Crónicas do Reino da Dinamarca (4)


A entrada no paraíso falhado de Christiania

É apresentada como uma comunidade com um estilo de vida alternativo. E ostenta mesmo a ambiciosa denominação de “Freetown” ou de “Estado Livre de Christiania”. À entrada, uma placa diz-nos que já não estamos em território da União Europeia. E presumimos que nos querem fazer crer também que, apesar de estarmos perto de centro de Copenhaga, o Reino da Dinamarca ali não manda nada. Na verdade, desde 13 de Novembro de 1971, data em que um grupo de hippies ocupou um conjunto de armazéns militares abandonados e fundou uma comuna num perímetro por eles delimitado, que Christiania tem resistido a cíclicas tentativas de desalojamento dos seus habitantes (agora, cerca de um milhar) – e o ciclo é o mesmo das flutuações políticas, que oscilam entre governos sociais-democratas que lhe dão o benefício da dúvida como “experiência social” e governos conservadores-liberais que a vêm como um antro de delinquência e marginalidade. A seu favor, alegam os habitantes de Christiania um sistema de valores assente na vida comunitária e na comunhão com a natureza, assegurado por infraestruturas próprias e financiado pelas receitas que o comércio de artesanato e a exploração de cafés e restaurantes lhes assegura, em grande parte provenientes daqueles que a visitam. Bem como invocam o acolhimento que prestam a todos os deserdados da sociedade, para os quais o Estado (o oficial) já não tem lugar. Paz e amor para todos, em que a única propriedade que existe é colectiva. Em teoria, o paraíso na terra, do tipo de socialismo associacionista (ou de cooperativa) que Fourier e Owen já anunciavam no século XIX e que o segundo chegou mesmo a tentar pôr em prática sem sucesso algum.

A verdade é que, mesmo para um visitante curioso sem preconceitos sobre projectos do género, basta uma volta de cinco minutos para o cepticismo se instalar. Cedo se desconfia que a principal fonte de receitas da comunidade é o cannabis, que é promovido e vendido, à vista de todos e sem prurido algum, na praça central de Christiania. Isto, esclareça-se, num país em que a simples posse da substância é punível criminalmente. Os armazéns que servem de habitação e de oficina lá estão, mas num estado de degradação e insalubridade que não se recomendam a vagabundo nenhum. E os deserdados – que, segundo nos contam, não são nem os fundadores da comunidade nem os seus descendentes, que, desencantados, optaram por se mudar para outras paragens – também marcam presença, embora muitos deles não pareçam sequer saber onde estão.

É difícil evitar que nos venha à memória a ambiguidade da palavra “beat” com que Jack Kerouac baptizou a sua geração de alienados. “Beat” aproxima-se, aqui, do seu significado literal, do loser desiludido sem esperança alguma, parecendo longe, muito longe, do sentido de beatitude que, levado pela batida (“beat”) desenfreada do bop dos anos 50, Kerouac e seus parceiros de viagem procuravam, e que os hippies, nos anos 60/70, com diferentes fundamentos embora (musicais e não só), recuperaram.

Comentários a “Crónicas do Reino da Dinamarca (4)” (3)

  1. Joana Vasconcelos diz:

    É caso para dizer — e o Shakespeare decerto concordaria — que “something is rotten in the state of Denmark”.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Diogo, uma das bandas mais espantosas que conheço — The Savage Rose, que já apresentei ao ETGM antes — é dinamarquesa e andou por Christiania. Lembro-me da vocalista, Annisette, falar disso numa entrevista que deu com o Thomas Koppel (o inventor dos SR) à Rolling Stone. Exactamente no iníco de 70.
    E ciclicamente lá vejo na TV a polícia a tentar varrer a zona, com grande resistência dos ‘autóctones’…

  3. Turmalina diz:

    The dream is over…

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