As minhas heroínas, aquelas nas quais, ainda criança, me revia ou me imaginava, ao lê-las, tinham — vejo agora que as pus todas lado a lado numa folha em branco, prontinhas a entrar neste post — muitos traços em comum. Gostavam de ler e de escrever, pensavam pela sua cabeça e diziam o que pensavam, mediam forças com os rapazes, fosse nas aulas, no recreio da escola ou no gelo, sobre patins. Sabiam o que queriam da vida e tinham génio e ambição para muito mais que o limitado papel que lhes estava reservado. Prosseguiram os seus sonhos mas — e isso para mim fazia todo o sentido — sem afrontar ou escandalizar, sem romper com os pais, a família, o meio. Talvez por isso, no fim, conseguiram have it all – ser professoras e escritoras, conquistar o amor da sua vida, ter uma família. Refiro-me, evidentemente, às minhas adoradas Jo March (de Little Women), Anne (de Anne of Green Gables) e Judy (de Daddy-Long-Legs). E também à encantadora — e real — Laura Ingalls (de Little House in the Prairie).
Por razões diferentes, mas não menos fortes, admirava a resiliente Sarah Crewe (de A Little Princess), cujo mundo desabou no dia em que perdeu o seu adorado pai e todo o apoio e protecção que este e a sua imensa fortuna lhe garantiam, mas que sobrevive a todas as desfeitas e humilhações da horrorosa directora e colegas da escola by making the most das mais pequenas alegrias e da dedicada amizade dos mais simples entre os simples.
Last but not the least, uma heroína a sério, em todos os sentidos — Miep Gies, a querida Miep a que se refere Anne Frank no seu pungente Diário (que graças a ela chegou até nós) e que morreu há escassos meses, com quase 100 anos. Um exemplo de compaixão, de solidariedade e de fabulosa coragem, em tempos absolutamente adversos a tais valores.
Vieram depois, já em plena adolescência, outras heroínas que me ficaram para sempre. Que, apesar dos dois séculos que nos separam, ainda me encantam e me inspiram. Três delas devo-as à talentosa Miss Jane Austen – Ellizabeth (Lizzie) Bennett (de Pride and Prejudice), inteligente e frontal, coerente e dedicada, divertida e irónica; Elinor Dashwood (de Sense and Sensibility), a personificação da sensatez e da compostura, por contraposição à arrebatada Marianne, e que se revela afinal, a verdadeiramente passionate soul, hopelessly dedicada a um amor que crê impossível; Anne Elliot (de Persuasion), que por temer arriscar, recusou o amor da sua vida que, muitos anos depois e em condições totalmente adversas (por já não ser muito nova e por via de um grave reversal of fortune) consegue, perseverante, (re)conquistar. Ainda nos clássicos, mentiria se não confessasse um fraquinho pela despachada, nem sempre ortodoxa nos seus métodos, mas irresistivelmente charmosa e combativa Becky Sharpe (de Vanity Fair).
A completar o fabuloso elenco das minhas absolutamente preferidas, duas heroínas saídas de páginas escritas em português – a admirável Madalena, a própria Morgadinha dos Canaviais, e a romântica e “levantada” (no dizer da sogra, claro) Margarida Clarke Dulmo, do Mau Tempo no Canal. Madalena por ser completa: sensata e audaz, moderada e arrebatada, esclarecida, generosa e acessível. Margarida, por recusar substituir a dolorosa e verdadeira lembrança dos seus dois amores para sempre impossíveis pela bem-intencionada mas sufocante perfeição de um match made in heaven – tudo isto centrado no anel-serpente e no gesto totalmente simbólico, mas belíssimo e libertador, com que termina o livro e que jamais me canso de reler.
Porque o tempo e a vida nos mudam e nos tornam mais tolerantes ou porventura mais atentos ao essencial, dei por mim a acrescentar recentemente ao meu lote duas improváveis e contraditórias heroínas.
