Um dia, há pouco tempo, estava a ler um estudo sobre o cérebro masculino, feminino e as diferenças entre. Pensei: Zás!, está aqui, está uma fracturante aos gritos que é igual igual IGUAL! Silêncio por cá, molhos de vozes nos EUA que tendem a gritar sempre antes da Europa. Porque é que o raio do cérebro feminino haveria de ser funcionalmente idêntico ao masculino? Pior.. porque é que não sê-lo, é mau? Acaso o feminismo obriga a ter como paradigma o homem? Isso não é machismo? E sempre aviso a navegação desatenta: não encontro qualquer indignidade no trabalho doméstico, mas acredito que fere a dignidade de quem o executa, denegri-lo, penso que precisamos do marido/namorado/ híbrido, não para que venha ser nosso pai, que essa conversa já chateia, mas para o comermos de beijos e outras inutilidades sagradas, profanas, práticas e doutro modo impraticáveis, materiais ou absolutamente desmaterializadas, mas essenciais à felicidade. Porque isto é pouco, sim, Deus existe. Qualquer coisa: blame it on the books.
Quando eu era pequena, se tinha heroínas, não sabia. Porque eu era elas a espetar o dedo no fuso de uma roca e a dormir cem anos. A avançar na floresta, já que me queriam o coração, prova de morte, numa caixa, ainda que não fosse viver com os Sete Anões porque nunca quis viver com os Sete Anões, não gostava daquela vida com Sete Anões, eram homens velhos de barba branca como se fossem crianças. Não. Não me apanhavam lá. Metia-me medo. Preferia, de verdade, medo por medo, tê-lo da maluca da Rainha de Copas, sempre era doida, e andar num lugar onde não se percebia nada de nada, mas não era preciso fingir que se percebia. Não sabia que a Gata Borralheira, Cinderela que nos vingava, era uma heroína. Ou que a Bela do Monstro era. E desta sempre gostei mais que muito. Ainda hoje. Até porque, quando se é pequeno, não se supõe que uma Sereia que se deixa transformar em espuma de mar para não enfiar um punhal no coração de um ingrato, possa ser heroína do que quer que seja. Quando se é pequeno, ser herói é ganhar, vencer os maus e de preferência dar-lhes um enxerto de porrada. Um coração igual ao nosso mas mais forte e melhor. Vá, até mesmo substituir a pancadaria que merecem por uns valentes castigos. Em branco.. os maus, santa paciência, não passam. Os heróis de mim pequena eram príncipes, guerreiros, fadas, todos de extraordinários poderes rimados de matei o dragão, beijo-te, és minha e uma abóbora é uma carruagem na ponta da minha varinha, ou poderes desejados, esta é uma casa encantada, eu com ela, nós dentro até que tudo luz. Herói não era porque homem, mulher, ou ser, ou bicho.
Não cresci muito porque caí directamente na banda desenhada a galope do Zorro e coladinha ao Fantasma com quem pensei seriamente em casar. A primeira vez que me ocorreu isso de modelos morais devia ser como ela, sem que ela fosse a minha avó ou a mãe, foi com a Nossa Senhora. Talvez fruto das aulas de preparação para a Primeira Comunhão, onde aprendi o que não sabia: as minhas maldades de pedir desculpa e não faço mais, acreditando que não faria até à próxima feita, eram na realidade um pecado terrível que não sabia exactamente qual era, mas havia de ser terrível de certezinha, porque ninguém dizia qual era, só que era original — e não porque fosse genuíno, antes porque estava na origem. Havia de ser medonho. Obediência. Bondade. Cuidar bem do chorão, levá-lo a passear de carrinho e fazer-lhe uma festa de baptizado. Tudo sem pai como mandava o figurino. As meninas com chorões são sempre mães sem pais, mulheres sem marido. A segunda vez que me ocorreu devia ser como ela, foi com a Scarlett. Contudo, sempre com as asas da culpa da Melanie e da Nossa Senhora, anjos de Branca Neve, a pairarem por cima, e vá de tapar os ouvidos e ouvir na mesma e querer ser na mesma.
