Coisas improváveis, interessantes, bonitas e até prosaicas



Não, não é uma armadilha para enguias. Mas dava.

Não, não é uma armadilha para enguias.

A garrafa de Klein é um determinado objecto de superfície não-orientável, uma superfície (espaço topológico em duas dimensões) sem distinção entre os lados «de dentro» e «de fora» – diz a Wiki-Wiki num ataquinho de weakness.
Feita a partir do conceito geométrico da Fita de Moeubius, tem a suprema vantagem de, tanto quanto se sabe, não servir para coisíssima nenhuma (a não ser para especulações, o que lhe garante um extra de valor). A minha filha Joana deu-ma de presente de anos (ou terá sido de Natal?…) com a garantia de ser o único objecto da 4ª dimensão alguma vez produzido por humanos (!).
O prussiano Félix Klein, seu inventor, foi um matemático teórico do século XIX e casou com uma neta de Hegel – o que explica parcialmente a ambígua serventia desta coisa.
Gosto duma certa elegância malévola de loop informático.


Um autêntico dur0

Este personagem é-me em grande parte desconhecido. Sei que o meu avô o trouxe de África há cerca de um século, presumo que tenha origem na antiga Niassalândia, e o seu coco, sendo uma réplica dos usados à época pelos colonos ocidentais (ingleses em particular), representa um sinal de grande poder.
Tem pouco mais de 20 cm de altura mas pesa bem mais de três quilos. É feita em pau-ferro – facto que o meu irmão Carlos comprovou de forma bastante estrepitosa ao tentar cortar-lhe a base com uma serra eléctrica: a serra partiu, a fita voou disparada pelos ares e partiu vários vidros duma estranha porta de garagem que escondia a «operação» de alheios olhos (os da minha mãe, por exemplo). Ele tinha 16 anos e eu 11.
Ninguém sofreu danos físicos.


Às vezes fico-me a olhar para ela…

Isto é uma urna funerária para ofertas, feita em frágil pau-rosa, e é sem dúvida a peça de arte africana mais bonita da minha pequena colecção. Se bem me lembro, veio do Quénia – também há cerca de um século, pelas mãos do meu avô.

Completamente a despropósito, acabo este desinspirado post com a primeira vitória do FCP na presente época.
Só para aborrecer – porque chatear é chato.

Álvaro Parente no seu melhor

Comentários a “Coisas improváveis, interessantes, bonitas e até prosaicas” (10)

  1. Alberto Nogueira diz:

    A garrafa é maravilhosa! A tua filha Joana revela muito bom gosto e conhecer bem o pai enigmático que tem. Sobre a Fita de Moeubios recordo-me de dissertarmos sobre os inesperados resultados ao cortá-la.

  2. Luciana diz:

    Lindas peças e a urna funerária tem linhas que dão vontade de tocar, adivinhando-lhe a delicadeza. Que generoso de sua parte apresentar-nos a beleza e o inusitado…(por isso quase desejei por irmão um Antonio…).

  3. António Eça de Queiroz diz:

    É bonita, não é, Alberto? Se me lembro dessas conversas!…
    Luciana, tem toda a razão: apetece tocar — e eu faço isso muitas vezes.
    E deixe-me que lhe diga: a minha suposta generosidade também tem o seu quê de vaidade… Adoro objectos bonitos e mostrá-los faz parte desse gosto.

    • Luciana diz:

      É sempre uma deliciosa questão, não acha, se o que vale é a intenção (menos nobre, talvez, em sua vaidade) ou seu efeito (nosso, no caso explicitamente declarado, meu, deleite). Por mim, pecados assim são sempre bem vindos…

  4. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Eu gostei. Não achei desinspirado. Mas a minha ignorância não percebeu o carácter funerário da peça.

  5. António Eça de Queiroz diz:

    Eugénia, esta peça, que julgo simbolizar o renascer, ou uma transmigração — o espírito alimenta-se das oferendas que são postas no receptáculo -, era posta junto à sepultura, ao lado de outras de diferentes significados. Tanto quanto me disse o meu avô, punham ali grãos de diversas espécies para que o espírito, ao alimentar-se delas, se lembrasse e favorecesse as colheitas.
    É tudo o que sei, e nem sei se é bem assim…

  6. António Eça de Queiroz diz:

    Ora aí está uma utilidade inesperada (eu pelo menos não tinha pensado nela).
    E sabe que as suas dúvidas eram muito razoáveis: aquilo não é uma «urna funerária» no sentido lato da definição, mas sim um recipiente próprio de exéquias e afins.
    A minha desinspiração fez-me mais esta desfeita…

  7. Joana Vasconcelos diz:

    Olá António, tarde e a más horas venho juntar-me ao coro de apreciadores destes seus tesouros.

    Achei uma delícia a ideia e a forma graciosa da garrafa de Klein, e encantaram-me as duas peças de madeira. Concordo em absoluto com a Luciana; apetece passar lhes a mão, de tão suave e macia que deve ser a superfície.

    Mas do que eu gosto mesmo, neste como nos anteriores posts sobre as suas extraordinárias possessões, é da forma como no-las mostra, na sua beleza, claro, mas também naquilo que as torna tão únicas e inestimáveis.

    PS — Algum motivo especial para experimentar fatiar (de moto-serra??!!) o pobre do duro do chapéu?

  8. António Eça de Queiroz diz:

    Joana, havia uma ideia concreta sim: a absoluta incredulidade do meu irmão de que aquilo fosse realmente pau-ferro…
    Ele gostava de desafios, por vezes em demasia.

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