ser uma grande ajuda para o São Francisco de Assis, coitado, tão sobrecarregado com o pelouro dos animais em geral.
E bruxo?!…
Quid? Quod?…
São Sibilante Benedito, vide cometário próprio de 09 de junho, 2010 às 20:24, referente ao Velório Branco.
Joana, que short tão boa. Parece muito simples por estar tão bem escrita. Personagens, linguagem, diálogos, monólogos, coisas que se pensam para dentro e só se dizem nas costas do visado. Uma boa trama, também. E eu não acho que seja tão fraco esse desenxabido albino. Não é Clark Gable, mas para que é que, quem quer alguma coisa, quer agora um Clark Gable?
Olá Manuel, gosto mesmo que tenha gostado! E também, como dizia uma das minhas filhas, que me “dê elogios” ;) Nunca tinha escrito uma short e diverti-me imenso! A imagem é fortíssima: foi literalmente tiro e queda!
Concordo consigo quanto ao disputado rapaz louro da short. A moça que fala parece-me excessivamente depreciativa, mas a verdade é que nós não chegámos a ver o seu (dela) termo de comparação, o mui ginasticado e suspeito que bronzeado (de solário?) Nuno.…
Quanto ao Clark Gable, nem agora, nem nunca. O Rhett Butler merecia melhor.
A sua filha, Joana, estava cheia de razão: os elogios não deveriam fazer-se, nunca, se reservássemos, este, sim, o elogio fúnebre. Mas dar-se. Há poucas coisas tão boas de receber quanto os sinceros reconhecimento e aprovação. E tudo bem polvilhado com afecto.
Absolutamente … :)
A acreditar na aparência parece-me mais o Ashley. Quanto ao Reth, dizem que a primeira escolha terá sido Gary Cooper, Errol Flynn também foi considerado… até Timothy Dalton representou o papel, em Scarlett.
Logo que não seja por isso, a escolha é larga…
Já quanto à moça, parece-me mais Bette Davis… que também foi considerada para Scarlett.
Quanto ao resto, e tendo em conta as características elencadas, e até realçadas por Turmalina, só posso concordar com essa do António Eça: Assédio Feminino!
Caríssimo Orcama: evidentemente…
Que lo hay, lo hay, estimado Orcama. Os números são, devo dizer, surpreendentes. Neste caso claramente, no texto da Turmalina só na esquentada cabeça do desconcentrado Atílio …