Sim, claro que também quis ser bem comportada como a Anita, exemplar, todavia, nunca — bem gostava. E também chorei com a Sarah Crewe. E escrevi quilómetros com a Jo March. É evidente que me apaixonei pelo Mr. Darcy quando fui cinco longos segundos de Elizabeth. Que me enganei uma fartura de cada vez que fui Emma e me benzi só de pensar que podia ser a Jane Eyre — que horror no sótão! Nunca me senti Guinevre, apesar da paixão pelo Thomas Mallory. Nem o Salgari, apesar do Sandokan, nem o Dumas apesar do Monte Cristo, me fizeram querer ser rapaz — Verne, confesso, só li em bd. Dava-me uma seca do piorio porque, na altura, apaixonada pelo Pedro Bala, tinha a cabeça toda formatada em Jorge Amado e a professora de Português, no colégio: Vasconcellos!, a menina não pode ler isso, é impróprio! Vá lá que só podiam mandar-me ao gabinete da Madre Superior, e, ó que desgraça tão desgraçadinha, trocar-me o recreio pelo exílio na biblioteca.. Nada de puxar orelhas, nem de dar reguadas porque o 25 de Abril continuava vivo e de boa saúde, excepto para a professora de ballet que por ser adepta, nem de propósito, da escola russa, batendo-nos no exacto local do corpo que falhava para lhe ensinar directamente a correcção, a nós, nem nos tocava. Prodígios da dança. No castigo, conheci o Descartes antes de saber o significado de filosofia — gostei-o logo na carta.
Quando dei por mim, tinha perdido a Scarlett, do mais vivo que pode haver, ainda que nunca tenha existido, porque estava entre gente, ó paradoxo, verdadeira, porém morta e morta de morte morrida, em versão instantânea, ou lenta. Era a tal da fase sombria da adolescência antes toda solar: Sylvia Plath, gás, Virginia Woolf, água, Emily Dickinson, filha, Pessoa, álcool, Hemingway, miolos à Pollock, sempre eles, não os personagens deles. Mas mais, muito mais, uma adoração por Eça. E Hesse. E uma curiosidade aguda e indiscriminada, Lessing? Venha.. Guimarães Rosa? Venha também. Venha o que houver. Havia.
Ao fim da última linha da infância legal, uma inveja admirativa por Agustina — malvada, malvada!, escondida de mim, como?! Ainda hoje não percebi esse estúpido segredo até aos 18 anos. A idade em que conheci a Murasaki Shikibu e o Sena, a preceito. Depois? Depois é o que se sabe, poemas e crónicas de poetas e cronistas, uma fraqueza que se me dá, ensaios e autobiografias, as únicas autópsias que interessam por junto com os romances, uma fraqueza, ó de mim, sem fim. O que vale é que o cinema não entra nesta conversa, nem as proscritas séries de televisão.

















Eugénia, talvez não saiba mas eu sou um plástico. E embora surdo, gosto, acho que conheço, o canto. Algum.
Tenho de confessar que adorei aquela dos miolos à Pollock para lá de todas as associações. E no despropósito do propósito bem que gostava de saber qual foi o livro do Hesse de que mais a impressionou. Eu, que tenho uma cabeça em que metade é matemática e outra é teatro, tudo em sarabanda e contraponto entre as meninges e a calote, comecei por alcandorar o Lobo da Estepe, anos mais tarde substituído no panteão pelo Jogo das Contas de Vidro.
Escondida de mim, como?! Que boa pergunta para se fazer ainda no prazo legal.
Mas do que gostei mesmo foi dos hors d’oeuvres.
Bela automicrobiografia.
Caro Antoine, O Jogo das contas de vidro é uma obra prima. Se eu só pudesse ter um Hesse, era esse. Mas ficava triste. Só há um livro que reli mais vezes, e eu tenho muito o prazer da releitura, Os Maias. E do meu, todo seu, Eça, se só pudesse ter um, tinha de ter dois: A cidade e as Serras e Os Maias.
Merci.
Cara Eugénia de Vasconcellos,
O que me pasma em Eça, para além da escrita ágil, é a actualidade toda feita contemporaneidade. É isso que continua a fazê-lo intemporal. Vá-se à Cidade e as Serras, retire-se o telégrafo e substitua-se pela internet, verta-se aquele tormes da bojuda infusa (de preferência de alto para despertar o petillant — já aqui falámos disso, António Eça) e teremos um ambiente de turismo de habitação com as facilidades do séc. XXI… num romance do séc. IXX.
Afinal, a bruxuleante característica auto-reclamada por M. Antoine, tem a sua explicação, e já vem de longe…
PS. para já não falar nas actualíssimas notas e excêrtos políticos e sociais que circulam afanosamente pela net.
Bingo, carago! (desculpe, carago!)
Já li o jogo três vezes — a terceira muito para me certificar que tinha apanhado tudo o que era possível.
De Cela Silvestre ao lago da montanha, passando pelo Teatro Mágico — só para loucos. E cantatas de Bach em Andares. Por vezes acho que me confundo, ou me fundo, com certas obras.
