Histórias de Joanas III — A Louca

Mestre Michel, Doña Juana I, c. 1500

Princesa enamorada sin ser correspondida.
Clavel rojo en un valle profundo y desolado.
La tumba que te guarda rezuma tu tristeza
a través de los ojos que ha abierto sobre el mármol.

Eras una paloma con alma gigantesca
cuyo nido fue sangre del suelo castellano,
derramaste tu fuego sobre un cáliz de nieve
y al querer alentarlo tus alas se troncharon.

Soñabas que tu amor fuera como el infante
que te sigue sumiso recogiendo tu manto.
Y en vez de flores, versos y collares de perlas,
te dio la Muerte rosas marchitas en un ramo.

Federico Garcia Lorca Elegia a doña Juan la Loca, 1918 (excerto)

 La Loca. A Louca. Este o aterrador cognome que ficou da passagem por este mundo de Juana, terceira filha de Isabel de Castela e Fernando II de Aragão, os Reis Católicos, mãe de Carlos V de Habsburgo e bisavó do nosso D. Sebastião.

Vista a esta distância, a história da sua vida impressiona pela trágica, quase absurda, sucessão de eventos em que basicamente nada aconteceu como planeado ou sequer do modo que seria razoável prever ou esperar, muito por culpa do destino, mas também e tristemente dos seus mais próximos.   

Educada para não mais que um casamento estrategicamente adequado acabou, ante a morte prematura dos que a antecediam na linha de sucesão, rainha de Castela. Casada, pouco antes, aos dezasseis anos, com Felipe, o Belo (de Habsburgo), enviuvou escassos nove anos volvidos, grávida da sexta criança do casal. Uniu sob a sua coroa todos os reinos que formam a Espanha tal como agora existe e, ainda, as Duas Sicílias e as Índias Ocidentais, sem nunca ter exercido o enorme poder que por tal via lhe pertencia de pleno direito. Teve um longo reinado de cinquenta anos, quarenta e seis dos quais passou encarcerada e apartada do mundo, por ordem do seu pai, primeiro, e do seu filho, depois, os quais governaram sempre em seu nome e no seu lugar, por via da sua alegada incapacidade. A sua instabilidade mental, que justificou o seu afastamento do poder e o seu encerramento em total isolamento e longe dos próprios filhos (que, com excepção da mais nova, foram entregues pelo marido à respectiva irmã e por esta educados na longínqua Flandres), nunca foi oficialmente apreciada nem declarada em Cortes pelo que não teve reflexos no plano dinástico: jamais destituída, reinou até morrer.

Não se sabe ao certo de que mal padecia Juana. Às explicações durante muito tempo avançadas, de esquizofrenia ou perturbação bipolar (das quais haveria antecedentes familiares) junta-se, mais recente e fundada, a de depressão, gerada e/ou agudizada pela frequência e proximidade dos partos. O que parece evidente é que, fosse o que fosse, resultou fortemente agravado por décadas de encarceramento e solidão, em condições de grave penúria e abandono, bem descritas nas constantes (e vãs) queixas que Catarina, a filha que com ela viveu (até casar com João III de Portugal), dirigia ao irmão nas suas cartas.

São conhecidos os episódios bizarros e perturbadores que terá protagonizado — dos ciúmes descontrolados que tinha do marido (muito pouco fiel e ainda menos discreto) e das pavorosas cenas que lhe fazia em público, às macabras peripécias que rodearam a trasladação, de Burgos para Granada, do cadáver deste, numa errática expedição de vários meses, acompanhada por um vasto séquito e marcada pela obsessão de Juana em evitar que qualquer mulher se aproximasse do caixão (cuja chave transportava ao pescoço e que, reza a lenda, amiúde abria), nem que para tanto fosse necessário viajar de noite e pernoitar em descampados, longe de pueblos e conventos (e das suas femininas habitantes).  

