Lemos o que não somos ou não queremos ser

Desde cedo tive a noção de que o que lia me revelava muito daquilo que eu era ou gostaria de vir a ser, através das heroínas que me agradavam e inspiravam, mas também muito do que eu não era e de modo algum quereria ser, por via daquelas outras protagonistas que me desgostavam, enervavam e, não raro, constrangiam. E foi justamente por estas que aqui decidi começar a minha resposta ao desafio lançado pelo Manuel.  

Como muitas crianças da minha geração, devorei quantos livros da Enid Blyton consegui apanhar. Os Cinco e os Sete, as Gémeas no Colegio de Santa Clara e o Colégio das Quatro Torres, a série Mistério e a colecção Aventura, entre outros. Li-os e reli-os vorazmente, em momentos de emoção e divertimento (e de fome, a fome que davam aqueles pequenos-almoços, lanches e ceias) que fazem parte das minhas mais felizes memórias. Mas se como livros de aventuras eram imbatíveis, já no que a heroínas se refere, o panorama estava longe de ser animador. O exemplo acabado eram as duas meninas dos Cinco, que alternadamente me desesperavam. A temerosa Ana, super-protegida pelos irmãos, que invariavelmente desaparecia a meio do plot, porque chegada a da aventura, ficava em casa ou a vigiar o portão, porque era perigoso. E a incompreensível Zé, a rapariga que não gostava de o ser, que se vestia e usava o cabelo à rapaz, que exigia ser tratada por um nome masculino (Zé, porque Maria José, na tradução portuguesa, George, porque Georgina, no original) e como um qualquer rapaz. Identificar-me com uma ou com outra não era escolha, era dilema.  

Mas havia pior. As Meninas Exemplares, as exasperantes Camila e Madalena, sobretudo a primeira, já que a segunda em uma ou outra ocasião perdia a cabeça, para meu profundo alívio. Elas eram bondosas e suaves, submissas e obedientes, compostas e contidas. Não pensavam nem diziam mal de ninguém, jamais levantavam a voz. Tamanha perfeição, só superada pela das suas plácidas mães, enervava. O contraponto? Desanimador: a caprichosa  Margarida e a disparatada Sofia. Que apesar de altamente refrescante, neste abafado contexto, convenhamos que ia um bocadinho longe demais – salgar e cortar às postas com uma faquinha os peixinhos que ia arrebanhando do aquário da mamã? Ó valha-me Deus …

Por ter passado parte da adolescência num colégio que fora um antigo internato feminino tive acesso a uma biblioteca absolutamente incomum. Cheia de livros que eu nem sonhava que existiam – a minha mãe foi educada por uma avó, professora primária imensamente strict e feminista, que achava um horror esses romances para raparigas. Lá em casa só entravam Dumas e Walter Scott, Salgari e Stevenson e mais uns quantos, que eu já lera e de que muito gostara. Mas isto era outra coisa. Berthe Bernage. Brigitte Jeune Fille, Jeune Femme. A colecção todinha: 35 volumes. E ainda Le Roman d’Elizabeth. Foi um festim. Li-os todos. Um por um. De seguida. Num crescendo de fascínio e horror que me impedia de parar. Tudo aquilo era tão edificante e modelar que arrepiava. A doutrina dos três K – Kinder, Küche, Kirche, na sua esplendorosa plenitude. A Brigitte propriamente dita até tinha graça – era mesmo bastante normal. O problema é que a pobre vivia numa permanente angústia, a martirizar-se (ou a sê-lo, pelos próximos) por não ser tão dócil, compreensiva, contida e modesta como as cunhadas, a angelical Chantal, que encarnava todas as perfeições e era freira e a sofredora Chonchonette, casada com o estróina do seu mano mais novo. O Roman d’Elizabeth era bastante pior. Confesso que para despachar os 6 volumes me forcei a acreditar que a própria iria dar um belo de um mau passo com o seu apaixonado Florêncio ou, quem sabe, apanhar uma fúria. Mas não. Que nervos. A parte boa desta saga literária? Para além de ser uma experiência absolutamente única? Pois ajudou-me muito a perceber aquilo que definitivamente não era, nem queria ser. E sobretudo permitiu-me apreender, na sua versão laudatória, os contornos e as fundas raízes de um estereótipo, para mim até então desconhecido, que insidioso teima em subsistir ainda entre nós.