E os Maias. Só há três Eças que não reli: a Ilustre Casa, a Capital — só li a edição crítica do Carlos Reis e as Lendas de Santos.
Tenho mesmo uma estratégia: quando não me apetece decidir o que ler pego num Eça. Revisito as Notas Contemporâneas em ritmo de ciclos. Até me arrepia. Continuam contemporâneas.
O Eco e o Maalouhf às vezes também entram nestes festins, mas num registo não tão sagrado.
O meu Eco e Maalouhf, às vezes, é Borges. Ou um dos meus americanos dum raio. Ou então poetas, ou daqueles, raça perigosíssima, que enfiam a poesia na prosa como aquelas balas que depois de entrar no corpo se estilhaçam.
Mas onde foram buscar essa arrevesada grafia de Maalouf?
«E agora passeia o teu olhar sobre Samarcanda! Não é deveras rainha da Terra? Altiva, acima de todas as cidades e nas mãos dela os seus destinos?»
Cara Eugénia de Vasconcellos,
Há tempos deixou-me entristecido com a contradição do seu declarado “tudo gostar” de Omar Khayyám, e só possuir a edição da A&A de H. Naimova.
Pois bem, aí na Sardenha, se não em Nápoles, numa FNAC perto de si, tem aparecido — e desaparecido –uma edição francesa de Khayyám, da Babel, apresentação, tradução e notas de Hassan Rezvanian… Ainda não tem? De que está à espera?
Caro Orcama,
o Maalouf é do nosso Antoine, eu sou uma desconhecedora de aminescritos. Pelo menos por enquanto.
Gosto do Khayyám, todo, desigualmente, é certo, mas todo. Só tenho o que então referi. Vou espreitar esse que me recomenda. Merci.
Bastará levar € 7,80 para trazer 637 robâiyât, 636 notas de tradução e 28 páginas de estudo introdutório, tudo em edição de bolso. Aliciante, não?
Pelo tamanho, ainda caberá no cesto da sua bicicleta…
Também vou à boleia da sugestão, aliás, fui: http://www.amazon.fr …e trouxe mais uns na volta . Para quem mais se interesse, a H. Naimova dá uma conferência na UCP — Instituto de Estudos Orientais um destes sábados, 19 ou 26, já não sei bem.
A tradução de Naimova é muito bonita. Se depois quiser contar desta… E obrigada pela nota sobre a conferência, Marta.
Ps: Não sou particularmente bisbilhoteira, mas se vejo um livro em cima da mesa, ou nas mãos de alguém, tenho logo de ver o que é, uma vergonha. Fiquei a pensar o que é que trouxe na volta, foi poesia?
Orcama, a primeira vez que li o OK foi em inglês, numa tradução do também poeta E. Fitzgerald — que já não tenho. Agora vou conhecer a que me recomenda. E desconfio que, não sendo maior do que o Cão, caberá, sim, no cesto da bicicleta. Mas se tiver ínfimas, ínfimas letras, daquelas que até dificultam a leitura, venho aqui zangar-me consigo.
Cara Eugénia de Vasconcellos,
Vou fazer-lhe aqui uma confidência…
O meu “problema” com OK é mesmo o da tradução. Tanto assim que, para tentar entende-lo, esforcei-me por criar uma chave numérica que me permitisse comparar as diversas opções de tradução para cada quarteto. Fiquei-me por três e quedei-me… deveras chateado!!!
A ideia era comparar as traduções de Fitzgerald (Wordsworth/1993) e estas outras que, suspeito foram feitas a partir dele: Fernando Castro (Estampa/1990), Alfredo Braga (disponível na net) e Sylvio Silveira Santos (disponível na net), ambos brasileiros, tal como as de Manuel Bandeira (com muitos brasileirismos) e Octávio Tarqüineo de Sousa. Ainda não possuía a de H. Naimova, a única que é bilingue, mas sendo em Persa… não é para mim.
Daí que, esta que referi, feita por um Persa de expressão francesa, numa língua latina como a nossa, cujas “nuances” nos são mais fáceis de entender do que o inglês, me tem sido de grande ajuda.
Quanto ao tamanho da letra, nada tema (nas notas, não digo o mesmo). Padeço do mesmo mal.
Estou de fugida.. já cá venho falar consigo, caro Orcama.
Imaginei-a santinha, às vezes rainha serena da serena Sardenha. Vejo agora que é Sereia. E de noite, transforma-se em espuma do mar?