Muitos destes extraordinários relatos, admite-se hoje, terão sido largamente difundidos ou, pelo menos ampliados por aqueles a quem a generalizada convicção da loucura de Juana servia o seu próprio projecto de poder. Filipe, o marido, de modo algum resignado ao papel de consorte que lhe tocara em inesperada sorte, que logrou ser aclamado rei e regente de Castela e que terá sido o primeiro a aperceber-se das vantagens de manter Juana confinada e longe da vista de todos, enquanto lamentava os seus estranhos comportamentos (que os rumores que então começaram a circular confirmavam). Fernando, o pai, que vivera contrariado à sombra do poder da mulher e que, legitimado pelo testamento desta, que o nomeava regente de Castela, caso Joana não quisesse ou pudesse governar, combateu as pretensões do genro e após a morte deste (à qual, diz-se, não terá sido alheio), encerrou Juana em Tordesilhas em 1509 e assumiu o poder, enquanto tentava desesperadamente gerar um herdeiro para Aragão e Navarra, com a sua segunda mulher (e sobrinha-neta), de modo a evitar que este fosse, como foi, parar a mãos austríacas. Carlos, o filho, que após a morte do avô e a unificação dos reinos, em 1516, manteve a situação inalterada e governou como co-regente até à morte da mãe, quase 40 anos volvidos. Um após outro, todos dominaram o seu imenso reino, apoiados na sua inatacável legitimidade dinástica, a única jamais questionada, e na sua loucura, nunca comprovada. O nome de Juana, que até à morte ostentou o título de rainha, encabeça todos os documentos da época, de cujo teor jamais teve conhecimento e nos quais não apôs uma única assinatura.

Tudo isto fez de Juana uma figura densa e complexa, cujo pathos fascinou e atraiu pintores, escritores e poetas – em especial os ligados ao romantismo espanhol –, que nas suas obras a perpetuaram como louca. De e por amor, mas inapelavelmente louca.     

Francisco Pradilla, Doña Juana la Loca, 1877

Comentários a “Histórias de Joanas III — A Louca” (8)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    O quadro de Pradilla é genial. Fez-me lembrar o filme ‘Aguirre, the wrath of God’, de Werner Herzog, que é uma coisa tremendamente espanhola. Todos os espanhóis são mais ou menos loucos — você não tem sangue espanhol?…
    Eu tenho.
    Já leu A morte de Canovas, das Notas Contemporâneas? Com a viúva a dar com o leque no assassino, indifernte ao perigo? Também é genial.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Não sei se há associação possível, Orcama, embora o Canovas tenha sido assassinado bem antes do rei D. Carlos.

    • Orcama diz:

      Duas viúvas, nesse momento a Rainha D. Amélia já o era, a darem o mesmo inusitado uso a um femenil apetrecho, para com o mesmo personagem…

  3. Joana Vasconcelos diz:

    António

    1 — Sangue espanhol, eu? Não, de todo, tanto quanto me é dado apurar … O que seria … temo bem que os desgraçados familiares e amigos que, estóicos, me vão aguentando, dificilmente sobrevivessem a tal extra de movida

    2 — A minha ignorância foi ler e gostou imenso de “No mesmo hotel”, mas não encontrou lá leque nenhum: só a Morte e umas nédias matronas de buço e altos pentes de tartaruga abancadas à mesa do jantar …O que me terá escapado?

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Joana Maria, devo-lhe desculpas pela grande confusão que armei.
    Por dire straits de que não vislumbro sinais ou sequer mapa poído, misturei uma outra história que agora não consego encontrar…
    Quando souber qual é digo-lhe, mas não conte com isso para depois de amanhã — que eu sou muito preguiçoso.

  5. António Eça de Queiroz diz:

    Sangue espanhol: de onde lhe vem o segundo nome de família que lhe aparece no mail, Vallera?
    O meu chega coevo pelos Castro (uns e outros que acabam por se ligar várias vezes pelos séculos fora, tanto em Portugal como em Espanha), e mais recentemente pelo meu incrível e espalhafatoso trisavô Carvalhal: ele descende da casa de Trastâmara, de que fazia anterior parte D. Joana de Trastâmara, mulher de D. Afonso V, a ‘Beltraneja’; depois, a mulher dele (Carvalhal) chamava-se Matilde de Montufar Infante e era filha dos marqueses de Selva Alegre, da Andaluzia, e, para animar a coisa, irmã da viscondessa da Luz, a libérrima Rosa de Montufar, que foi amante intermitente do nosso romântico maior.
    Todos os portugueses têm algures sangue espanhol — seja ele galego, castelhano, asturiano ou andaluz.
    Acho eu.

  6. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Aprendo sempre com as suas Joanas, Joana.

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