Por último, não poderia deixar de referir a arrepiante Mónica, cujo Retrato nos é magistralmente traçado por Sophia, nos Contos Exemplares. Para uma fervorosa multitasker como eu, aquele texto começa por ser irresistível de apelativo. A meio torna-se numa caricatura que incomoda. E segue em crescendo de pesadelo, mas o fim é o mais perfeito reality check que conheço, o derradeiro critério para aferir da bondade do que quer que seja desta vida, que nos obrigue a renunciar “à poesia, ao amor e à santidade”. Nunca por nunca.

Comentários a “Lemos o que não somos ou não queremos ser” (21)

  1. Turmalina diz:

    Joana, não tive acesso os livros que citou, mas sei como se sente. Mal saída das fraldas eu ficava colada na menina Alice e seu coelho branco, embora não entendesse uma palavra ainda. Na tenra idade devorei quase todas as páginas dos livros do seu parente distante, Jose Mauro. Além de praticamente tudo o que Érico Veríssimo e Monteiro Lobato escreveram.Mas nesses livros predominavam os heróis e não heroínas.E as figuras femininas como as de Lobato me enervavam. De tudo isto ficou a paixão por animais, pois eu sempre torcia por eles.Só um pouquinho mais crescida e com José de Alencar, entre outros, é que comecei a conhecer a posição da mulher na sociedade e a me rebelar contra muitas imposições.Mas não faltaram também David Copperfield e Pollyana, além do Menino do Dedo Verde.Só mais tarde é que fui ter contato com as mulheres de Jorge Amado, Marion Z. Bradley e Emily Bronte.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Olá Turmalina, é exactamente esse o ponto: as heroínas como deve ser, isto é, reais e verdadeiras, são raras. As personagens femininas tendem a ser secundárias (estão lá para ser salvas ou conquistadas), estereotipadas ou idealizadas de uma forma que às vezes desespera.

      Andei à procura na net e encontri um link que a leva — espero — ao texto integral do Retrato de Mónica de Sophia de Mello Breyner Andresen. É um texto curto, mas arrasador. Depois diga-me o que achou, Boa leitura! Aqui vai: http://belostextos.aaldeia.net/retrato-monica/

      • Turmalina diz:

        Blargh, Joana…que mulher mais artificial…o texto da Sophia me fez lembrar muito de Stepford Wives.
        Por sorte, ou talvez por conta de muita poesia e amor sou quase a antítese da Mónica.
        Fujo de qualquer tentativa de perfeição. Gosto das minhas fases e de me alternar constantemente, afinal nunca fui linear. Eu simplesmente detesto tudo certinho, arrumadinho, decoradinho e sou indisciplinada por natureza.
        Gosto muito de cozinhar e de reunir pessoas, mas não porque cozinho bem e sim porque cozinho com amor para as pessoas à mesa.E a boa comida, o bom vinho e a boa conversa fazem parte da poesia da vida.
        Conheço uma infinidade de Mónicas, porque afinal, no mundo das comunicações,“qualquer distracção pode causar a morte do artista”.
        A ajuda às crianças que ela dá em nome da santidade que lhe confere, eu faço em nome da humanidade que me consome toda as vezes que aconchego no colo uma das crianças com Aids do abrigo que sempre que posso eu visito.Para elas dou o melhor de mim, que é sem dúvida, o amor. E se for preciso enfrento o mundo por causa delas ou por qualquer pessoa que precise de alguém que não se preocupa muito com o que vão dizer. Sou um osso duro e teimoso de roer. E tenho uma dificuldade tremenda em aceitar injustiças, mas isso é uma outra história.
        Como também a maneira como ela se relaciona com os homens não me atrai em nada, afinal acredito numa outra forma de individualidade.E principalmente na liberdade de cada um ser o que é e viver como bem entende.
        Acho que muitas mulheres hoje são multitasker como a Mónica, mas ainda bem que podemos sê-la às avessas.

        • Joana Vasconcelos diz:

          Turmalina,
          1– Absolutamente de acordo
          2 — Adorei!
          3 — Oxalá conseguisse eu mandar-lhe os links de todos estes livros de que aqui falo, só para ter o enorme gosto de poder depois ler um seu sentido comentário como este!

  2. ana diz:

    E a Mariazinha em África?

    • Joana Vasconcelos diz:

      Olá Ana, nunca tinha ouvido falar em tal. Fui vasculhar a net e descobri tais coisas — transcrições de trechos incluídas!!! — que, confesso, fiquei mortinha por ver com os meus próprios olhos … Resta saber onde …

  3. Leonor diz:

    Olá! Também fiz uma pesquisa sobre a Mariazinha em África e também fiquei muito curiosa e com muita vontade de ler. Encontrei Mariazinha em Africa + Novas Aventuras da Mariazinha no Circulo de Leitores e já fiz a minha encomenda!

