Colado ao corpo

A Turmalina entusiasmou-se com o Hopper. Inspirou, inspirou-se e veio acolher-se aqui, a este nosso cemitério. Welcome.

Colado ao Corpo
por Turmalina

Mas…mas…
E ainda tenho que me concentrar, mas como? Aquela dissimulada tem o prazer de me tentar, dia após dia, em doses homeopáticas. O jeito como ela usa o vestido colado ao corpo, ah…aquele corpo tão bem feito e no frescor da idade, faz virar a cabeça de qualquer um. Faz-me derreter por dentro enquanto um desejo violento sai explodindo todos os meus poros. Tento disfarçar e me concentrar no trabalho. As letras na minha frente dançam sobre a trêmula folha de papel branca.
– Se concentre, Atílio! Se concentre, homem!
Aquela voz interna, vulgo consciência, me atormenta incessantemente. Ao tentar disfarçar vejo somente aqueles tornozelos, largos e tão perfeitamente desenhados como as suas avantajadas e portentosas ancas. Fecho os olhos e vejo minhas mãos deslizando por todo aquele corpo moldado prô pecado. E que raios que tanto ela me olha? Fatalmente que é para me ver desconcertado.
Abro a janela na tentativa de respirar melhor e de refrear aquele calor todo que insiste em me queimar por dentro. Aquela inconseqüente sabe que me provoca, faz de propósito, a maldita. Maldito também é aquele seu feitio manso de falar, um quase sussurar, como se pudesse convencer-me que eu estava diante de uma frágil criatura. Frágil que nada, ela é mesmo um demônio em forma de mulher.
Mais um pouco e eu fecho aquela porta, lhe atiro à mesa e a devoro aqui mesmo. Ela vai ver só o que lhe acontece se continuar me tentando assim. Não sou homem de firulas e nem mesmo de meias vontades. Vou dar-lhe mais uma chance, uma única chance, antes que lhe dê motivo para sair por aí me chamando de canalha. E a ordinária continua lá, imóvel, como uma cobra, hipnotizando sua presa antes do bote. Ah…mas a sem vergonha está redondamente enganada, mais alguns instantes e a presa aqui será ela, subjugada e vencida.
Não há tortura maior do que me imaginar sobre o seu corpo, com minhas mãos tateando aquele corpo dos infernos. Uma gota de suor escorre da minha testa dispersando-se sobre a folha de papel que teimo em tentar ler. Não sei quanto tempo mais conseguirei resistir. Deus é testemunha que tentei me controlar, mas o apelo do pecado é bem maior.
– Atílio!
Tomado de susto, percebo o Coriolano na porta da sala.
– O que faz aqui até agora, homem?
– Estou aguardando a menina Ana, do Departamento Pessoal, terminar de arquivar uns documentos.
– Quem?
– A menina Ana, que trabalha no segundo andar, lá no Departamento Pessoal.
– Deu prá beber agora, Atílio? Não há ninguém mais aqui.
– Claro que há, Coriolano, a menina Ana.
– Venha, meu amigo, vamos embora. Acho que você já trabalhou muito por hoje.
– Mas…mas…

Comentários a “Colado ao corpo” (12)

  1. Orcama diz:

    Turmalina entusiasmou-se com Hopper,
    E eu com a Ana dela!…
    Cara Turmalina, como pôde ler os meus pensamentos, tirar-me as palavras da boca?…
    Acordo agora, estremunhado. Descubro-me. Afinal não me chamo Atílio. Óhh, desespero!…

    • Turmalina diz:

      Óhh, coitado!!!
      Não foi minha intenção deixá-lo em tal estado :o)
      Na verdade é um exercício delicioso tentar se colocar dentro da cabeça de um homem.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    E depois não é assédio… Ai ninas que não é!

  3. Joana Vasconcelos diz:

    Que maravilha, Turmalina!

    A prova definitiva de que o mal está nos olhos (e no caso do Atílio na cabeça) de quem vê (ou às tantas julga ver). Ou como dizia o outro, honi soit qui mal y pense …

    Mas que falta de profissionalismo! Deve ter ficado lindo o relatório … será que ele escreveu e entregou ao chefe — sem dar por isso, claro — uma partezinha do que lhe passava pela cabeça?

    • Turmalina diz:

      Obrigada Joana querida…
      Você viu só até que ponto pode chegar uma fixação? Impressionante, não é?
      E acho que esses homens assim meio sem sal, nem açucar, são os piores.

  4. Luciana diz:

    Ai, Turmalina, que maravilha perder-se nas cabeças alheias…mas se eu mal e mal dou conta da minha e afins, nem imagino como você tão bem dá conta da cabeça de um, um, um…Atílio!

    • Turmalina diz:

      Ah… Luciana, mas vou contar-lhe um segredo: desde pequena, sempre observei as expressões faciais alheias, na tentativa de adivinhar o que estavam pensando :o)
      Tanto que costumo dar muitos palpites na construção de personagens alheios.O que eles pensam, como reagem, como exteriorizam seus sentimentos e coisas assim.

  5. Alberto Nogueira diz:

    Um amor no local de trabalho ajuda a levantar de manhã o cú da cama para que se tente voltar acompanhado (a).

  6. Alberto Nogueira diz:

    Isso é o ‘politicamente correcto’, mas a paixão, essa «ganda maluca», está-se borrificando para essas coisas.

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