A primeira, uma das mais surpreendentes personagens com que me lembro de ter cruzado — Lisbeth Salander (a fabulosa hacker da série Millenium). Uma criatura desconcertante e em absoluto não recomendável – catalogada e vigiada pelos serviços competentes como perigosa sociopata, coberta de piercings e tatuagens, com uma desordenadíssima vida sexual, capaz de arranques de uma atroz violência, gelidamente amoral. E, não obstante, genial, talentosa, persistente, lutadora e capaz de uma comovente dedicação e lealdade aos poucos que deixa que se aproximem da sua alma em ferida. Profundamente humana, afinal.
A outra, a ruiva e rechonchuda Mrs. Weasley, que ao longo dos sete volumes da saga Harry Potter nos surge como a Mãe – dos seus sete filhos, de todos os amigos destes que constantemente acolhe e cuida na sua sempre movimentada e desarrumada casa. Calorosa, segura, sensata e divertida, é também mandona e despachada, corajosa e frontal. As suas artes mágicas, muito “de trazer por casa”, eram a minha delícia e a minha inveja. Mas como feiticeira não riscava grande coisa — esse o único senão da encantadora personagem. Até à cena, decisiva e já no fim da saga (atenção, spoiler!!!) em que, de um só golpe de varinha e movida pelo mais primário e poderoso dos instintos, fulmina a mais talentosa e rápida das bruxas, e a mais má delas todas – a minha, malgré tout, Bellatrix – que se preparava para lhe matar a filha, enquanto grita, inequívoca, “not my daughter, you b—-”! Eu faria o mesmo. Com ou sem varinha.


















Joana, Joana, que post maravilhoso e que pena que me dá ter que ir agora à sala de aula…mas volto, volto, pra tecer mais louvores às suas heroínas tão extraordinárias como quem lhe tece ode!
Obrigada Luciana, ficamos todos à sua espera … Boa aula!
Não me queira mal, minha cara Joana, mas invejo-lhe essa infância tão li(n)da.
Eu nada recordo do meu tempo de menina e muito menos destas reflexões e afinidades. Eu apenas lia. Lia tanto e tudo que podia. Não tinha heroínas nem heróis. Tinha bem-quereres.
Mas, ainda assim, por força de ficar parecida não às heroínas mas à você, encontro afinidades: Jo March (embora lhe achasse um tantinho rabugenta), Miep Gies (e a própria Anne Frank), as moças de Austen (e, de todas, Lizzie mais que todas)…
E de começar a pensar, elas começam a chegar: Emília (a boneca de pano que tagarelava sem parar), Aurélia e Diva do José de Alencar, Iaiá Garcia do meu querido sempre Machado de Assis, a moça de salto de lamê dourado, vestido de seda natural e chapéu de homem (poucas coisas me fizeram mais eu do que ler esta frase: muito cedo na minha vida era tarde demais) na travessia do Mekong e, mais que todas, sempre e sempre indelével em mim: Marquesa de Merteuil. Elas chegam, agora, em procissão, risadas coquetes e espadas em riste, mas já escrevi demais.
Fico, além de invejosa, grata, por recordar tanto.
Luciana, que maravilhoso turbilhão de bem-quereres!
Gostei de saber as que temos em comum — eu também adorava, claro, a tagarela Emília!!! — e das outras, muitas das quais não conhecia. E acima de tudo de reencontrar a jovem Marguerite Duras, de L’Amant…
Bem, Joana… Que dinastia!
Não deixa de ser muito curioso meter quase à má fila a Salander — que cá em casa todos dizemos lembrar imenso a Joana (minha filha). Gosto da comparação e gosto muito da personagem — mimeticamente pelas mesmas razões que defende.
Mas eu sou um péssimo juiz para heroínas do passado. Por esse passado também ser meu, numa altura em que as miúdas eram chatas e as mulheres seres distantes e absolutamente misteriosos…
O meu sincero (bold please…) parabém!
