A criança mais criança
bedtime story

Claro que não há coincidências. Só comemoramos hoje o Dia da Criança por ser hoje também o dia em que nasceu Marilyn Monroe, a criança mais criança que o mundo já conheceu.

Foi uma Capuchinho Vermelho um bocadinho diferente, a fingir que nunca via o Lobo Mau, como ela confessa com ligeira mágoa: “No one ever told me I was pretty when I was a little girl. All little girls should be told they are pretty, even if they aren’t.

deus queira que não caia

Estava aqui a reunir notas e pensar muito nela – mesmo muito – e descubro o que todos já tinham descoberto, que o segredo dela era a forma como caminhava. Não, não era como toda a gente, ela não punha bem uma perna à frente da outra. “I learned, disse ela, to walk as a baby and I haven’t had a lesson since.” É esse andar precário, periclitante, que vemos em Monkey Business, Gentlemen Prefer Blondes, Seven Year Itch, Some Like it Hot. E que medo que temos que ela – ai, ai, vai cair, vai cair – se magoe ou lhe aconteçam coisas más. Nos filmes, e principalmente nas comédias, é mesmo isso que em geral queremos, que os actores caiam. E rimo-nos. Nos filmes de Marilyn só nos rimos, felizes, quando e porque ela não cai.

Billy Wilder, para mim o cineasta que mais bem a entendeu, tira-nos da boca as palavras de protecção, mimo e consolo que nos apeteceria dizer à esta unpretty little girl. “She’s scared and unsure of herself. I found myself wishing that I were a psychoanalyst and she were my patient. It might be that I couldn’t have helped her, but she would have looked lovely on a couch.” Só o candor deste austríaco é que era capaz de expressar com tamanha gentileza, sem ponta de fácil ordinarice, este sentimento vagamente ambíguo de querer fazer tanto bem a outra pessoa. Por ela ser criança, claro, e ter nascido no dia delas o serem.

Clark Gable, que era bruto como as casas, também não escapou a essa onda de comovido bambinismo e fez questão de vir aqui pôr uma pedra no assunto: “Everything she does is different, strange, and exciting, from the way she talks to the way she uses that magnificent torso. She makes a man proud to be a man.”  Ó, o que me apeteceu pôr a bold aquele magnificent torso! E o orgulho que agora sinto por ter resistido.

ó que orgulho

 

Comentários a “A criança mais criança” (15)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    «Sentimento vagamente ambíguo», Manuel?
    Só a tua impoluta candura para descobrir ambiguidade na frase do manganão Wilder…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Não é nada disso António, Mas que raio de leitores literais me andam a sair aos pés do Wilder. A ironia (e a candura) é essa, a da total, e fingidamente escondida, contradição. Mas se explicarmos demasiado não há ironia nenhuma e fica uma declaração carroceira. É mesmo esse o problema de muita gente que quer ter graça e que… you know what i mean.

  2. Luciana diz:

    Nunca, nunca me canso de simplesmente olhar Marilyn. Ela foi sexy, hot, gostosa e todos os demais adjetivos tão materialmente transigentes que usamos, mas é mais e além. Não sei se pura ou inocente — conforme esclarecimentos do Zé (sim, estou autorizada a chamá-lo assim!!!!) a respeito da infância — mas, com certeza, mágica.
    Ah, Eugénia, se um namorado/marido/híbrido perder-se a admirar esta, não, eu não lhe arrancaria os olhos com a tal colherinha…

  3. José Navarro de Andrade diz:

    A forma como caminhava é mesmo notável. Aliás foi a única pessoa, em toda a história do cinema, a entrar no estrelato saindo do plano (ver Niagara sff).
    Pela maneira como comentas a frase do Billy Wilder tenho a dizer-te, Manuel, uma coisa muito triste: ao contrário do que supôes o Pai Natal não existe. Olha mesmo quem, a falar do quê (a “piscicanálise”) e de quem…
    Querida Luciana: é mesmo assim — Zé.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      José Navarro de Andrade, José, vou ter de dizer isto à frente de toda a gente. Que grande mentiroso que tu és. Mentiste-me. A 23 de Dezembro disseste-me a mim, à frente de toda a gente, o que aqui disseste. Disseste, disseste! Que o Pai Natal existia. Juraste. E agora vens dizer que não existe?!!!! Que grande mentiroso que tu me saíste.

      • José Navarro de Andrade diz:

        A ver se nos entendemos, que andas muito sofístico. O Pai Natal existe — em Dezembro. O Pai Natal não existe, nunca existiu e, pelo andar da carruagem, nunca existirá, nas palavras de Billy Wilder. Se não percebeste volta lá a ver o The Major and the Minor que és capaz de lá chegar. Esse sim, é que era um filme para crianças. Ora esta!

        • Manuel S. Fonseca diz:

          Ou seja, confessas, insultas-me de passagem, e desculpas-te com um subtexto pedófilo da ginger rogers school of dance. Ainda acabas por me dizer que viste o filme ao lado do Pai Natal, queres ver?

  4. Luciana diz:

    Manuel, Manuel, já que estamos tratando de crianças, sendo eu daquelas nada quietinha, venho fazer alarde e pergunto…não há mais concurso de short conforme aqui preconizado: http://www.etudogentemorta.com/2010/04/brevemente-concurso-de-short-stories-no-cemiterio/?
    Foi fogo de palha? (mas, se foi, que lindo fogaréu…)

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Bem lembrado, Luciana. Não sei se a nossa Teresa está por cá.
      – Teresa! Ó Teresa! Venha cá depressa..

  5. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Manuel Fonseca, gostei muito.

  6. Turmalina diz:

    Eu nunca tinha visto MM sob este prisma, mas sabe que esta cena é bem coisa de criança fazendo arte: http://www.youtube.com/watch?v=vTBUbMFsBZU

  7. António Eça de Queiroz diz:

    Manuel, quando se é literal também se pode ser ambiguamente irónico, ou não?
    É só subtexto e mais subtexto…, que coisa!
    Confissão deplorável: não sou fã de loiras, casei um bocado com uma…

  8. António Eça de Queiroz diz:

    Pois é…

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