An Deus sit? (II)

Continuando o post começado mais atrás, São Tomás diz que a existência de Deus pode demonstrar-se por cinco vias: «A primeira e mais manifesta é a que se supõe a partir do movimento. É certo, com efeito, e evidente aos sentidos, que algumas coisas se movem neste mundo. Ora, tudo aquilo que se move é movido por um outro. Com efeito, nada se move a não ser enquanto está em potência relativamente àquilo para que é movido; mas aquilo que move fá-lo enquanto está em acto. Mover, com efeito, outra coisa não é do que trazer alguma coisa da potência para o acto. Mas uma coisa não pode reconduzir-se da potência ao acto a não ser por meio de algum ente em acto, tal como o quente em acto – como o fogo – faz a madeira – que é o quente em potência – ser quente em acto, e deste modo a move e a altera. Ora, não é possível que uma mesma coisa esteja simultaneamente em acto e em potência segundo o mesmo ponto de vista, mas só sob pontos de vista diversos. Com efeito, o que é quente em acto não pode ao mesmo tempo ser quente em potência, antes é ao mesmo tempo frio em potência. É impossível, portanto, que, segundo o mesmo ponto de vista e do mesmo modo, alguma coisa mova e seja movida, ou que se mova a si própria. Porque tudo aquilo que se move é necessário que seja movido por um outro. Se, portanto, aquilo pelo qual [algo] se move [também] é movido, é necessário que ele próprio seja movido por um outro; e este [novamente] por outro… Isto, porém, não pode proceder até ao infinito, porque desta maneira não existiria algo que primeiro movesse e, consequentemente, [também não existiria] algo que movesse em segundo lugar. Porque os que movem em segundo lugar não movem senão pelo facto de serem movidos pelo primeiro movente, tal como o báculo não move senão pelo facto de que é movido pela mão. Logo, é necessário chegar até um primeiro movente que não é movido por nenhum outro, e isto é o que todos inteligem ser Deus.»(*)

Se conseguirmos abstrair de 500 anos de cultura contra-escolástica (coisa que talvez não seja muito fácil de fazer), valerá a pena pensar essa coisa misteriosa a que chamamos movimento, reparando – como já o tinham feito os antigos gregos – como algo tão evidente aos sentidos não é de todo evidente à inteligência. Só perante esse carácter espantosamente enigmático do movimento é que ganham sentido as explicações aristotélico-tomistas assentes nos pressupostos de um Deus omnipotente que criou ordenadamente o universo. Tal como o movimento, porém, Deus não se torna, por via desta demonstração, evidente à inteligência. Contudo, para quem se põe radicalmente esta questão e nela descobre a necessidade de um primeiro princípio, a hipótese da existência de Deus é aquela que, nas diferentes experiências da vida, lança uma maior luz na realidade.

(*) AQUINO, Tomás de, Summa Theologiae, prima pars, quaestio 2, art. 3, respondeo

Comentar