Sou filho único, filho de filho único, pai de filha única; um frágil fio de linhagem à beira de se desfibrilar. Irmãos e irmãs só entre primos e todos do lado femeal da árvore.
Irmãos são pessoas estranhas, usurpadores no quarto e intrusos à mesa, concorrentes nos pedidos de atenção – bem sei que o estranho sou eu, mas não tenho outros olhos nem outra experiência. Pelo que não mais me resta do que imaginar irmandades putativas, daquelas de sangues trocados, palavras secretas e juras cabalística em tardes de Verão.
Eu sou aquele que queria ter lá estado como íntimo amigo de amizades fraternas, a passar com eles tudo por que passaram, fazendo parte, ambicionar que alguém recordando pudesse dizer “ah é verdade e o Zé também, lembram-se?”. Gostaria que tivesse sido assim:
Patti Smith conheceu Robert Mapplethorpe quando ela, ainda dormindo na rua, já trabalhava na livraria Brentano’s. Ele ofereceu-lhe um gelado e foram começando a continuar juntos. Era 1967, a Factory trabalhava a todo o vapor.
Ela tinha chegado a Nova Iorque com 32$ e Rimbaud no bolso – os ingredientes do conto de fadas nova iorquino – decidida a ser… nem ela sabia, mas havia de ser artístico. Ele era um rapaz tímido, inculcado de catolicismo, a tentar fazer arte com colagens e outras banalidades.
Os tostões do salário de Patti Smith iam dando para viverem os dois, ela a tomar conta dele. Eram pobres, quase de pedir, passavam fome e andavam andrajosos, a ponto de o porteiro do CBGB os rechaçar por causa da roupa rota. Ainda assim, conseguiram poisar no Chelsea Hotel, ainda não totalmente glamourizado, mas um pardieiro de excêntricos, nem todos geniais, como veio a saber-se, mas com fama disso.
E eu ali sentado no lobby pulguento do Chelsea, a desejar-lhes boa noite, então como foi?, a pagar-lhes quando podia a ocasional refeição, mas sem o equívoco de Allen Ginsberg que oferecer uma sanduíche de máquina à esfaimada Patti Smith crendo que ela era um rapazito magrinho, imberbe – tão ao gosto dele. Eu seria o mais novo, que tanto exclama uau! como diz nem penses nisso, às vezes a dizer sim outras a responder com um encolher de ombros enfastiado. Se calhar, o mais das vezes a transmitir recados dos pais, sei lá se preocupados ou desligados.
Decerto não se pode ser feliz assim, mas eles ou tentavam ou não tinham alternativa. Tanto Patti Smith como Robert Mapplethorpe estavam de posse daquele segredo que só os americanos conhecem, que é viver numa formidável intensidade criativa e, ao mesmo tempo, numa abandonada descontração, como se as oportunidades fossem uma questão de tempo. 
Entre 1970 e 71 Patti encanta-se com Sam Shepard um miúdo de 26, a fazer biscates de baterista mas já com peças de teatro publicadas e referidas. Robert Mapplethorpe, entretanto, percebia de si mesmo que afinal era gay. Mas Patti e Robert nunca deixam, nem deixarão até ao fim dele em 1989, devorado pela SIDA, de trocar ternuras, aconchegos, intimidades espirituais. Era como se tivesse sido uma guerra, aquilo por que passaram juntos.
Um impulsivo este Shepard, e tenho a certeza que haveria de perguntar-me onde estava Patti, já corroído pelos ciúmes, quando a perdia de vista, e convidar-me-ia a pagar-lhe uns bourbons confessionais quando ela corria com ele do quarto.
Depois, já não muito cedo, tudo começou a andar depressa. No para todo o sempre escaldante ano de 1975, aos 28 anos de idade, Patti edita “Horses” e bum! Dois anos antes, em 1973, Mapplethorpe inaugura a sua primeira exposição de Polaroids na Light Gallery. Sabe-se lá se foi, mais uma vez, com o dinheiro de Patti que ele compra uma Hasselblad em 1975 e começa a fotografar a movida nova iorquina e a revelar os brinquedos e os jogos S&M. Agora era impossível ignorá-lo, difícil não lhe admirar o trabalho.
E eu passava a ser para os outros o tipo que os conhecia, mas continuava junto deles, bem do lado de dentro do círculo.
Sam Shepard arrebata-se por Jessica Lange e não admito que contestem ser a mulher mais bela do planeta em 1982. Ambos lindíssimos, cultos, inteligentes, criativos, uns deuses olímpicos, e estão felizes para sempre na never never land de Hollywood.
De vez em quando aindo os visito, quando me pedem muito.
Ó meus irmãos, que dias aqueles, os últimos tempos em que foi possível. Hoje tudo anda tão depressa que parece estarmos parados.


















Uau…
É você que está a cantarolar isto, José Navarro?
I don’t mean to suggest that I loved you the best,
I can’t keep track of each fallen robin.
I remember you well in the Chelsea Hotel,
that’s all, I don’t even think of you that often.
Eugénia. O canadiano não é desta estória. Mas é verdade que podia…
Não me diga que a sua Patti Smith foi parar à Village por acidente geográfico? Ou o Cohen. Fosse por atipia social, intelectual, política, vanguarda ou mera boémia, a verdade é que andou pelas ruas a inspirar, se não outras coisas, o fulgor do princípio do século.
Ps: e o dos beats!
Gostei muito.
obrigado mana!
Belo texto.
dr. Marta, bom olhos o vejam emergindo da cova qual Lázaro!
Agrada-me a expressão brothers in arms. Pelo que também, ou sobretudo, evoca de braços/arms, sempre abertos e prontos para acolher, proteger, confortar e partilhar. Para tudo aquilo de que, há muito que o tenho para mim, é feita a irmandade, consanguínea ou não tanto faz.
Zé, foi um gosto partilhar estas suas tão belas memórias. E que encanto esta foto dos tão-lindo-de-morrer-um-como-o-outro Lange e Shepard.
Obrigado, joana, sou como o homem que inventa memórias de Philip K. Dick
Já eu, quando li o título, achei que fosse algum texto de cunho político.Pois, depois que Dilma Roussef, ao assumir a direção da Casa Civil, foi chamada por Zé Dirceu de “companheira de armas e lutas” é inevitável a associação.
Gostei muito mais da sua associação para brothers in arms, Joana!
Parva, banal e rotineira vida, hein, Zé?
Grande texto Zé!
Os fabulosos tempos de Radio Ethiopia
http://www.youtube.com/watch?v=oi7PwzIBG0I&feature=related