António, o inestimável


Imagem atribuída a Giotto (Basílica de Santo António, em Pádua)

Num misto ambíguo de genuína admiração e cruzada comercial – já vão perceber porquê –, decidi (é mentira, não fui eu!) postar hoje uma nota sobre o meu homónimo santo, o padroeiro de Lisboa e Pádua (e do bairro das Antas, onde vivo, descobri há dias).
A razão por que o faço deve-se quase exclusivamente ao facto de ter acabado de publicar um pequeno livro sobre o primeiro e mais importante Franciscano português – eis a cruzada comercial. A admiração que me tomou depois de ter conhecido a verdadeira dimensão deste homem excepcional absolve-me, em parte, da gananciosa vontade de muito querer comerciar.
Por fim, o facto de uma imensa maioria de portugueses pouco ou nada saber sobre o indivíduo nascido em Lisboa (talvez em 1190/91) sob o nome de Fernando Martim de Bulhões e Azevedo, e que 40 anos mais tarde seria enterrado em Pádua com o nome de António e aura de santo, ajuda-me mais um pouco a encontrar o perdão genérico de que, pelo menos aos olhos da Igreja, certamente necessito.

E afinal o que fez António de tão especial?

Eu conto.
Quis ser padre aos 15 anos, quando o pai o queria na carreira das armas; cedo se irritou com a venalidade dos seus confrades Agostinhos e por isso se transformou em frater minor* (acto que ficou marcado para sempre com a mudança do nome próprio); na esteira dos primeiros mártires franciscanos, decide correr o mesmo risco em Marrocos – embora o seu martírio se limite à indiferença geral e aos condicionalismos da sua frágil saúde; perde-se no mar, numa tempestade, e aporta na parte oriental da Sicília, em Messina, justamente nas proximidades dum ermitério de Frades Menores; segue com estes numa peregrinação de 600 km para assistir ao capítulo da ordem e aí encontrar Francisco de Assis; na igreja de S. Mercuriale, por força das circunstâncias, faz a sua primeira homilia oficial – e deixa todos os que o ouvem de boca aberta e cara à banda; é nomeado por Francisco como pregador principal da ordem; decide agir como um verdadeiro santo para melhor poder falar do assunto; peregrina e evangeliza por todo o Triveneto; Francisco encarrega-o de, apenas com palavras, combater a heresia dos Cátaros no sul de França; para tanto, António desanca em arcebispos, condes e usurários ao vivo e em directo; é nomeado provincial da Itália do norte, organiza novos conventos em Trieste e na Ístria, por onde peregrina; já muito doente, retira-se em Pádua – onde inicia a organização dos seus fantásticos Sermões; consegue que o podestà de Pádua acabe de vez com a pouco cristã lei de prender alguém por incumprimento de dívidas (estão a ver, meus meninos, porque não se vai preso por dívidas?…); desafia o déspota medieval Ezzelino III da Romana no seu acampamento militar, de onde é escorraçado; agoniza em cima duma nogueira, em Camposampiero; morre a 13 de Junho de 1231, em Arcella (arredores de Pádua); onze meses mais tarde o papa Gregório IX publica a bula da sua canonização.
Queriam mais? Comprem o livro, ora bolas!
(É na G&P!)

Deixo apenas dois parágrafos da minha Nota Final, para que não pensem que andei a brincar com coisas sérias:

Além ou aquém do santo – não sei – existe uma epopeia poética absolutamente ímpar que sobreviveu à carne para se misturar intimamente com a vida das pessoas. De gente dos mais variados níveis, nas mais variadas épocas, nos mais diferentes locais. Por vezes sinto-me como se tivesse avistado de relance, entre a névoa e a espuma da rebentação dum fim de tarde outonal, a sombra chinesa dum imenso e magnífico navio-fantasma, que ainda tento reencontrar – mas já com a certeza um pouco angustiante de que muito dificilmente lhe tornarei a pôr a vista em cima…

* (Frades Menores, ou irmãos dos mais fracos)

Comentários a “António, o inestimável” (26)

  1. Pedro Norton diz:

    António: eu vou comprar. Já lhe tropecei na santa queixada (é literal) mas sei muito pouco sobre ele.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Eu abismei quando o conheci. Acho que também vai gostar.

