Deus existe? E podemos sabê-lo?

A propósito de uma questão levantada pelo Francisco e pelo Manuel, num post mais atrás – já outras vezes, aliás, neste blog proposta, ou referida –, resolvi pedir a ajuda de alguém que, mais e melhor do que qualquer um de nós, há muito tempo a vem tratando. A questão é a da existência de Deus enquanto pode ser por nós conhecida e/ou pensada, a qual foi especificamente considerada no artigo 2 da primeira parte da Suma Teológica de São Tomás, com o que aqui a irei introduzir.
O objecto de toda a suma de teologia de São Tomás de Aquino (escrita entre 1265 e 1273) é a sagrada doutrina,(1) cujo principal propósito é ensinar o conhecimento acerca de Deus, não só enquanto é em si mesmo, mas também enquanto é princípio e fim das coisas, e especialmente da criatura racional. A Suma, como tal, trata de Deus, na primeira parte; do movimento da criatura racional para Deus, na segunda; e de Cristo, que, enquanto homem, é a via pela qual tendemos para Deus, na terceira.
Na consideração acerca de Deus, que é o objecto da primeira parte, trata as coisas que pertecem à essência divina, primeiro; as que pertencem à distinção das suas pessoas, depois; e as que pertencem à processão das criaturas de si próprio, por último. Sobre a essência divina, considera se Deus existe, primeiro; como é que existe – ou melhor, como não existe –, depois; e aquilo que pertence às suas operações – nomeadamente a sua ciência, a sua vontade e o seu poder –, por último. Sobre a existência de Deus, assim, questiona se ela é conhecida por si mesma, primeiro; se é demonstrável, segundo; e se Deus existe, terceiro.(2)
Sendo que o aqui fundamentalmente nos interessa é o terceiro artigo da segunda questão desta primeira parte – se Deus existe!? –, resumamos brevissimamente o que São Tomás diz nos dois artigos que o antecedem.
Primeiro, afirma que, sendo Deus o ser sumamente cognoscível – na medida em que o seu ser é, por definição, o seu próprio existir –, também a sua existência é, em si mesma, evidente. Para nós, porém, que não sabemos aquilo que Deus é – ou que apenas imperfeitamente o sabemos –, a sua existência não é conhecida por si mesma, ou a partir da sua natureza, mas necessita ser demonstrada por meio dos seus efeitos, que é aquilo que, de um modo evidente, nós conhecemos.(3)
Em segundo lugar, portanto, afirma que a existência de Deus pode ser por nós demonstrada. Não, contudo, a priori, isto é, de um modo absoluto e a partir da sua essência, ou das suas causas, mas relativamente e a partir dos seus efeitos. Na verdade, a partir de um qualquer efeito pode demonstrar-se a existência da própria causa, pois que, na medida em que o efeito depende da causa, dado o efeito é necessário que pré-exista a causa. Deus, portanto, é por nós demonstrável por meio dos seus efeitos que por nós são conhecidos.(4)
No artigo terceiro, assim, São Tomás põe a questão da existência de Deus e da sua demonstrabilidade. Deixaremos para os posts seguintes a questão e a discussão das famosas cinco vias com as quais demonstra, neste mesmo artigo, a existência de Deus. Por agora basta que ponhamos a questão tal como ele a põe (o texto completo pode ver-se aqui):

«1. Parece que Deus não existe. Porque se um dos contrários for infinito, será totalmente destruído o outro. Ora isto entende-se neste nome, Deus, nomeadamente que seja algum bem infinito. Se Deus existisse, portanto, de nenhum modo poderia acontecer o mal. O mal, porém, acontece no mundo. Logo, Deus não existe.
2. Além disso, aquilo que pode cumprir-se com menos princípios não deve fazer-se com mais. Mas parece que, supondo que Deus não exista, todas as coisas que aparecem no mundo podem fazer-se por meio de outros princípios, pois que as coisas que são naturais podem reconduzir-se a um princípio que é a natureza e aquelas que são propositivas, por outro lado, podem reconduzir-se ao princípio que é a razão ou a vontade humanas. Deste modo, não há nenhuma necessidade de supor que Deus exista.
Contrariamente, porém, está aquilo que se diz no Êxodo (3, 14) da própria pessoa de Deus: “Eu sou aquele que é.”»(5)

E está lançada a discussão.

(1) AQUINO, Tomás de, Summa Theologiae, prima pars, quaestio 1, proemium
(2) AQUINO, Tomás de, Summa Theologiae, prima pars, quaestio 2, proemium
(3) AQUINO, Tomás de, Summa Theologiae, prima pars, quaestio 2, articulus 1, respondeo
(4) AQUINO, Tomás de, Summa Theologiae, prima pars, quaestio 2, articulus 2, respondeo
(5) AQUINO, Tomás de, Summa Theologiae, prima pars, quaestio 2, articulus 3, argumenta 1 et 2 et sed contra

Comentários a “Deus existe? E podemos sabê-lo?” (3)

  1. Orcama diz:

    Gostaria de entrar na discussão. Outro dia levei cadeira e tudo, mas as luzes estavam apagadas e não havia ninguém…
    Penso, no entanto, que seria importante balizar a questão. Tomás parece-me já um pouco datado e as questões de Deus, Fé e Religião deveriam ficar preambularmente definidas.

  2. Marta Costa Reis diz:

    Escrevi em tempos umas coisas engraçadas sobre S Tomás e as suas 5 vias que não sei onde estão e não sei já reproduzir, mas num breve resumo aqui fica a suma: o Deus que Tomás demonstra é necessariamente um Deus de filósofo, o Deus pessoal em que ele acredita continua indemonstrado e, a meu ver, indemonstrável. Melhor está, neste ponto, Agostinho, quando percebe que não vale a pena procurar no exterior o Deus que encontra então em si.

  3. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Orcama, concordo com a necessidade de balizar a questão. Mas, para nós, que conhecemos imperfeitamente as coisas, ou partimos da essência para a existência ou da existência para a essência. São Tomás, contra Anselmo e Descartes (criticará num dos artigos seguintes justamente o argumento ontológico), parte da existência para a essência. E julgo que faz bem. De maneira que estamos justamente a começar a balizar a questão. Quanto a São Tomás estar datado… Sem dúvida. Aliás, é coisa que estamos todos. Nesta questão, contudo, é um guia muito seguro.
    Marta, veja lá se desencanta esses seus apontamentos, que bem gostava de os aprender aqui. Quanto ao que diz dou-lhe razão. Mas não escolheria um ou outro. Ambos têm vantagens e desvantagens e nós, que não somos da escola de um nem de outro (ainda que eu seja um bocadinho suareziano), podemos aproveitar as vantagens dos dois. Quer melhor do que isto?
    Já sobre esta introdução, interrompi-a a seguir à propositura das teses contrárias àquela que Tomás irá defender justamente porque ela nos revela, à partida, duas coisas fundamentais: a primeira é a infinita perfeição com que é concebido o Deus cristão, contra a qual, apenas, o problema do mal no mundo se põe — com efeito, nada obsta que coexistam um ou mais deuses imperfeitos e não omnipotentes e omniscientes com o mal no mundo; a segunda é que o universo se supõe ordenado, mais: racionalmente ordenado.
    Ora, estas duas teses, que de algum modo estão interligadas e subjazem a estas duas conclusões que São Tomás a seguir refutará, são fundamentais na nossa cultura. O mundo do homem é um todo ordenado que esconde em si mesmo uma intenção que se mostra e se descobre na história. Isto foi e permanece (com algumas excepções, como por exemplo o caso de David Hume) decisivo na nossa civilização.

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