Caillebotte story, perdão, botte story, ai!, short story

RUE DE PARIS; TEMPS DE PLUIE
— a luz é linda, assim, depois das quatro, escorrida até aos veios da estrada calcetada, lisa no passeio limpo.. mas estamos a fazer tudo mal.
— mal?
— esta pintura não é para ser vista de frente, parados.
— não?
— não. Tem de ser a andar. Isto é olhar de quem vai atravessar a praça a partir deste ponto. Para a nossa esquerda. Reparou que o casal tem o olhar dirigido, todo, para a própria direita..
— claro.
— porque conhece um senhor que está do outro lado, é o solicitador deles, e ainda que com alguma distância de permeio, estão ambos a pensar: ele está longe, está a mudar de direcção, cumprimentamos?, será nos vê?
— viram-se?
— não sei, iam tão concentrados neste pensamento que se distraíram da rua e tocaram no casal com quem se cruzaram mesmo em cima: ele ainda encalhou ao de leve na senhora que estava a descer o passeio — bem vê, tinha de ser na senhora, porque ela é que ia do lado de dentro..
— qual casal?
— dê cá o braço, Jeune homme à la fenêtre, que depois do encontrão não estou para escorregar nas pedras molhadas.

Comentários a “Caillebotte story, perdão, botte story, ai!, short story” (2)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Eugénia, por certo reparou que, embora chova, a temperatura é, dir-se-ia, quase amena! Pena o vento, soprado de norte, a que a robustez dos guarda-chuvas permite alguma indiferença.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    O tipo que atravessa a rua de cabeça baixa e cigarro na boca tem dívidas de jogo. E uma amante esgotante…

Comentar