  3. Orcama diz:

    Onde e quando é o lançamento com a imprescindível sessão de autógrafos?

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Mr. Orcama, temos de nos informar na famosa editora. Há uma sessão aprazada para o Porto. É altura de fazermos ao autor a prometida visita.
    Monsieur Antoine, a edição está uma ternura. Parabéns pelo belo texto e gostei de te ver na televisão, com o teu ar aprumado e aristocrata. (Não ligues, eu sou mesmo assim, gosto de dizer bem. E ainda fico mais satisfeito quando é verdade)

    • Orcama diz:

      Só posso achar bem, aliás muitíssimo bem. Há aqui também um certo Rudolfo, que apesar de conhecer o Autor, reclama a sua assinatura, ainda que ilegal…

  5. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Olá António. Também o hei-de comprar e ler com gosto.

  6. Joana Vasconcelos diz:

    Ei-lo! O post que faltava para tornar verdadeiramente festivo o 13 de Junho, neste extraordinário blog!

    Escrito pelo nosso António, sobre o universal Santo António — padroeiro de Lisboa, pelos vistos das Antas e pasme-se, também de São Martinho do Porto! — e com a promessa de um livro que nos vai deixar pelo menos tão encantados com esta figura ímpar como o ficou o seu próprio autor! How appropriate!

    António, que fantástico texto, fiquei exaurida diante da profusão de feitos do seu António e cheia de vontade de ler o livro … A capa está muito bonita! Parabéns!

  7. António Eça de Queiroz diz:

    Orcama, nem que me mande o livro e eu o devolva!
    Manuel: olha que coro!…
    Gonçalo, espero que goste tanto quanto eu gostei, o homem é único.
    Joana…, nem sei que lhe diga!…
    Obrigado a todos, e que o santo vos inspire.

  8. Eugénia de Vasconcellos diz:

    António, Parabéns!

    Ps: você está uma Remington..

  9. António Eça de Queiroz diz:

    Mas eléctrica, Eugénia.
    Obrigado…

  10. Turmalina diz:

    Mais um para minha listinha…ai.ai.ai.assim vou pagar excesso de bagagem, porque o peso dos livros não é nada comparado ao dos autógrafos :o)

  11. António Eça de Queiroz diz:

    Turmnalina, encomende no site da Guerra & Paz. Eles mandam-lho, acho eu…

  12. Carlos de Sá diz:

    Talvez compre, talvez peça emprestado.
    Já agora, em dois concelhos do Minho (não só em Lisboa…) o Santo dá feriado e o nome às respectivas festas: Vila Nova de Famalicão e Vila Verde, sendo que na primeira as festas se chamam de Antoninas — e têm marchas e tudo.

  13. António Eça de Queiroz diz:

    Não sabia, Carlos. Obrigado pela informação.

  14. pombo de carvalho diz:

    Parabens pelo teu trabalho. Vamos rectificar a qualidade do mesmo após agradàvel leitura.

    Já agora, se há tanto cheque careca e ao preço a que estão os ditos, o António (o Santo, claro) tem dedo no assunto!! Será que a frase “tristezas não pagam dívidas” também è dele??

    grd abr e parab again

  15. António Eça de Queiroz diz:

    Ó meu melro, o santo era careca porque queria, os cheques são carecas porque não têm cabelo!
    Herege! Blasfemo! Apóstata!
    Obrigado, pigeon, vais ler e vais gostar porque eu sei que sim.

  16. Alberto Nogueira diz:

    De tanto escreveres/editares começas a corroer-me o orçamento.

  17. António Eça de Queiroz diz:

    Albertro, consola-te, qualquer orçamento normal é para ser corroído duma forma ou de outra…

  18. Adriana diz:

    O padroeiro de Lisboa é São Vicente…

  19. António Eça de Queiroz diz:

    Adriana, como deve imaginar sei disso perfeitamente.
    O facto é que a via popular impôs o erudito Santo António — falo disso no livro — como o santo de Lisboa. E assim António eclipsou S. Vicente.
    Que festa conhecida se faz pelo S. Vicente? O que se associa a S. Vicente em Lisboa? Os corvos.
    Quantas pessoas sabem disso?…
    Há feriado municipal pelo S. Vicente?
    Não.

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