Nemésio contado às criancinhas
Queridos Mortos

Gustave Doré (1832-1883)Tudo começou com um piano de cauda em queda livre. Afinal, sempre eram cento e setenta quilos de teclas e pés e cauda, e apesar de lançado de um não muito alto segundo andar, quando me caiu em cima causou-me, digamos, algum dano. Naturalmente que ao perder os sentidos, não me apercebi das trevas que viscosas e pestíferas, de imediato me abraçaram a alma, que naquele momento, já destacada, observava curiosa o meu corpo inerte. Agora, de repente, uma luz. Não uma luz calda e temperada, vinda do fundo de um túnel, recortando uma figura celeste que me sorri e me enche de paz. Mas uma luz concentrada, um foco intenso e ácido, um laser no meio dos olhos que me rasga o córtex e o dilacera em mil fragmentos. Abrir os olhos custa-me. Parecem colados com gesso. Aquela é sem dúvida, a luz de uma pequena lanterna. Daquelas que usam os médicos nas emergências dos hospitais para acordar os vivos. Empunha-a um homenzinho de pequena estatura, com uns óculos de massa preta e o cabelo puxado para trás, com brilhantina. Veste uma discreta sobre-casaca cinzento-escuro e empunha a custo, devido ao peso, um gigantesco livro vermelho. Há nele qualquer coisa de estranhamente familiar. Dobrado e com a cara praticamente colada à minha, observa-me com uns grandes olhos curiosos. Num sobressalto, desliga a lanterna, ergue-se abruptamente e voltando-se para trás exclama num inglês perfeito, de Oxford, “He´s back! We can start! Please sit down, Gentlemen!” O seu olhar penetrante e inquisitório regressa ao meu. “Curioso! Curioso! Você é o meu primeiro sabe?” Fala agora num Português embebido num sotaque que me parece ser da Madeira ou dos Açores. Dos Açores. Decididamente dos Açores. “Sabia que jamais alguém deixou um livro meu a meio? Você é o primeiro.” Torce o nariz de um lado para o outro duas vezes, puxa pela corrente de um relógio que tem no bolso e exclama agitado em Inglês, “Oh dear! Oh dear! I shall be too late”. Observando-o enquanto se afasta apressado, carregando aquele grande livro encarnado, e com o seu relógio de bolso, que tem ainda na mão, sou invadido por uma curiosa sensação de dejá-vu.

Esfrego os olhos e tento agora focar melhor o olhar. O ar é rarefeito. Sinto alguma dificuldade em respirar. Ouço música. Do tipo que se ouve em alguns centros comerciais ou nos supermercados. Lá em cima, um céu muito azul mas estrelado ilumina tudo com uma luz forte e cristalina. Sob os meus pés, uma espessa e fofa alcatifa beije que parece de algodão. Para minha surpresa reparo agora que o curioso senhor da lanterna se foi sentar numa confortável poltrona de design italiano, que afinal é uma de muitas que se perfilam à minha frente. Em cada uma delas está sentada uma pessoa. À minha direita, um enorme portão dourado fecha o acesso a uma larga escadaria de mármore que, subindo majestosa e encaracolada, se vai perder lá em cima, no céu estrelado. À minha esquerda, um alçapão deixa vislumbrar uma escada de granito que descendo no seu interior parece aceder a uma catacumba de onde emana um fumo amarelado e acre. Vejo agora que uma das figuras sentadas numa das poltronas me acena efusivamente. Aproximo-me e quando me encontro defronte desta fila de poltronas apercebo-me que, para além de uma gaze que me envolve a cabeça, estou completamente nu e isto é terrivelmente embaraçante.

