
Não foi por falta de aviso, mas o Eduardo é, já vão percebê-lo, um fotógrafo absurdamente teimoso. Pedi-lhe que não brincasse com a luz. Pedi-lhe que não brincasse contra a luz. Que deixasse o interruptor sossegado. Não queria amores com «sfumatos» nem revelações de noites americanas. Teimoso, o Eduardo. Fez da manhã fim do dia e pintou sombras chinesas nas paredes. Espalhou uma dor imensa de «grandes lâmpadas eléctricas» onde dantes só existia um obstinado silêncio. E pintou, com um insuportável filtro verde, as memórias ocres do meu escritório. Teimoso, o Eduardo.
Pedi-lhe que não subisse ao escadote para pintar. As meias! Daí não se vêem as meias! Amarelas, com listas pretas. Venenosas, pegajosas, a subir, serpentiformes, pelas escamas da barriga da perna. A bem dizer, daí de onde espreitas, não se vê sequer a minúscula antecâmara do gabinete. Será raquitismo do escadote. Mas não se vê o Sr. S., inanimado, com o pescoço ainda marcado pela violência azul do perfume. Não se vê tão pouco a menina R., deitada de bruços, a arfar, engasgada na sua angústia hemofílica, incapaz de se despedir da vida com uma réstia de musical dignidade.
Pedi-lhe que pintasse com uma grande angular. Assim, como está, não se adivinham os intestinos do prédio todo. Teimoso, o Eduardo. Não se vê o apartamento dos T., com a sua sala pequena de amarela e amarela de tão triste. Não se vêem os jornais espalhados, os cinzeiros sumidos, as garrafas afogadas nem a girafa oxidada que lhes serve de candeeiro. Não se vê o quarto dos gémeos, tão mortos, tão mortos, que quase se diriam nascidos para parecer iguais. Não se vê, sequer, a barbearia que lhe desenha, ao prédio, a capilar esquina.
Assim como está, assim como estás, não passas de um erro de paralaxe. E eu não gosto de gastar os meus pensamentos lúbricos com paralaxes delirantes. Mesmo quando se despem de vestido azul.
Teimoso, este Eduardo.

















Tive que ir ver paralaxe ao dicionário. Valeu a pena, o conhecimento de uma nova palavra, e o seu texto.
Obrigado. Ainda bem que gostou.
Adorei o raquitismo do escadote! E as escamas da barriga da perna ainda mais. Mas gostar gostar, gostei sobretudo da luminosidade fosca da sua triste girafa oxidada.
E fico aqui a pensar. Com que especiaria fertiliza, pergunto-me, os seus campos de alecrim, Ó meu muy paraláxico amigo?
Vasco: se eu fosse o meu amigo Keith Richards dir-te-ia que inalei as cinzas do meu pai. Como felizmente o meu pai está longe de estar em pó, terás de acreditar que funciono sem aditivos.
Observadora em movimento, calhou de estar na hora errada no lugar certo e ter pouquinhos minutos antes da aula para apreciar tudo, até o último strip tease. Gostei tanto que retornarei, quem sabe na hora certa e quiçá em outro ponto de observação…
fico à espera de notícas, depois da aula.
Não sei se são notícias aprazíveis, hoje amanheci iconoclasta, devem ser minhas reservas ante o time do Dunga… e me pus solidária ao teimoso Eduardo. Nunca é uma posição solitária, concordemos.
Mas o que me prende e me faz retornar teimosamente ao seu texto, eu — penso — já (me) compreendo: são os adjetivos! A dor é imensa, o silêncio é obstinado, o filtro verde é insuportável, os pensamentos são lúbricos..e nem falo das meias ou do escadote (que o Vasco já tratou). A vida ser-me-ia árida sem os adjetivos e advérbios.
eu diria mais: insuportavelmente árida
Precisamente!
Quando li a primeira vez pensei que era a voz dela, a da que se despe em vestido azul. E gostei muito da capacidade do PN ter (na escrita, está claro) essa voz. Depois voltei a ler e achei que me tinha enganado miseravelmente e a voz era a do louro da secretária, tão (ou mais?) feminino do que ela. Já tresli e agora não tenho certeza nenhuma, o que me faz gostar ainda mais duma escrita que se sabe polifónica.
Manuel, ainda bem que gostou. Não sei se polifónico é elogio mas vou-me convencer que sim.
Eu só queria dizer que gostei muito.
E que achei irresistível a possibilidade de uma grande angular que permita espreitar os “intestinos do prédio todo”. Como James Stewart na Janela Indscreta, mas para dentro. O que seria…
Obrigado Joana. Ainda bem que gostou do voyeurismo fotográfico.
Como a Joana, me lembrei também do conto de Cornell Woolrich. Aliás, este filme está entre os meus 10 favoritos.
Adorei a sua lente :o)
Tks Turmalina!
Não sei porquê mas dei comigo a achar que era o Denis Hopper a pensar. E nem foi pelo vestido azul, foi qualquer coisa de afiado que há no texto.
Excelente filme.
Obrigado António. É engraçado que fale nos Denis Hopper. Não pensei nele, mas agora que o menciona acho que podia ter sido ele, de facto. Os nossos textos têm sempre sentido que nós próprios desconhecemos.
Está bem vista a paralaxe. De facto, parece que a sala tem altura a mais para a largura. É bem estranho, o Eduardo.