
Partilho com ele os meus três primeiros nomes. Aliás, só o primeiro já era motivo de orgulho, não só para mim, mas também, pelo que pude ver, por entre papeladas velhas , uma carta de condolências do já extinto “Os Franciscos — Clube de homónimos”. Francisco Pinto da Cunha Leal, nasceu, como Fernando Pessoa, em 1888, pronto para a vida irrequieta que iria ter na atribulada primeira metade do século XX que se avizinhava. Nasceu no Alcaide, conterrâneo de João Franco, acabou por descer à capital onde se formou como engenheiro militar. Cedo se deu conta que não era no exército que queria fazer carreira. Com vinte e seis anos partiu para o ultramar, para construir a linha férrea na Serra da Chela, no começo do planalto do sul de Angola. Lá incompatibilizou-se com Norton de Matos, após os estalar da Primeira Guerra Mundial. Em 1917 seguiu com o corpo expedicionário português para França e depois de regressar ingressou na política. Foi Ministro das Finanças e o mais jovem Presidente do Concelho em Portugal. Ao albergar o opositor político António Granjo, foi baleado na tristemente célebre Noite Sangrenta. Foi Reitor da Universidade de Coimbra, director do Século e fundador da Vida Contemporânea. Apoiou a ditadura como forma de acabar com a conturbada instabilidade da Primeira República, mas cedo se voltou contra Salazar, devido à política financeira deste e pelo insustentável prolongar da ditadura. Viveu exilado na Corunha depois de ter fugido dos Açores para onde foi deportado. Foi dos primeiros a propor soluções de autonomia para as colónias.
Muitas mais peripécias teve a sua vida, que não sei aqui devidamente contar. Salazar tolerou-o e o resto da sua vida foi vivido num progressivo esquecimento e recato, certamente indigno do seu carácter e do seu espírito. Eu cresci com algumas memórias recontadas por minha mãe, do seu avô. Hoje é 10 de Junho e talvez seja egoísta da minha parte usar este espaço para deixar aqui esta recordação que não tenho. Mas chama-se Queridos Mortos e porque não? No dia de hoje, é bem relembrado, pois dedicação ao país não lhe faltou.
Aqui deixo um pequeno episódio das suas memórias, que se terá passado logo após o fim da sua formação como engenheiro militar, no despontar da Primeira Guerra dos Balcãs:
A luta pela vida não a ia eu iniciar com o fecho da minha carreira académica, visto como havia mais de meia dúzia de anos que não dependia de subsídios pecuniários familiares. Simplesmente esse combate ia tomar novo aspecto, ia exigir deliberações que poderiam conduzir-me ao sucesso ou insucesso, consoante o seu acerto ou desacerto. Sucedia ainda que essa necessidade de ser criterioso e cauteloso coincidia com uma fase de grande desorientação do meu espírito, que — pobre de mim! — não conseguira regressar ao estado de equilíbrio anterior à morte de minha Mãe.
A boémia, a que me deixara resvalar, no fundo não me seduzia, antes provocava em mim sensações de náusea e desconforto, embora não resolvesse ainda a abandonar essa companheira malfazeja e indesejável. Atraía-me, isso sim, a ideia da Grande Aventura, que me fizesse percorrer sendas bem diversas das ronceiras trajectórias das existências do comum das gentes.
De facto, cada vez mais me reputava incapaz de me adaptar à vida de quartel nos idílicos períodos de paz. O ramerrão das reduzidas tarefas normais, entrecortadas de intermináveis bocejos, até que a publicação da Ordem nos desse o almejado sinal da libertação; os dias de serviço, com as suas noites desconfortáveis, passados em cubículos pouco higiénicos; as fases mais movimentadas e, portanto, menos fastidiosas das escolas de recrutas e repetição — tudo isso não excitava em mim, sequer ao menos, pálidos vislumbres de interesse. Por minha desgraça, se bem que compreendesse a grandeza da servidão militar, a nobreza do amesquinhamento voluntário da pessoa humana, como sacrifício ofertando ao altar da Pátria, não me sentia com vocação para esta modalidade de martirológio.
Quantas vezes, no final dos nossos cursos, não debatemos, eu e o Humberto de Ataíde, este magno problema da orientação a imprimir às nossas vidas! Foi numa dessas conversas que surgiu uma perspectiva que à exaltação das nossas mentes se augurou aliciante.