“Mister…?” O homem que se me dirige é um tipo de cabelo loiro, tisnado pelo sol e que veste uma longa túnica branca. Consulta uma folha de papel em branco. “…Grilo?” diz subitamente, levantando na minha direcção uns olhos muito azuis. “Mister Grilo, I presume?” Aceno afirmativamente com um movimento de cabeça. “Jolly Good! All very well organised up here. Jolly good!” profere visivelmente satisfeito, dobrando a folha de papel em quatro e metendo-a num bolso interior da túnica. “We´re ready. Please sit down, Mr. Grilo”. Para minha incredulidade acabei de o reconhecer. É T.E. Lawrence. Sim o “Lawrence of Arabia”. O verdadeiro. Constato que é um bocadinho menos atraente que o Peter O´Toole no “Lawrence” do David Lean, mas que é, mesmo assim, um tipo muito bem-parecido. Faço agora atenção a todos os outros que sentados o acompanham. Afixados às poltronas, estão os seus nomes respectivos. Da esquerda para a direita vejo que estão ali, William Faulkner, com um ar discreto e repousado, Oscar Wilde, um tanto obeso, cabelo comprido e bem tratado, vestindo uma rebuscada camisa de seda cor-de-laranja e um muito longo e dandy “doublet” assertoado, Albert Camus, com um semblante carregado e misterioso fumando de um bonito nargilê de prata apoiado no chão, e  imediatamente a seu lado……é mesmo ele! É o Vitorino Nemésio! Eu sabia que era Açoriano aquele sotaque. Ao centro, o T.E. Lawrence, que pôs agora o seu Kofia branco na cabeça e que tem à sua esquerda o Robert Stevenson. Para ser preciso, o nome de Stevenson está riscado e escrito por cima está um curioso nome – Tusitala e no seu ombro, um papagaio verde parece estar a dizer-lhe algo ao ouvido. À direita de Stevenson, com uma expressão sorumbática e ausente está ainda Fedor Dostoyevski, seguido de James Joyce, que me parece francamente embriagado.

Nemésio, com um movimento de cabeça, indica-me uma cadeira que entretanto se materializou na minha frente e que tem também o meu nome escrito em pequenas letras manuscritas. Sinto um arrepio que me sobe pela espinha e sento-me, tentando mascarar o nervosismo que agora me invade. Olhando de revés aquele ilustre painel, passam-me diante dos olhos, memórias de inúmeros livros e títulos que associo aqueles autores e apercebo-me angustiado que são todos autores de livros que, ou não li de todo, ou cujos livros deixei a meio e nunca terminei. E naquele instante percebo finalmente porque estão eles aqui e o que estou eu aqui a fazer. Uma primeira coisa é certa: estou indiscutivelmente morto. Mortinho da silva. A segunda é que chegou, indubitavelmente, o momento do meu juízo final. Este é o momento da verdade. È aqui que terei de prestar as contas da minha vida. E percebo também que não as prestarei a um Deus justo e compreensivo como sempre esperei. Não as prestarei a um júri de almas eleitas, sábias e condescendentes. Não. As Contas aqui, no purgatório e às portas do céu, (porque é aqui mesmo que me encontro, não tenho agora dúvidas), prestá-las-ei a um bando de escritores egocêntricos e prepotentes, os quais me farão um julgamento sumário, de acordo com o menos justo de todos os critérios, ou seja, a sua própria percepção do valor que acreditam ter e que, aos seus olhos, e por ter abandonado desrespeitosamente os seus textos mais famosos, não reconheço. Ou seja. Em bom português (Açoriano e Lisboeta) estou irremediavelmente fodido.

Após alguns minutos em que os elementos deste meu ilustríssimo júri se consultam uns com os outros num murmúrio de vozes e línguas, Nemésio levanta-se. Limpa os óculos e abrindo o grosso livro de capa vermelha, começa a ler, agora em Português. E durante cerca de cinco minutos faz um rápido sumário da minha vida. Percorre-a secamente e sem grandes rodeios, chegando rapidamente ao fatídico episódio do piano voador. Aí, faz uma longa pausa, tira os óculos, pede-me com cortesia que me levante e olhando-me com firmeza, lança então sobre mim, a terrível mas já esperada acusação. Sou culpado do crime de abandono voluntário de obras-primas de literatura. Culpado de ter interrompido e não reatado, por razões pueris como uma ida para férias ou uma outra leitura de menos importância mas mais apetecível que se meteu pelo meio, a leitura de textos que laboriosamente construídos pelos autores ali presentes, se destinavam a iluminar e a esclarecer a minha fraca e desenxabida alma de mortal. Este crime é acrescido de uma agravante relacionada com o facto de ter mantido as ditas obras em casa e à vista de todos, procurando criar, com isso, uma imagem pessoal de cultura, falsa e enganosa. Os presentes lançam “yeis” como se estivessem na Câmara dos Comuns, enquanto ao mesmo tempo me lançam olhares reprovadores, acenando com as cabeças, síncronos e graves, ao ritmo da acusação.

