Talvez ainda menos que um homem (ou uma conspiração selvática sobre o mais enigmático personagem de Eça de Queiroz)
Tenho de aproveitar a oportunidade e o local para tentar enterrar de vez o infeliz José Matias de Albuquerque, falecido há já bem mais de um século num conto de Eça – mas continuamente exumado por gerações mais ou menos abalizadas de psicólogos do romance.
Creio poder contar, pelo menos junto dos amantes da escrita do romancista português, com apreciável comitiva na sempre pesarosa tarefa de repor ossadas no lugar devido – facto que deverá agradar ao espírito do pobre Matias, pois que no seu enterro mais oficial só pôde contar com o palrador Filósofo frente à mudez atenta do ouvinte, e com mais uns poucos de curiosos e um ou outro interessado.
Em Eça de Queiroz e os seus clones defendi que o até então por mim ignorado José Matias era, fundamentalmente, uma fabulosa narrativa sobre o amor impossível de alguém simultaneamente vulgar e excessivo: vulgar porque é assim que o Filósofo (o narrador) o caracteriza, embora até esta vulgaridade já contenha em si algum excesso; e excessivo porque se trata implicitamente de um ser hiper-romântico (nada de incomum nos finais do séc. XIX e arredores).
Poderá talvez parecer arrogância intelectual mas sempre achei estranha a publicitada ambiguidade deste pequeno-grande conto de Eça. Porque para mim a sua lógica surgiu como um flash luminoso, mal acabei de o ler.
Na minha opinião então expressa, a que agora apenas acrescento um outro argumento, o grande problema de José Matias é tão só a sua inconfessável impotência física – razão única para a distância que impõe à amada Elisa quando esta adquire, por duas vezes, o apetitoso estatuto de jovem, bela e rica viúva disponível.
Por duas vezes também fui confrontado com uma provável leveza de apreciação, na minha abordagem ao dramático personagem desta incrível história. Da primeira vez, numa troca de opiniões, Alfredo Campos Matos (para mim o mais completo biógrafo de Eça) aceitou em parte a minha generalização – mas apenas como sendo a consequência de algo muito mais profundo e complexo do que a disfunção sexual tout court.
Poderá ser assim.
Mas eu defendo que os personagens de Eça não são particularmente complexos na sua essência – talvez com a excepção de Fradique Mendes (consta que resulta da fusão de modelos de Antero, Batalha Reis e Eça num mesmo ego) e de Jacinto, que sempre me pareceu uma projecção tardia do próprio escritor. O ódio social de Juliana é profundo mas, embora espantosamente elaborado, não passa de ódio temperado a ganâncias – poderoso e rebuscado mas tremendamente elementar como sentimento.
O que me parece mais complexo em Eça não são os personagens mas sim as circunstâncias em que estes evoluem.
Matias fundamentalmente ama imenso, e ama com uma totalidade tão perene que isso o levará à morte – ou a procurá-la até a encontrar. Porque sabe que a sua paixão nunca poderá ser consumada. Foi essa a ideia com que fiquei mal acabei de ler o conto.
Agora, mais concretamente no passado dia 25 de Novembro, na inauguração das novas instalações da Escola Secundária Eça de Queirós, nos Olivais, onde estive como convidado – e a propósito da minha reafirmação da característica fundamental que na minha opinião explica o estranho comportamento de José Matias –, um dos presentes propôs antes a melancolia como principal condimento para a estrutura do personagem.
Curiosamente, este termo acabaria por se virar a meu favor como um vento de bolina – numa altura em que me embrenhava na leitura de Ao encontro de Espinosa, do neurocientista António Damásio.
E porquê este inopinado favorecimento do meu raciocínio?
Muito sumariamente, o que Damásio faz ao longo do seu brilhante livro é explicar que aquilo que somos e fazemos resulta sempre dum permanente diagnóstico cerebral e interactivo do estado do organismo como um todo, e do negócio recíproco entre emoções e sentimentos. Torna-se assim claro que qualquer alteração das condições neurobiológicas de um ser acarretará sempre uma qualquer alteração no seu comportamento mental e/ou físico, dada a interacção e a certa reciprocidade dos efeitos de tal perturbação – sublinhando-se assim o que já se observava em O erro de Descartes.
