Somos, juntos, de brandura. Por isso, penso que seja por isso, nos é tão conforme o barro e o bíblico pó de um dia para quando, em nós, nenhuma água cante e sobrevenha, vermelha, da terra, só a argila, e das horas, só a memória na boca de outros onde o nosso sangue corra ou o nosso sonho vibre. Somos, juntos, de brandura. Por isso, penso que seja por isso, tão maleáveis o corpo, o coração, o pensamento, completa substância do amor, o pensamento, o coração, o corpo, macia e humedecida substância, completa no corpo de amor, barro apenas, argila e água onde se inscrevem a acção e o desejo, e onde o sopro que baixinho alimenta o fogo nascido do espírito, sussurra nas chamas: tudo o que te dou me acrescenta.


















Partilho dessa sensação sobre a dádiva, só não a sei cantar tão bem…
Obrigada, António.
Levei muito a sério este seu texto (e já nem acrescento belíssimo, de tantas vezes que do que aqui escreve lhe disse) e invadiu-me um pessimismo descabelado. Não vejo nos dias que por nós passam (ou se calhar só por mim) a brandura. Nem argila e muito menos memória. Ao contrário da imagem de delicada criação do seu final, o que vejo é do espírito nascer um fogo encarniçado de que nenhum sopro se consegue aproximar. Viveria no mundo do seu texto, sobrevivemos todos na combustão deste dias.
ps — avisei que ia ser pessimista.
Manuel Fonseca, eu levei muito a sério este seu comentário. Faz-me muito feliz que goste do que escrevo. Mas.
O texto é sobre a brandura de juntos ou, se preferir, de como se fazem brandos um para o outro, homem e mulher unidos pelo amor, tornando-se mais permeáveis um ao pensamento, ao coração, ao corpo do outro. Criando, na impermanência porque é essa a sua condição, isso é certo, um corpo de amor que o amor convoque.
As tribulações individuais são também condição nossa, porém cumprem outra função — que não incluindo a supra referida, não a exclui ou sequer deve contaminá-la.
«(…) um corpo de amor que o amor convoque»!
Não é Candide que fala, é o que é possível dentro da realidade.
Cada vez mais de acordo.
Nem Candide, nem Pangloss: por muito que eu entenda a maturidade como o caminho de volta, o lugar de retorno não é o Éden de onde se partiu antes do mundo. Mas o amor que dois escolhem ser um para o outro, pode ser a Jerusalém Celeste de Cluny, o exílio, não fora dos dias, mas dentro.
Joana Vasconcelos GOSTOU muito do texto de Eugénia de Vasconcellos.
Joana Vasconcelos ESTÁ A GOSTAR muito dos comentários de AEQ, MSF e EV.
Joana Vasconcelos ESPERA que continuem.
Eugénia de Vasconcellos GOSTA MUITO que Joana Vasconcelos GOSTE.
Tive o incerto pressentimento de que a Eugénia me poderia responder assim, chamando para sombras íntimas o que eu levei para a desencantada luz do dia. Tem razão, mesmo que seja só a fugaz razão a que dá corpo o brando encontro de um corpo noutro corpo. Mas é tão frágil essa razão. Mal mostra a face tomba sobre ela uma intimidação triunfante — às vezes científica. Como no soneto de Jorge de Sena: “Perdem-se as letras…”.
Acho que tocou num ponto essencial e que fica para além da luz do dia ou das sombras íntimas: o amor completo não é amor perfeito, esse só nas homónimas flores, neste, mesmo a noite do soneto de Jorge de Sena, cabe, apenas não o define — só a roupa é que se despe, o que se é, não, e também somos dor até às cinzas.
«Allez donc dire à votre mort/ Que nous irons jusqu’au fond d’elle» (Sept préludes au Jeu du Seul — La Quête de joie, Patrice)
Terei, cedo ou tarde, de ler o seu La Tour du Pin.
Eugénia, apanhei-o todo na FNAC francesa. Três livros, um deles chama-se ‘Pépinière de sapins de Noel’, e tem uns desenhos muito bonitos. O outro ‘Une somme de poesie — I’ (presume-se que existam mais), além deste ‘La Quête de joie’.