Nemésio termina a sua curta intervenção sobre a minha pessoa, pousa o livro, e de seguida, ainda de pé, dá início à apresentação do júri. Inicia pois uma dissertação em que apresenta todos os escritores presentes, enaltecendo as suas qualidades literárias e as obras de maior relevo de cada um, referindo ainda a importância que tiveram no desenvolvimento da literatura, do pensamento e da cultura, na sociedade ocidental e no mundo em geral. Fala de Camus, e do seu papel na evolução do pensamento existencialista na Europa e do trabalho que desenvolveu na defesa dos direitos do homem. Fala de Wilde, da sua obsessão com a ideia do belo absoluto e da forma como defendia que a arte deveria existir independentemente das efémeras coisas da vida. Fala de Joyce, do seu caleidoscópico Ulisses e do impacto que o seu estilo visionário teve na literatura moderna ocidental. Fala longamente de Dostoyevsky, e da poderosa marca que deixou, na matéria de que é feito o espírito humano. Fala também ainda, do mundo poético de Faulkner, do mundo aberto de T.E. Lawrence e daquele sem fronteiras de Stevenson. À medida que discorre, reparo que os visados se empertigam e orgulhosos olham para mim, altivos e solenes. A argumentação é esmagadora. A importância dos presentes é evidente. Como pude? Como pude deixar de lado tamanha grandeza, tamanha monumentalidade? O meu crime é imenso. Os meus juízes são claramente, uma emanação directa de Deus. Sinto-me mesquinho e desprezível. Mas ao mesmo tempo sinto-me pronto a assumir a minha culpa e a aceitar sem receio, de peito aberto, a pena que me será infligida. E apercebo-me que é chegado o momento.

Os autores levantam-se e reúnem-se num grupo compacto em torno a Nemésio. Abraçam-se e cumprimentam-se satisfeitos dando palmadinhas nas costas de Nemésio. “Estiveste mesmo bem, Vitorino!” dizem-lhe. Só Joyce parece continuar meio adormecido, enterrado no seu sofá. Tem uma garrafa de Bushmills irlandês a seu lado e pergunto-me como a fará chegar aqui, a esta tão pura e celestial morada. Subitamente, apercebo-me que há um qualquer problema pois o burburinho inicial passou agora a um muito mais intenso debate de opiniões. Ouço um “Off with his head!” que me parece proferido por Stevenson. Mas é a Faulkner que oiço dizer, levantando o braço na direcção de Nemésio “Mas Ó amigo Nemésio! E a Doris Lessing? E o Pamuk? Verificámos agora aqui na documentação do caso, que o Senhor Grilo também lhes deixou uns livros a meio. Têm que concordar que Pamuk é em si mesmo um monumento literário da modernidade! E a Lessing, embora um bocadinho indigesta, não deixa de ser fantasiosa. Têm absolutamente que ser ouvidos. Isto aqui em cima é, ou não, uma democracia?” Nemésio hesita por alguns segundos, “Bem, eu diria que estando ambos ainda vivos….” Nesse momento, Joyce levanta-se e cambaleante dirige-se aos seus companheiros. “Bem, Ó William, vamos lá com calma pá! Lá que tu venhas pra´qui com as tuas democracias de americano tudo bem, mas a verdade é que o seu amigo Pamuk, também não leu o meu Ulisses todo, Porra! Chegou à página noventa e oito ou noventa e nove ou lá o que é, e depois nada! Como é que é isto? Também vai ter que me passar por aqui na minha frente um dia!” e depois, olhando o infinito com um olhar esgazeado e dando mais um golo da garrafa de Bushmills “Dir-lhe-ei das boas a esse cão de um Otomano!” T.E. Lawrence tira energicamente o kofia da cabeça “Apoiado! A-poi-a-do! Esses Otomanos não são boa gente. Aqui à uns anos atrás também tive um episódio muito desagradável com um Coronel Turco. Nunca mais o esquecerei! Tinha um bigode fininho e sebento que me fazia comichão aqui atrás da orelha! Isso não é boa gente, não, by Jove!” Camus tem o olhar turvado pelos potentes fumos aspirados do seu nagilê. “Lá estão vocês Ingleses com os vossos complexos coloniais! Lá por o Lawrence ter partilhado a sua intimidade com um turco menos simpático quando andava a brincar aos diplomatas pela Arábia fora, não quer dizer que o Pamuk não seja um grande escritor.” “INGLÊS EU?” gritou Joyce com a voz empastelada de single malt, colando o nariz á testa de Camus e espetando-lhe um dedo na barriga. “Como te atreves a chamar-me Inglês, meu miserável pied-noir?” Camus arregalou os seus olhos negros como tições, “Pied-noir com todo o orgulho, Connard!! E fica sabendo que também não li o teu Ulisses de merda, e toma lá esta!” completou desferindo uma sonora estalada em Joyce.

