Passarei agora à segunda prova da existência de Deus apresentada por São Tomás. Faço, no entanto, aqui uma advertência. Ou melhor: duas. A primeira é que aquilo a que, por facilidade, ou conveniência, temos chamado provas da existência de Deus, deve mais correctamente dizer-se “vias” ou “caminhos”. Com efeito, assim lhes chama São Tomás. Porque a prova de que aqui se trata é como a prova dos vinhos: não se faz fora de nós. Pode conhecer-se que Deus existe, portanto, mas apenas por meio de uma meditação feita a caminho. A segunda é que nenhuma dessas experiências, ou caminhos, dá isoladamente conta da existência desse “objecto” com que diferentemente de todos os outros se “contacta”. Pelo contrário, o carácter objectivamente probatório destas experiências surge apenas por meio da sua consideração conjunta. São indícios que se reforçam, mas que não nos dão nunca a evidência da existência de Deus, a qual não pode ser por nós conhecida senão a partir dos seus efeitos, como Tomás explicara logo no primeiro artigo desta segunda questão.
Posto isto, passemos à «segunda via, que se dá na razão da causa eficiente. Descobrimos, com efeito, que existe uma ordem das causas eficientes nestas coisas sensíveis; não acontece, contudo, nem tal é possível, que alguma coisa seja causa eficiente de si própria, pois que deste modo seria anterior a si mesma, o que é impossível. Mas também não é possível que nas causas eficientes se proceda até ao infinito. Porque em todas as causas eficientes ordenadas a primeira é a causa da média e a média é a causa da última, quer a média sejam muitas, quer apenas uma. Removida a causa, porém, remove-se o efeito. Logo, se não existir nas causas eficientes uma que seja primeira, não existirá também a última, nem a média. Mas se se proceder até ao infinito nas causas eficientes não existirá uma primeira causa eficiente e desta maneira não existirão nem o efeito último nem as causas eficientes médias, o que é evidentemente falso. Logo, é necessário supor alguma causa eficiente primeira, à qual todos chamam Deus.»(*)
(*) AQUINO, Tomás de, Summa Theologiae, prima pars, quaestio 2, articulus 3, respondeo
