Com Damásio a espreitar-me por cima do ombro, dei comigo a pensar que se a melancolia pode porventura resultar em impotência física – e seria óptimo saber o porquê da tal melancolia –, então o contrário deve ser ainda mais verdadeiro (derive a suposta incapacidade de dano corporal, dum trauma psicológico, ou de uma qualquer disfunção neurológica).
Foi nesta reversibilidade de sentimentos e emoções físicas que parti para uma leitura em sentido inverso do sem dúvida enigmático conto de Eça (hoje reconheço-o assim).
Ao terminar o seu monólogo virtual – e depois de observada a bizarra mas sincera homenagem que Elisa envia ao recém-falecido através do seu amante, um mero apontador de obras –, o Filósofo lembra ao personagem passivo (o leitor) a aparente ambiguidade do José Matias:
– Grande consolo, meu amigo, este apontador com o seu ramo, para um Metafísico que, como eu, comentou Espinosa e Malebranche, reabilitou Fichte, e provou suficientemente a ilusão da sensação! Só por isto valeu a pena trazer à cova este inexplicado José Matias, que era talvez muito mais que um homem – ou talvez ainda menos que um homem…
Ora se podemos considerar que Matias, o «coração de esquilo», poderia ser «muito mais que um homem» dada a enorme firmeza da sua paixão, também podemos considerar que ele seria «ainda menos que um homem» porque lhe faltava algo de fundamental para que fosse simplesmente um homem inteiro – nem a mais, nem a menos.
A ciumeira despertada pelo segundo casamento de Elisa, que finalmente encontra alguém que lhe explique o que é a masculinidade no seu activo pleno, desaparece entretanto do comportamento de José Matias, muito misteriosamente, quando a sua eterna e obrigatoriamente platónica paixão toma um amante – por morte súbita do potente segundo marido.
O personagem central muda então de atitude: deixa de roer o duro osso do ciúme, preocupando-se antes em saber se o novo parceiro íntimo de Elisa, o simplório mas crívelmente viril apontador de obras, lhe é fiel…
Haverá comportamento mais improvável?
Foi então que, recuando mais um pouco, me lembrei da festa (ou encenação) semi-orgíaca que José Matias promove, perante uma Lisboa escandalizada:
– São desse tempo algumas das suas extravagâncias lendárias… Conhece a da ceia? Uma ceia oferecida a trinta ou quarenta mulheres das mais torpes e das mais sujas, apanhadas pelas negras vielas do Bairro Alto e da Mouraria, que depois mandou montar em burros, e gravemente, melancolicamente, posto na frente, sobre um grande cavalo branco, com um imenso chicote, conduziu aos altos da Graça, para saudar a aparição do Sol!
Não mostrará esta festa de prostitutas, com cavalo branco a comandar, uma qualquer farsa mórbida e auto-flagelante, onde, ao mesmo tempo, se entrevê o mapa emocional com a cartografia completa dum comportamento físico incapaz, e, por isso, obrigatoriamente virginal, que a brancura da montada acentua de forma melancolicamente histriónica? – o mesmo físico traidor que o Filósofo parece invocar no contraditório balanço final que faz de José Matias quando o caracteriza como sendo «talvez ainda menos que um homem», ou, presumivelmente, um homem incompleto?…
A este propósito, lembrei em Eça de Queiroz e os seus clones o músico francês Erik Satie, que foi encontrado morto na sua paupérrima casa – onde, entre muitas tralhas, lhe descobriram um conjunto de intensas cartas de amor que na realidade nunca tinha chegado a enviar, mas que guardava ciosamente ordenadas por datas e atadas por fitas de cetim que apartavam os anos da sua não-expedição.
Claro que Satie era um melancólico.
Mas era também um ser estranhíssimo, com fixações místicas e experiências monásticas – e, acima de tudo, senhor duma partitura totalmente despojada de ornamentos modernos e harmonias de grande efeito. Um lunático genial para muitos, entre os quais me revejo totalmente quando oiço algumas das suas gymnopédies ou a Sonnerie de la Rose & Croix – Air du grand Maître…
Convenhamos que José Matias não era nada disto.
Convenhamos ainda que ele não é real como pessoa, mas apenas como personagem de um escritor, que o ergueu e lhe deu ânimo vital no átrio da realidade.