A situação precipita-se. Wilde e Faulkner procuram separar Camus e Joyce. Joyce tenta desferrar um murro em Camus mas em vez de o atingir, golpeia em cheio a face de Wilde, que com um grito estridente alivia a sólida presa em que tinha o Argelino. Este, (com uma agilidade surprendente para quem me parece estar bastante pedrado), escapa-lhe e corre na direcção de Dostoyevski e Stevenson que lhe bloqueiam o caminho. Estes tentam apanhá-lo mas Dostoyevsky, com os movimentos pesados e rígidos devido a uma vida passada a escrever em análise e introspecção, colide violentamente contra Stevenson. A complexa vida interior do primeiro e a mais outdoorsy do segundo revelam-se nesse momento incompatíveis aos olhos de ambos. Para mais, constato, pelos intensos olhares que trocam, que Dostoyevski não leu Stevenson e Stevenson não leu Dostoyevski. Não consigo perceber quem golpeia quem, mas numa questão de segundos, envolvem-se os dois também num intenso pugilato. Nesse momento, Camus tira do bolso uma pistola. Wilde, com um gesto dramático, cobrindo a sua pálida testa com as costas da mão, deixa-se cair desmaiado. Vitorino Nemésio, desesperado, tenta acalmar os espíritos, “Albert! Mas você precisa de estar sempre aos tiros? Não lhe bastam as pistolas das suas histórias? “ Ouve-se um disparo seco. Camus larga a pistola, e de novo com uma grande agilidade, galga o portão de ouro, salta para os degraus de mármore e corre por eles acima em direcção ao céu estrelado. Stevenson, que parecia esperar o momento oportuno, tira rapidamente do bolso um lenço vermelho que ata à cabeça, e seguido pelo seu papagaio que lhe esvoaça em torno confuso, lança-se atrás de Camus gritando a plenos pulmões “A mim, marinheiros! Isto sim que é vida! Ahoooooy!”. Entretanto, ao tentar desviar-se do projéctil que lhe tinha sido dirigido, Faulkner tropeça em Joyce, (que de gatas pelo chão tenta encontrar a sua garrafa de whisky), perde o equilíbrio, pontapeia a garrafa que afinal estava ali à ponta dos seus pés e não conseguindo evitar o vazio do alçapão, cai pelas escadas de granito abaixo, com a dita garrafa que rebola atrás dele. Ao ver isto, Joyce lança um rouco grito de desespero “Nooooo! My last bottle! Fuck you Faulkner! May the Almighty damn you forever!!” e lança-se também pelo alçapão a baixo.

T.E. Lawrence, que até ali tinha estado afastado da acção tentando perceber a dinâmica do conflito, aproxima-se do corpo inanimado de Oscar Wilde e debruça-se sobre ele para tentar perceber o que lhe aconteceu. Wilde, nesse preciso instante, abre os olhos, e sem dar tempo a Lawrence de reagir, abraça-o e puxando-o para si, beija-o ardentemente. Lawrence tenta resistir por alguns instantes mas a admiração que senta pela obra de Wilde, (“O retrato de Dorian Gray” em particular) é mais forte do que ele e acaba por ceder. Enlaçados no seu viril abraço nem reparam que são atentamente observados, por uma dúzia de anjos que, na curiosidade que a sua condição lhes confere, desceram pelas escadas de mármore para poderem ver o que estaria a causar todo aquele estardalhaço. Apercebo-me agora que Dostoyevski apanhou a arma deixada cair por Camus e que se afastou de toda aquela agitação. Parece muito abatido. Talvez sinta a chegada de mais um ataque epiléptico. Senta-se numa das poltronas vazias. Vejo-o levantar a arma e disparar. A cabeça cai-lhe para o lado. Curiosamente, após o disparo, do pequeno orifício que se formou na têmpora, não lhe sai sangue mas sim um enxame de pequenos insectos. São milhares, milhões, que num repente enchem o céu e tudo o que nos rodeia, de cor. De vermelho. São Joaninhas.