Tinha deflagrado a guerra entre a Turquia e os povos balcânicos, ansiosos de sacudirem os últimos vestígios de uma tutela que se iniciara com a conquista e a opressão e fora perdendo, através dos tempos, grande parte das sua virulência e crueldade. Aqui nos lançámos os dois em cavilações histórico-filosóficas para decidirmos se o interesse europeu seria melhor servido pela vitória da primeira ou pelos segundos. Acabámos por concluir que o predomínio dos turcos na região balcânica e a integridade da federação austro-húngara eram essenciais para a preservação do equilíbrio e, portanto, da paz na Europa.
É que, durante séculos, desde os recuados tempos do Império Romano, o centro e o oriente do Velho Continente tinha estado sujeitos a um contínuo fluxo e refluxo de invasores, vindos da Ásia, donde resulto que na Boémia e ao longo da zona danubiana se tinham enquistado núcleos populacionais de várias origens étnicas. Aplicar a esses sectores europeus o princípio das nacionalidades para a construção de Estados plenamente autónomos, sem quaisquer restrições de soberania, seria um contrassenso. De facto, concedendo-se-lhes fronteiras naturais, susceptíveis de defesa militar, ficariam encravadas dentro do território de cada Estado, minorias raciais, que estariam submetidas às inevitáveis prepotência das maiorias.
Logicamente só haveria dois arranjos políticos para permitir o convívio de povos racialmente dissemelhantes e assim interpenetradas: a federação — era o caso do Império dos Habsburgos — ou a tutela dum Estado forte sobre um desarticulado conjunto populacional — era o caso da Turquia em relação à manta de retalhos balcânica.
Por este encadeamento de raciocínios, fomos, pois, levados a tomar no conflito em curso o partido da Turquia, contrariando assim a corrente geral da simpatia europeia. Ou não fôssemos nós espíritos autónomos e originais! E então surgiu a tal perspectiva atrás aludida, que pode definir-se nestas poucas palavras: oferecer aos turcos o nosso preciosíssimo concurso militar. Isso sim é que seria a Grande Aventura!
Nessa altura, o meu bom Humberto de Ataíde, cuja imaginação era bem mais fértil do que a minha, começou a enxerta neste problema outros de ordem prática, cuja exposição me deixou boquiaberto. Logo que estivesse assente a nossa partida, deveríamos entender-nos com jornais portugueses, para que eles nos improvisassem em seus correspondentes de guerra, claro está mediante subministração da vil pecúnia. E, após o termo das hostilidades, se delas regressássemos com vida, seria de encarar — porque não? — um giro de conferencias por esses Brasis fora, para ver se, sacudida, a árvore das patacas nos proporcionaria lauta apanha dos seus preciosos frutos. Concordei, está bem de ver, com este sedutor programa de miragens. E não conhecíamos nós a história de Winston Churchill, para nela nos inspirarmos. Não há dúvida de que os bons espíritos usam encontrar-se!
Assente o nosso propósito de colaboração militar com os turcos, tentámos convencer o Carlos Selvagem a dar-lhes adesão. Ele hesitou e acabou por negá-la, mas pouco nos conheceria que pensasse que isso era razão suficiente para provocar a nossa desistência. O que se tornava necessário e urgente era viabilizar o nosso projecto.
Para esse efeito, entendemos por bem dirigir-nos ao representante da Turquia, para fazermos por seu intermédio o oferecimento dos nossos serviços. Tivemos a primeira desilusão quando constatámos que aquele pais não tinha ministro acreditado junto do nosso governo. Havia, porém, um consulado, de cuja localização facilmente nos inteirámos. Sem mais hesitações, lançámo-nos à conquista deste baluarte.
Pelo caminho Humberto de Ataíde ia-me instantemente recomendando que tratasse de me apresentar com garbo militar mais aprimorado que fosse capaz de impor ao meu ingénito desleixo e desenfado. Chegámos por fim ao nosso destinho e fizemo-nos anunciar ao Sr. Cônsul, que, sem enfadonhas demoras, houve por bem receber-nos.
Aqui tivemos a nossa segunda e grave desilusão. Quando esperávamos encontrar um Sr. Turco, fiel ao fez e ao seu pais, deparámos com um Português dos quatro costados, que, ao perguntar-nos com óptima tonalidade alfacinha qual o objectivo da nossa visita, nos deixou estarrecidos. Mas, enfim, refeitos do choque inicial, lá lhe papagueámos o trecho literário, que fora objecto das nossas cogitações.