E o que seria da realidade em Eça sem o manto diáfano da sua magnífica fantasia?…
Os filósofos gregos, Espinosa (quase um moderno evolucionista), Malebranche (um crente de Descartes) e o instável Fichte (um hegeliano proto-nihilista) fazem ali o quê, afinal?
Na minha imodesta opinião toda esta gente está ali a ajudar Eça na criação da espessa névoa onde o escritor, com elegância superior, escondeu uma crueza da realidade mais elementar.
Nota final:
Não deixa de ser também curioso que apenas possa acusar Espinosa de suposta cumplicidade filosófica na elaboração de José Matias, porque uma das suas passagens da Parte II da Ética, citada por António Damásio, parece-me particularmente esclarecedora:
«O objecto da ideia que constitui a mente humana é o corpo, o corpo tal como actualmente existe […] E daí que o objecto da nossa mente seja o corpo tal como existe e nada mais».
Ou seja: até um presumível platonismo exacerbado, talvez viável na presença duma Elisa irremediavelmente casta, fará apenas parte da névoa que Eça, a meu ver, espalhou por todo o seu conto, tal como os matizes e contrastes escolhidos pelo pintor acrescentam volume e dão profundidade ao seu quadro.
AEQ


















António, gostei desta sua estreia na árdua tarefa de coveiro, primeiro porque me fez correr a reler o José Matias, o que há muito tempo não fazia, depois porque esta sua tese tem graça e faz todo o sentido — porventura mais que o hiperespiritualismo com que o Filósofo tagarela procura explicar tamanha manifestação do Incognoscível. Só duvido é que depois deste seu (dele mas feito por si) lindo enterro, o pobre descanse finalmente em paz!
PS — Fantástica, mais esta música do Satie
Ainda bem que gostou, Joana.
O hiperespiritualismo do Filósofo é a própria natureza da espessa névoa.
Ele confunde tudo e todos, mas no fim deixa a solução com o rabo de fora: «talvez ainda menos que um homem».
R.I.P.
Caro António Eça de Queiroz,
A honra é, por certo, minha, pelo facto de ter como interlocutor um descendente do grande Eça.
Quanto ao seu artigo, há que dizer que o li com muito prazer. Concluída a leitura, porém, impõem se duas observações: (i) perante uma personagem tão complexa como José Matias, parece me excessivo o recurso a uma causalidade unilinear (neste caso, a disfunção sexual); e (ii) a galeria de filósofos, de que Eça faz gala, não desempenha, de modo algum, o mero papel de adereço retórico.
Em relação às observações supracitadas, creio que lhes dá cabal cobertura o meu longo ensaio sobre o «José Matias», de que o texto que teve a amabilidade de ler constitui tão somente um pequeníssimo excerto. Infelizmente, por razões que se prendem com a selva editorial lusitana, ainda não pude publicá-lo…
Com os melhores cumprimentos,
Eurico de Carvalho
Claro que gostaria de ler o seu ensaio, que certamente me iria mostrar uma nova forma de olhar o José Matias. Mas, como bem diz (e eu sei-o por experiência própria) a selva editorial por cá é tremenda; três ou quatro elefantes e 18 mil macacos… (isto sem nada de depreciativo para os ditos macacos ou mesmo pequenas editoras, claro está).
Vou-lhe contar o que me inclinou para a linearidade da minha tentativa de explicação: foi exactamente um outro conto dele, “Singularidades de uma rapariga loura». Porque tais singularidades exibem-se numa simples cleptomania, no pequeno roubo automático de quem o faz sem quase reparar porque o faz por hábito instalado (foi a ideia com que fiquei, pelo menos). E é por isso mesmo que gosto bem menos dessa outra história, pois acho José Matias estruturalmente muito mais conseguido.
Agradeço-lhe a sua resposta, mas peço-lhe que se desengane em relação à disparidade das honras recíprocas: descendo dele como podia descender doutra pessoa qualquer. Ou seja: Eça é uma enorme honra para mim — que, hélas, nada possuo de especial para usufuir de tamanha honraria.
O que eu gostava mesmo era de o ter conhecido, de falar com ele nem que fossem apenas uns minutos…
Isso sim!
Os melhores cumprimentos
ps (se o seu ensaio for publicado, como espero, muito gostaria de o saber e qual a ditora — por isso lhe deixo o meu e-mail, caso entenda por bem informar-me do facto [aaeq@sapo.pt])