Aproveito a confusão para tentar escapar deste manicómio celeste. Caminho discreto até á borda de uma longa plataforma que para lá das poltronas Italianas, se estende sobre o infinito. Só me resta saltar. Saltar para o abismo na esperança de ir parar a algum sítio consideravelmente mais tranquilo do que este. Sinto nesse momento e mais uma vez o sotaque Açoriano de Vitorino Nemésio atrás de mim. “Valha-me Nossa Senhora, meu caro Senhor Grilo. Que vergonha.” Duas profundas rugas na testa revelam um estado de espírito cansado e um pouco amargurado. “Isso. Vá. Vá para baixo, e por favor não refira a ninguém o que aqui viu.” Diz-me pesaroso. “Decididamente não era chegada ainda a sua hora.” E então com uma voz doce e piscando-me o olho, diz-me “E não se esqueça de lá em baixo, acabar o meu muito singelo livrinho. Sim, sim, esse que não acabou e que nem passou da página sessenta e dois! Olha que vale a pena.” E ainda com um olhar um pouco triste “É que sabe? Eu gostava tanto de o voltar a ler, o meu livro. Imagine que aqui em cima não nos deixam ler livros! Podemos só falar de nós mesmos, escritores, uns aos outros, até à mais profunda da náusea. E depois, sabe, como consolação fazem-nos cantar uns salmos gregorianos deveras aborrecidos. É uma tristeza, meu caro amigo. Uma tristeza. Ah, se eu soubesse o que sei hoje” E sorriu com um sorriso maroto. De coelho. Abraça-me efusivamente beijando-me. Deseja-me boa sorte e dá-me uma forte palmada nas costas que me faz cair desamparado no vazio.

Caio agora em queda livre. À minha volta, no espaço, suspensos, estão milhares de livros, em muitas línguas e de todos os tipos e tamanhos. Semi-abertos parecem pássaros que planam ao vento. Sei agora que ainda não foi desta. Foi-me dada uma segunda chance e a primeira coisa que farei com ela quando regressar lá a baixo é ler o “Mau tempo no Canal”. Prometi ao Nemésio que o farei, e para mais, sei agora que se não me despachar, lá em cima, um dia, não mais o poderei fazer.

Vasco Grilo

PS: Depois desta vergonha toda, seria bom que alguém fizesse aqui um dia a devida homenagem a Vitorino Nemésio. Eu pela minha parte vou mesmo começar por ler a dita obra prima que por pouco me ia condenando às penas do Inferno.


Comentários a “Nemésio contado às criancinhas” (6)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Excelente, Senhor Grilo.
    Uma empreitada em rap-sódia, e com piano ao fundo!

  2. Luciana diz:

    Uma viagem extraordinária, como extraordinário é esse blog!

  3. Joana Vasconcelos diz:

    Vasco, que maravilhosa e delirante experiência, a tua! E a nossa, claro, de tão bem que no-la contaste!

    Gostei de tudo, tudo, tudo — em especial de ninguém ter afinal lido o maldito Ulisses, do revelador Bushmills, do lenço vermelho, da zaragata, dos anjiinhos curiosos e, claro, da libertação das pobres joaninhas aprisionadas naquele fastidioso cérebro …

    Só achei um bocado incrível não te terem dado uma toalhita que fosse, tipo aquelas da sauna, para que, um tudo nada mais, vá, composto, pudesses focar-te mais intensamente no que te estava a suceder. Mas, bem vistas as coisas, a partir de certa altura, verdadeiramente it really didn’t matter anymore

    Em todo o caso, sorte a tua que o Nemésio, tendo morrido em 1978, patentemente desconhece a existência das fantásticas das máquinas Nespresso, caso contrário ter-te-ia extorquido uma (e cápsulas, claro), fazendo-te, além de incorrer em despesas, ter de voltar àquele sítio para lha entregar, com mais outro piano de cauda a pairar-te sobre a cabeça.

    PS — A leitura do Mau Tempo no Canal vais ver que não chega a ser penitência. No post que vou publicar mais logo sobre as minhas queridas heroínas falo da Margarida — da Margarida Clarke Dulmo, bem entendido, não da outra, a sulfurosa Margarida Victória, Marquesa de Jácome Correia … . Podes ler à vontade, que não tem spoilers … e pode ser que te até anime …

  4. Eugénia de Vasconcellos diz:

    M. Grillon, está tomado por uma culpa nemesiana que, por mitológica condição, não o deixa esquecer-se?

    • Vasco Grilo diz:

      Sim, esta noite voltei a sonhar com ele. Desta vez apareceu-me sob a forma de uma enorme Anaconda com óculos, que me queria devorar. Acordei e ingeri imediatamente mais duas páginas do “Mau tempo no canal”. Foi tudo para baixo com uma água das pedras.

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