Ao cuidado do Meu Rico Santo António

O MEU CORAÇÃO — Anaquim com Ana Bacalhau (Deolinda)


O MEU CORAÇÃO

O meu coração é um viajante
Que se entrega num instante
Por aí aonde for

Acha que sabe bem o que eu preciso
Prende-se a qualquer sorriso
Sem motivos de maior

O meu coração é inocente
Pensa que a vida é um mar de rosas
Mas eu que vi espinhos em toda a gente
Afasto essas certezas duvidosas

 O meu coração é um bicho muito estranho
Que se esconde e não responde a quem chamar
Alérgico ao exterior vive na toca
Onde se esconde e sufoca por não ver entrar o ar

O meu coração vive trancado
Diz que atirou a chave ao mar
E eu que a procurei por todo o lado
Só me resta assim continuar

 Coração triste
Não me arrastes em teu passo
Meu corpo insiste em decidir o que faço
Se eu digo sim tu dizes não
Eu cá vou bem sem coração
Entre o morrer de amor e o viver nesta prisão

Coração louco
Não me imponhas o teu vicio
Que a pouco e pouco vou cedendo ao sacrifício
É que eu sei bem que se acordares
E procurares por ai
Encontras outro coração para ti

 Já encontraste? Demoras muito ou quê?

 O meu coração é uma criança
Ansiosa pela dança de quem lhe estender a mão
Mas este é caprichoso e inclusivo
Analista compulsivo que não chega à conclusão

O meu coração segue as novelas
Jubila com as falas das actrizes

O meu carrega histórias de mazelas
E afasta-se desses finais felizes

Coração triste
Não me arrastes em teu passo
Meu corpo insiste em decidir o que faço
Se eu digo sim tu dizes não
Eu cá vou bem sem coração
Entre o morrer de amor e o viver nesta prisão

Coração louco
Não me imponhas o teu vicio
Que a pouco e pouco vou cedendo ao sacrificio
É que eu sei bem que se acordares
E procurares por ai
Encontras outro coração para ti

 Falei primeiro a bem por ser assunto de respeito
Mas não me deu ouvidos perseguiu naquele jeito

Mudei para as ameaças
Tentei que usasse a razão
Mas é palavra estranha pró meu pobre coração

Farta desses maus tratos fiz as malas e parti
E logo te encontrei com o mesmo modo que eu sofri
A mesma frustração
A mesma pose o mesmo olhar
E em teu toque senti no meu corpo a trupulsar

Juntos rimos de tudo
Só chorámos nas novelas
Fingimos ser crianças e dançámos como elas
Perdemos noite e dia entre histórias e canções
Juntámos nomes, gostos e moradas
E quase sem dar por nada
Encontrámos corações

Coração triste
Não me arrastes em teu passo
Meu corpo insiste em decidir o que faço
Se eu digo sim tu dizes não
Eu cá vou bem sem coração
Entre o morrer de amor e o viver nesta prisão

Coração louco
Não me imponhas o teu vicio
Que a pouco e pouco vou cedendo ao sacrifício
É que eu sei bem que se acordares
E procurares por ai
Encontras outro coração para ti

Comentários a “Ao cuidado do Meu Rico Santo António” (7)

  1. Turmalina diz:

    Liiiiindo, Joana!!!
    Gostei do:
    “Coração louco
    Não me imponhas o teu vicio
    Que a pouco e pouco
    vou cedendo ao sacrificio”

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Gosto imenso dos Deolinda!

    • Joana Vasconcelos diz:

      Turmalina e António, ainda bem que gostaram. Eu também gosto muito dos Deolinda e ando divertídíssima com esta música!

  3. Anita visita os mortos diz:

    Ó meu rico Santo Antoninho,
    da minha grande devoção,
    envia à Joana um beijinho
    para agradecer esta canção.

    Estou arredada da cidade
    nesta noite de bailarico.
    É uma grande maldade
    e nem por perto um manjerico…

    Por isso, querida Joana,
    tens que ir tu ao arraial,
    no Castelo ou em Alfama
    não nos deixes ficar mal!

    • Joana Vasconcelos diz:

      Anita, não estejas brava
      Por só responder agora
      Nada de mandar-me à fava
      Que não perdes pela demora

      Não te conhecia o dom
      De tão ágil versejar
      Vai-se a ver e inspirou-te
      O que andaste a pedalar

      Foi uma surpresa linda
      Que muito me enterneceu
      Fiz logo uma prece ao Santo
      Pelo Antoninho teu

      E claro, por ti também
      Minha muito querida amiga
      Almoçamos prá semana?
      Com a Alex? Vai me liga …

      (já que não me atendes o telefone, peste …)

  4. Orcama diz:

    Olá Joana Vasconcelos,
    Aqui lhe deixo virtual vaso de manjerico com esta quadra:
    No dia se Santo António
    Todos riem sem razão.
    Em São João e São Pedro
    Como é que todos rirão?
    (in Quadras– Fernando Pessoa)

    • Joana Vasconcelos diz:

      Orcama, agradeço sensibilizada a quadra e, sobretudo, o manjerico virtual: tem a noção de que acaba de me resolver o magno problema (que aqui partilhei) dos manjericos voadores?

Comentar