Coube a vez ao Sr. Cônsul de ficar surpreendido. Olhou para nós com o ar incerto de quem não era susceptível de compreender que dois jovens aventureiros da nossa terra se pudessem importar pouco ou muito com o facto de a distante Turquia perder ou ganhar a guerra. O homem levou a recompor-se bem mais tempo do que a nós anteriormente nos custara a mesma operação. Acabou por declarar-nos que estava pronto a transmitir ao Governo turco o nosso oferecimento e o desejo de que nos fosse indicado o caminho a seguir para o efectivarmos, mas sob a expressa condição de que os Poderes Públicos de Portugal não se opusessem à nossa colaboração no longínquo fenómeno bélico. Respondemos-lhe que iríamos ocupar-nos, sem demora, de tal autorização.
E fomos. Era Ministro da Guerra o Coronel Correia Barreto, pessoa das relações de ambos os pretendentes a protectores da Turquia. Também o Ministro se revelou pressuroso em rever-nos e fê-lo com o mais bondoso e paternal dos seus sorrisos. Ao que vínhamos — inquiriu de nós. Quando dum fôlego, não fosse faltar-lhe a coragem, o Ataíde lhe expôs as nossas ideias e os nossos propósitos, Correia Barreto esgargalou os olhos e à queima-roupa disparou-nos a frase seguinte, como intróito de mais extenso arrazoado: «Vocês estão doidos, rapazes!» E, a seguir, vá de nos demonstrar que a nossa atitude significava, nada mais, nada menos, do que uma tentativa de perturbação da quieta neutralidade do Estado português. E, por mais que nós, atabalhoadamente ao principio, já quase eloquentemente no fim, o procurássemos convencer da sem-razão dos seus argumentos, nada conseguiu abalar a granítica firmeza daquela fortaleza neutralista. Estávamos proibidos de levar a cabo as nossas concepções belicistas.
Ao sairmos desta conferencia com o Correia Barreto, o nosso estado de espírito repartia-se entre a indignação e o desencorajamento, mas, teimoso e férreo nas suas resoluções, Humberto de Ataíde não queria desistir às primeira e teve uma ideia: a de escrevermos ao Cônsul-Geral de Portugal na Turquia — se não me engano, era o Alfredo Mesquita —, pedindo-lhe que transmitisse os nossos desejos ao Governo turco e lhe solicitasse indicação quanto ao caminho a seguir. Estávamos dispostos, se tanto fosse necessário, a pedir a nossa demissão de oficiais do Exército português, mas esperávamos obter a passagem à situação de licença ilimitada, para podermos ausentar-nos do território nacional com passaporte de turismo.
Demorou bastante tempo a almejada resposta. No entanto, precipitara-se o andamento da guerra e os turcos deram-se por vencidos. Esta era a situação, quando chegou por fia a já desnecessária epístola do Sr. Cônsul. Dizia-nos ele que a marcha inexorável dos sucessos bélicos ferira de morte os nossos projectos, mas que o Governo e os jornais turcos haviam tomado conhecimento deles. Em Constantinopla tinha sido altamente apreciado o nosso gesto. E, para prová-lo, mandava-nos três recortes da imprensa local e suas respectivas traduções, todos eles com a mais cativante exaltação do sentimento turcófilo, que presidira aos nossos projectos.
Cunha Leal, As Minhas Memórias
Francisco Feijó Delgado

















Fico grata em conhecer um ilustre morto que partilha comigo o meu penúltimo nome.
Francisco, que excelente ideia teve, de nos trazer aqui este seu antepassado, e de no-lo dar a conhecer, nas suas próprias palavras. Li e reli deliciada o relato desta Grande Aventura que, à sua maneira, acabou afinal por sê-lo … Não sei a que distância foram escritas estas Memórias, mas tocou-me especialmente o tom, entre o irónico e o enternecido com que o seu bisavô recorda este arrebatado episódio da sua juventde …
Foram escritas nos finais de 1952, pelo que nessa altura já andaria nos seus sessentas e alguns.
As memórias de Cunha Leal são soberbas e a descrição que faz de salazar, ainda enquanto jovem professor, é das melhores que já li. Que figura!