Estou encantado: vou ficar horas a decifrar todas as suas heroínas e porquê. Venham as que houver!
Pois sim.. tire daí o sentido que não há cá sereias, nem metafísica, enfiava o punhal no coração do ingrato e pronto.
Boa noite.
Eugénia, li de sopetão, para desatar aos tais gritos. Mas não. Reli. Nada. Fui gozando os comentários e as respostas à medida que iam aparecendo. Gostei tanto. Estou louca de sono. Volto amanhã para um lindo comentário.
Este já é lindo, Joana.
Eugénia, gostei de tudo, mas vou comentar primeiro os comentários: agoro sim percebo que entre Paris e Portugal, seja na serra ou à beira mar, prefiro a opção lusitana.Talvez reflexo das leituras de Eça no princípio da minha adolescência, naquela fase em que você não sabe ainda muito bem quem você é e muito menos percebe-se da influência das leituras na sua vida futura.
Quanto ao post propriamente dito, já gostei logo do prólogo. Depois voltei na infância, embora quanto mais eu me lembre, mais acredito que tenha sido uma criança diferente. Eu achava muito boba a tal Branca e como é que uma pessoa envenenada permanecia viva num caixão de vidro no meio da floresta. E sorte demais o principe encontrá-la, não é? E assim foi com a Gata Borralheira e outras figuras clássicas como Rapunzel.Embora eu achasse plausível que Dorothy tenha sido carregada por um tornado da fazenda da sua tia, no Kansas.
Mas buscando pela memória eu gostava era mesmo das Mil e Uma Noites, que era praticamente meu livro de cabeceira.Mais tarde substituído por Alencar, Machado, Eça e Veríssimo, além do Vasconcelos
Nem sei quando foi mesmo que conheci o Fantasma, mas aquilo era definitivamente um ideal de herói. E ele namorava a Diana Palmer, que pilotava aviões e era funcionária da ONU.
Apesar de gostar muito do período arthuriano nunca pensei em ser Guinevere também, mas já quis morar na Ilha de Avalon.E isso muito antes das Brumas. Na minha imersão pelos livros de Z. Bradley me identifiquei com Emmily, a Dama dos Falcões e desejei viver em Darkover, aonde vivia também a Rainha da Tempestade. Coisas de adolescente.
Olá Turmalina,
obrigada. Claro que estas heroínas, pelo menos algumas delas, e por aqui, ocidentalmente falando, são tão nossas quanto de antes e amanhã, são transgeracionais. E são um património comum ao qual se acrescenta, sem retirar, que nos aproxima pensamento e modos.
E eu gosto dessa aproximação :o)
Eugénia, porque passei o dia a argumentar ferozmente em juridiquês e estou exangue e tão seca como a múmia-arenque do Fradique, aqui fica o prometido comentário, não tão lindo como eu gostaria e num deplorável estilo numérico-telegráfico, antes de me retirar para ir dormir uma parte dos 100 anos de que bem precisaria:
1 — Gostei muito da itálica introdução. Tem link, o estudo?
2 – Quanto ao trabalho doméstico, absolutamente de acordo. Apenas acrescentaria que o dito, entendido num sentido latíssimo, deve ser justa e solidariamente dividido: é a fórmula perfeita para que ninguém deprecie ninguém, ambos saiam dignificados, aos olhos do outro e próprios, com dizem que comprovados benefícios na secção das sagradas, desmaterializadas e essenciais inutilidades que coexistem ao que parece muito mal com sobrecargas e consequentes estados de saturação e exaustão …
3 – O seu texto confortou-me, nem imagina quanto: sempre achei um horror a ideia da casa dos Sete Anões!
4 – Deliciei-me com a sua infrutiferamente culpabilizadora catequese: as minhas queridas freiras eram tão à frente que nunca ninguém me explicou tais coisas. Não me lembro de me terem falado em pecados originais ou não, obediência, culpa e afins. A família devo dizer que também não ajudou. Fiquei com graves lacunas nesse campo. Que coisa.
5 – Agora a sério, o seu texto conseguiu fazer-me rir dessa morte que me gela, com o metódico inventário de escrevedores mortos e suas mortes morridas, em versão instantânea, ou lenta.
6 – Continuo/amos à espera do lindo post sobre os seus maridos, apenas aflorados neste texto que, por isso me parece carecer de urgente completação …
7 – Séries de televisão? Proscritas? Completamente? Como assim? É que não estou bem a ver … Talvez fazer um postzito, não? Sff? Liiindo?
Joana, para lhe responder como devo, responder-lhe-ei depois. Durma bem.