    • Joana Vasconcelos diz:

      Olá Leonor! Será possível que ainda vendam estes livros? Seerão reedições? Vou investigar, muito obrigada pela informação!

  4. Vasco Grilo diz:

    Em casa da minha Avó também lá estavam umas poucas de Brigittes. Confesso que às Brigittes nunca cheguei. Fiquei-me pelo Colégio das Quatro Torres e as Gémeas que jogavam LaCrosse. E já foi a custo, sob o riso de escárnio de alguns primos mais velhos.….

    • Joana Vasconcelos diz:

      Fizeste muito bem quanto à Enid Blyton, Vasco, os malvados primos mais velhos nem sabem o que perderam — do conhecimento da mera existência do lacrosse e suas regras, às mais implausíveis e mirabolantes partidas que se pregavam, passando pelas lautas e indigestas ceias que se faziam às escondidas nos dormitórios ou na piscina …

      As Brigittes, como terás percebido, eram já muito off limits para rapaz … Fico tranquila de saber que nem as começaste, logo não as deixaste por acabar, pelo que não corres o risco de vir a ser torturado sabe-se lá em que corcunstâncias pela mui virtuosa Berthe Bernage …

  5. Margarida Costa Gomes diz:

    Tudo o que a Joana leu, eu li. E mais: toda a colecção escrita pela Odette de Saint Maurice desde “Férias Grandes” até 9 Mulheres e Meia: Ana Maria. E para sempre fiquei à espera do último, Maria Rosinha, que nunca saiu. No tocante a personagens perfeitas, a Rosarinho Abegorim e a Ana Maria de Macedo rivalizavam. Mas as restantes manas Abegorim eram bem mais salgadas, bem como as “ovelhas negras”, Alicinha Fontemora e Catarina de Ribatorpes. E para quem está interessado nos livros “Mariazinha”, da Fernanda de Castro, sugiro que comece pela Maria da Lua…

    • Joana Vasconcelos diz:

      Margarida! Mas que surpresa! Sê bem aparecida!

      Vejo que as Brigittes se fartaram de passear naqueles anos em que por lá andámos! Lembras-te do que os livros cheiravam a bolas de naftalina?

      OK, confesso!!! Integralmente e sem reservas. Também li — todos, todinhos, menos o malfadado volume nunca escrito — os ds Odette de Saint-Maurice. E que ontem me lembrei delas, ó se lembrei, quando escrevia este post. Mas a verdade é que estes eram, apesar de tudo e como dizes, mais matizados que os da Berthe Bernage (em que a Hugette era a única que pisava o risco: fumava, com boquilha e usava baton vermelho, mas era, claro, super infeliz por causa da vida fútil que levava!!!!). Destes, os que se passavam ali por alturas do 25 de Abril tinham cenas verdadeiramente delirantes! E por falar em moças más … convém não esquecer a Arabella, a problemática e loura luso-nórdica que desencaminhou o até então irrepreensível Pedro de Macedo, o Rapaz às Direitas!!!!

      Maria da Lua? Lá vou eu investigar .…

      • Margarida Costa Gomes diz:

        Olá,

        Já conseguiste encontrar a Maria da Lua? Lembrei-me de uma colecção de seu nome “Boutique”, que devorei a partir de 75. A maior parte eram traduções de romancezinhos franceses. Mas também havia 2 volumes de uma escritora portuguesa (Maria Natália Lima, será?) de seus títulos: “Os outros e Eu” e “A Liberdade e Eu”. Bastante mais realistas, principalmente o segundo. Mas eu já era uma vendida à Odette de S. Maurice e à Berthe Bernage. E digo-te que depois da sua morte, esta última deixou uma continuadora que prosseguiu com mais uns 20 livros da saga Brigitte. Sabias que a Rosalina tinha uma 4ª filha no alvor dos seus 40 anos (o que a deixava muito embraçada)? Que o Dani morre a Rosalina casa em segundas núplicas com um castelão? Que o Patrick casava com uma prima do Sylvain? Que a Maria Inês tem 4 filhos todos rapazes, entre eles uns gémeos (para continuar a tradição familiar? Quando a outra se fartou de escrever, já a Brigitte tinha bisnetos (e a Verónica usava make up — que ousadia)

        • Joana Vasconcelos diz:

          Olá Margarida, que turbilhão!

