É tudo bicharada morta #2

aqui falei do coelho que vive em minha casa. Há gostos para tudo dirão. Sim é verdade, confirmo. Neste nosso mundo, até para com o mais abjecto ou perigoso dos animais, existe alguém disposto a verter o seu amor, carinho e delicatessens alimentares de todo o tipo, sem limites, e esquecendo as mais elementares regras do bom-senso. Recentemente, soube de um casal que, em Milão, vive num apartamento com dois tigres adultos. Em Milão! No centro da cidade! (Suspeito que os dois simpáticos gatinhos terão já despovoado completamente o terceiro e quarto andares — Podemos só imaginar a dramática perda de valor do imóvel!)

Mantendo-me neste tema, deixo-vos por isso com a história que me contou um amigo meu no outro dia. É toda verdade verdadinha, tal como o era já, aquela a que me refiro lá em cima.  

O meu amigo K. tem uma Piton lá em casa. Um daqueles monstros da grossura de um pneu de um autocarro, capaz de comer um cão de razoáveis dimensões e que se alimenta substancialmente de ratos vivos e aditivos sólidos à base de sangue bovino. Há cerca de um mês, a Piton deixou de comer. É de referir que é normal que uma piton esteja em jejum por períodos de uma ou duas semanas, mas a sua “Foufone” (assim lhe chama carinhosamente) deixou de comer, period. K., que lhe dá melhores tratos do que aqueles que dispensa a alguns elementos da sua própria família, bem que tentou enfiar-lhe pela boca a baixo, e á força, os pequenos ratinhos brancos de laboratório de sua prelecção, mas nada. Nem uma dentadinha. Desesperado, acabou por levá-la ao veterinário para ouvir um conselho.

“Nada de estranho”, disse-lhe o Senhor Doutor dos animais “existem casos em que este tipo de Constrictors está meses sem comer. Não se preocupe, tenha um olho nela e se isto continuar por mais duas semanas, volte cá.” Duas semanas depois o meu amigo voltou ao veterinário. O doutor, depois de uma curta observação referiu-lhe que não encontrava nada de estranho na sua Piton. Mas depois curioso perguntou “Você têm-lhe observado algum comportamento particularmente inusual durante estas últimas semanas?” O meu amigo K. pensou um pouco e respondeu “Olhe doutor agora que pergunta, temos de facto visto algo de diferente no seu comportamento. Sabe, a nossa “Foufone” costuma vir dormir connosco, enrolando-se habitualmente aos pés da nossa cama para receber o nosso calor. No entanto, nestas últimas semanas, temos notado que, em vez de se enrolar, se estica toda ao longo do colchão, paralela á minha mulher. Temos achado piada acordar com ela naquela posição mas agora que mo pergunta, espero que o pobre animal não esteja a querer dizer-nos qualquer coisa.”

O doutor levantou-se. “Meu caro amigo, receio que tenhamos de abater imediatamente o seu animal de estimação.” “Abater a “Foufone”? Porquê, o que é que se passa com ela?” perguntou K. alarmado. O Doutor olhou-o frontal. “Não se passa nada de especial com a “Foufone”. O animal está de perfeita saúde. O que se passa é que ela se está a preparar para uma grande refeição.”

Confuso o meu amigo pergunta-lhe o porquê então, de abater a “Foufone”.

“Porque durante todas estas noites, a sua “Foufone” esticada na sua cama,” disse grave o veterninário, “ao lado da sua mulher…”

“Sim?”

“têm estado calmamente a tirar-lhe as medidas, meu caro amigo!”

Comentários a “É tudo bicharada morta #2” (12)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Ó Vasco, quem sabe e a amável ‘Foufone’ não seria a solução perfeita de muitos casais, enfim, desequilibrados?…
    Este seu texto pode projectar um inusitado sucesso comercial junto das pet shops mais afoitas.

    • Vasco Grilo diz:

      Amigo Eça. Uma coisa é certa. Seria a resposta perfeita do marido/namorado/híbrido aos pérfidos voodoos Eugenianos que contaminam este blogue.

      • Eugénia de Vasconcellos diz:

        Assim se vê, Vasco, com esta retribuição a incontáveis desvelos amorosos, o seu coração pérfido.

        Ps: este é mesmo o género de história que faz pesadelos. Tenho pavor destas bichezas.

      • Ana Marcal Grilo diz:

        Vasco! Linda a história!!

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Tenha cuidado, Vasco, a Eugénia agora anda armada com uma impressionante e perigosíssima bateria de colheres ópticas…

  3. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Odeio estas histórias horripilantes! Nunca as leio porque depois eu é fico um rato de laboratório hipnotizado, sem me conseguir mexer. Já vim ler outra vez. Se eu conseguisse pensar numa coisa suficientemente má para lhe fazer de volta, fazia, Vasco Grilo.

  4. Turmalina diz:

    Achei o nome “Foufone” o máximo do encanto..mas cá entre nós, quem de vocês se sentiria confortável dividindo a cama com a fofíssima, héin?
    Eu não tenho nada contra as serpentes, até admiro-as, mas não daria prá encarar aquela pele gelada roçando no meu pé.Seria então, eu ou a cobra!

  5. António Eça de Queiroz diz:

    Ao contrário do que pensam, as cobras são animais amabilíssimos e de grande compostura.

  6. Manuel S. Fonseca diz:

    Ò Vasco, mas que cobra, até a verdadeira cobra de Marraquexe, é que, ao lado de descuidada dama em cama deitada, não se estica toda para lhe tirar as medidas.

  7. Mafalda M. diz:

    Até fiquei arrepiada.…e eu até gosto de cobras. Não teria uma em casa que não sou louca ( quer dizer… teria de ser muito mais do que na realidade ainda sou).Esta história mete medo!

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