Olá António, ainda bem que gostou! A Salander foi uma autêntica revelação — e olhe que os policiais que eu leio e troco com a minha avó estão cheios de investigadores mais ou menos bizarros. Fiquei fascinada e achei irresistivelmente divertido sentir tamanha empatia e quase afecto por semelhante criatura, cujos actos, mesmo os mais, vá, questionáveis, ora aplaudia, ora tratava de justificar e desvalorizar, pois então …
Joana, gosto um tanto também dessas suas duas últimas personagens :o)
Quanto à mim, já falei demais no último post…
Olá Turmalina, o que você escreve nunca é demais: pelo contrário, valoriza e enriquece os nossos textos. E — deixei lá escrito — adorei o cimentário de ontem!
:o)
Que elogio Turmalina. CIMENTÁRIO! Isto é, comentário em cimento. Sólido, impositivo, inamovível, perene!
E ainda aqui não passou Eugénia de Vasconvellos… Ela que anda sempre com a saquinha dos neologismos com que, criativa e distraidamente, vamos enriquecendo a nossa Lingua.
Parabéns Joana Vasconcelos!
Adorei o CIMENTÁRIO, Mr. Orcama!
Neologismos nos nomes de baptismo não vale. Reconheço, exagerei. Mea culpa. Se Ela aqui passa, óh gentes, apiedem-se de mim… (que santo devo invocar em meu valimento Joana Vasconcelos?).
Olá Orcama, muito obrigada antes de mais!
Quanto à variação que acima compôs com o apelido da nossa EV, não creio que seja caso para preocupação ou sequer para recorrer à intercessão de qualquer santo: porque foi involuntária, porque confessou e mostrou apropriada consternação, porque a letra acrescentada foi afinal um V, de Vasconcellos e, acima de tudo, porque a nossa EV não é credo assim como a parece querer fazer!
Também eu tenho grande apreço pela morgadinha, elle même e pela Margarida Dulmo. Todavia: a primeiro me parece a caminho de uma enorme infelicidade. Tivesse Júlio Dinis escrito um “Morgadinha 2″ e vê-la-íamos a letejar de desespero com a bisbilhoteira pacatez da aldeia, demasiado estreita para sua ambição existêncial e desencantada com um marido tão conformado e, ao mesmo tempo, tão intransigentemente ético. A Dulmos, se bem me lembro também acaba mal: não termina atirando o anel pela borda fora no barco que a leva para o Continente, na sua lua de mel? Já li o romance há demasiado tempo, não me recordo bem.
Zé, absolutamente de acordo com os seus negros prognósticos quer quanto à rural e pacata felicidade da Madalena, quer quanto ao ainda curto casamento da Margarida com o simpático André. Mas justamente estou certa de que aquilo que me agrada e sempre me agradou numa e noutra — a combinação inteligência-sensatez-pragmatismo-abertura na Morgadinha e romantismo-idealismo-inconformismo na Dulmo — decerto as faria lidar com tais cenários de uma forma porventura surpreendente, arrojada ou mesmo nada convencional, mas que jamais passaria pela mera aceitação ou resignação …
PS — O Mau Tempo não acaba mal … nem bem … Tem a cena do anel-serpente de que muito gosto, pelo que simboliza e pelo que deixa antever do que disse acima … Mas é melhor ficar por aqui, para não spoilarmos isto ao nosso Vasco, que anda tão cheio de bons propósitos …
Bem sei, tornou-se um cliché a frase de Kristeva: quem escreve, escreve-se. Mas é tão verdadeira quanto a sua proposta, Joana: quem lê, lê-se, para ser ou desser.
Vai querer dar-nos o gosto, Eugénia?
Joana, vai-me dar gritos, tenho a certeza..
Liiindooo!
Que ideia fantástica, a lista de heroínas literárias.
Para mim, Jane Eyre é a heroína perfeita, alguém que foi profundamente injustiçada, mas que não se vitimiza, nem vitimiza os outros; a sua dedicação aos estudos é contrabalançada por uma veia artística inspiradora; é contida, mas profundamente apaixonada.
Entretanto, vou pensando noutras…
Bem, também gosto muito da «esparvoada» Ema.
Hello Sofia!
Gosto da resiliência e da dignidade da Jane Eyre. Mas é talvez uma heroína de que se gosta mais à medida que se vai crescendo. A Emma é que, confesso, apesar de luminosa e divertida, me levava volta e meia ao desespero — a bem dizer, era mais ao exaspero …