          Eu sabia que havia uma continuadora da Bernage mas não imaginava que fosse uma tal avalanche! Agradeço reconhecida o resumo: se eu já vivo com a sensação de que nem que dure 100 anos vou conseguir ler tudo o que quereria (a menos que a dado ponto largue os de Direito … e mesmo assim acho que não…) e agora mais vinte volumes! Stress! Lembro-me da colecçaõ Boutique, claro, havia um excelente sobre umas gémeas trocadas à nascença e, confesso,ainda não consegui ir investigar a Maria Lua. Vou subcontratar a tarefa: está tudo a entrar em férias por estes lados, excepto aqui a pobre de mim …

  6. António Eça de Queiroz diz:

    Só li a Blyton. Gostava particularmente do Tim cão e do pai cientista da Zé.

    • Joana Vasconcelos diz:

      A cozinheira Joana também era catita e era ele que fazia os socnes e preparacva os piqueniques. E a ciganita João, que os punha sempre muito irritados, mas que só aprecia nalguns livros…

  7. Manuel S. Fonseca diz:

    Olá Joana. Li os seus dois posts e confesso que li também os 5 e 7 mas nunca o diabo a 4 das Brigittes e outros clássicos. Os 5 e 7, lembro-me bem, desenvolveram-me (e aos amigos do bairro) espírito mimético: quis (quisemos) fazer grupos idênticos — mas que chatice, não havia Joanas, nem Eugénias, nem Teresas para deixar de vigia à porta de fosse lá o que fosse antes de ser mesmo perigoso.
    Quero também dizer-lhe que tenho inveja da forma como a Joana e o seu passado de leitora se encontram. A leitora Joana, pequenina, infantil, vem ter agora consigo e conta-lhe os livros e as memórias tal como as viveu. É a menina leitora do seu passado que vem desaguar no seu presente e enchê-lo de narrativas.
    O que é um bocadinho penoso (embaraçoso) para mim é que tenho de ser eu agora, eu adulto, a ir ter com o meu passado de leituras e heróis, cow-boys, Fantasma. “Ele” pequenino não vem. É um enquistado. Não sai de lá, do buraco onde se enfiou. Tenho inveja: não queria andar outra vez lá para trás; gostava que ter, como a Joana, a visita ternurenta, genuína e inocente do lindo e tísico menino que terei (não tenho a certeza) sido.
    Bref, j’ai bien aimé.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Manuel, fiquei mesmo muito contente que tenha gostado (e de, depreendo, não ter sido afinal desclassificada … ). Este seu encantador comentário deixou-me completamente sem jeito. O que, convenhamos, é obra. Por isso, e valendo-me das suas habitualmente sábias palavras, acho que mais não digo …

  8. Maria Filomena Santos diz:

    Olá

    Desculpem a interrupção. Numa busca na net das obras da odette de Saint-Maurice encontrei este site. Gostei do que li.
    Sou uma devoradora de livros. Li todos os livros que comentaram inclusivé alguns da continuadora da Berthe Bernage. Apeteceu-me reler as nove mulheres e meia. Reli a Rita e a Mirita.
    Lidos a esta distância, tendo em conta a informação que veículam, até acho estes livros actuais. Perguntei à minha filha de 15 anos se sabia o que era a escravatura branca e a reposta foi não, pelo menos com esse nome. Quando expiquei então sim já sabia até porque se lembrou que lho tinha explicado. A Rita fala justamente desse tema e das respectivas armadilhas.
    Penso que o público da Brigitte e do Romance de Isabel é o das nossas raparigas dos anos 40/50 por isso um pouco desactualizado mas, as histórias eram interessantes. Estes livros preenceram muitos dias, de férias e não só. Foram grandes companhias e por isso, de onde em onde apetece-me lê-los outra vez

  9. maria antonia cardoso diz:

    Finalmente parece que percebi uma coisa que me intrigava: comoé que Berthe Beernage que morreu em 72 ewcrevia sobre factos tão posteriores ! Deixou de facto uma continuadora ? mas o estilo é perfeitamente idêntico .
    São livros que atravessam os tempos mas são muito …humanos. Brigitte não é nenhuma santa mas uma mulher muito humana com garra e defeitos e com um grande ideal . Tenho 73 anos sou formadaem história e filosofia e desde os 9 que leio Brigitte . Acho que são livros que tamb´~em alimentam em mim um ideal e não me de3ixam …vazia como muita literatura que pode ser pouco cor-de rosa mas não nos deixa nem melhores nem piores .
    Tenho muita curiosidade de saber se ainda existe alguem da familia-tinha bastantes sobrinhos– e
    se a “continuadora” continua a ” história ” — O último que adquiri quando estive em Paris foi B. e os orfãos de Nápoles. E depois haverá mais algum ? Ainda não conswgui saber.

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