Devia?

O dançar das opiniões é tão flutuante como espigas ao vento, mas bem menos melódico. E os clamores ouvem-se:  ora é porque o Presidente devia intervir, ora não devia intervir, devia ter mais poderes, menos poderes. O Presidente Cavaco Silva tem a emotividade e a expressividade dum espargo e, como tal, nunca me inspirou grande motivação. Para o país, também não penso que tenha sido um brilhante presidente e o seu extremo calculismo político é tão aguçado quanto um bisturi.

Desta feita é porque o Presidente deveria ter seguido em frente, levado as suas convicções até às últimas consequências e vetado o casamento homossexual. Como todos sabemos, caso vetasse, o diploma voltaria à Assembleia da República onde seria novamente aprovado por maioria parlamentar.

Eu respeito a honra e a dignidade das lutas, o tombar pelos valores magnânimos face à inevitabilidade e imutabilidade do resultado. Mas vamos lá ver, é esta uma situação verdadeiramente fracturante? Desta vez concordo com a atitude do Presidente: eu sou o Presidente de todos os Portugueses, não concordo e deixo a minha voz em acta, mas vou seguir a vontade da maioria. Esta não é uma questão prioritária para uma discussão alargada, não é sequer uma questão que divida a sociedade. Uma vez desaparecidas as gerações do século XX alguém sentirá isto como um problema? Não.

Casamentos em Portugal
Dados da Pordata

Aqueles que estão contra a atitude do Presidente, na sua maioria, são representantes de uma comunidade ligada aos valores mais tradicionais e conservadores e, inevitavelmente, católicos. Muitos desses valores são de louvar, nomeadamente aqueles que dizem respeito à integridade humana, mas a organização da sociedade está cada vez mais diferente e menos assente nos padrões definidos pela identidade católica; veja-se o gráfico acima, onde a instituição do casamento está em forte decréscimo, mesmo contando com o decréscimo da população (não representado) — nos anos 70, o número de casamentos correspondia a aproximadamente 3.6% da população entre os 20 e os 40 anos, ao passo que nos anos 90, já só correspondia a cerca de 1,9%. Mas o mais significativo é o decréscimo do número de casamentos religiosos, uma medida indicativa da mudança do tecido dos valores da sociedade e seu correspondente enquadramento na matriz católica.

Assim, o prosseguir da cruzada do Presidente seria apenas um capricho de uma minoria e não a representação de uma tendência maioritária, além de que serviria apenas para provocar uma discussão já fora do prazo de validade que, verdadeiramente, de fracturante tem muito pouco.

Comentários a “Devia?” (7)

  1. O que eu acho giro nisto tudo é: sim, senhora casem todos/as à vontade com quem quiserem; sim, senhora, o Presidente diz de sua consciência e não obsta à maioria. Sim, senhora, quando os todos/as se aperceberem que se vão divorciar como o resto de nós todos/as estarão na igualdade plena da sua cidadania.

  2. Pedro Norton diz:

    Francisco,
    Subscrevo a tua opinião mas chamo a atenção para o seguinte: a regra da maioria não pode ser a única fonte de legitimação das decisões do PR. Se assim fosse tornava-se irrelevante. Dito isto, concordo que esta discussão em concreto perdeu o prazo de validade.

    • Certíssimo, senão teria também de descriminalizar a corrupção (isto porque já foi despenalizada), institucionalizar os 122 dias úteis de férias e abolir os impostos!

      No entanto, a não ser que considerasse que esta lei alteraria de forma suicida e irreversível o tecido social da nação, tratando-se uma questão de valores, acho legítimo assimilar o sentimento colectivo.

  3. Já agora, é interessante observar o PREC no número de casamentos!

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    É estranho, já pensou Francisco que um dos valores mais tradicionais é mesmo o casamento. É mesmo o raio de uma instituição tradicional e conservadora. Está a ver, Francisco, a contradição? Ou seja, as coisas não são tão simples e o mundo não se divide com essa facilidade, em atados e conservadores e desembaraçados e progressivos…if you what I mean… Estou só a falar no plano filosófico, o resto, o que está feito, feito está, e é andor (ou altar?) para a frente com o santo António a abençoar.

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Ah, entre o you e o what escapou-me o know que a mim sempre me falta. Sorry.

  6. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Francisco, concordo com o Manuel. O diagnóstico está bem feito. Os dados são relevantes. Já quanto às conclusões… não é tudo assim tão simples. Porque de facto há uma “cruzada” contra o casamento como forma de organização do tecido social na qual estão francamente de acordo liberais de direita e socialistas de esquerda. E a verdade é que pretender construir as redes sociais (não as virtuais, mas as realmente verdadeiras) apenas com indivíduos economicamente produtivos e Estados politicamente reguladores resulta tragicamente numa sociedade não democrática, manipulável, composta (ou amarfanhada) de gente apática e acrítica. Até que a crise nos separe!

Comentar