ABDÓLMEN: toda a gente sabe que os rapazes são umas criaturas sanguinárias, teletransportadas do neolítico pelo feixe civilizacional feminino. Não fora este e andariam alegremente uns com os outros a caçar bichezas, a domar bichezas, a levantar casas nas margens dos lagos e rios para poderem mergulhar o duche matinal, não terem maçadas com a louça ou de carregar água engarrafada. Fariam punhais e outras barbaridades lascáveis. No intervalo, para se recuperarem da canseira, leriam Proust. Ora, uma vez do lado de cá da teletransportação, o tanto que ganham com o superior convívio não os faz esquecer a brutidade primeva, em inglês antropológico, primal roughness. Isto verifica-se no entusiasmo que têm por caçadas, futebol que é caçada na mesma, pelos desportos violentos ou desabridos, filmes de pancadaria em geral e de cowboys em particular. São indiferentes a sentimentos de repulsa por ratos, baratas, insectos nojentos e ofídios. Por último, têm grande apetência visual pela crueza anatómica, seja de brunas reais ou irreais, de miolos de macaco, ou estupendaças* imagens de pítons rasgadas pelo jacaré comido ao almoço. Tudo porque os rapazes, ao contrário das meninas, têm, não um abdómen, mas um ABDÓLMEN. Um ABDÓLMEN é um estômago capaz de digerir pedras de grande porte. Este conhecimento é de tal forma do senso comum que costuma ouvir-se entre eles o elogio: é pá!, grande estômago… ie, ABDÓLMEN.
Adendazinha: gente amiga — umas bruxas controladoras! — informa-me que este neologismo não está formalmente tratado como os anteriores. Já fui verificar. É tudo verdade. Ó. Ainda pensei penitenciar-me adentrando a procissão do Pardon Breton. Mas era uma estafa com este calor. Segue uma, vá, errata.
ERRATA
Linha primeira, após ABDÓLMEN deverá ler-se, no espaço em branco, neologismo quarto.
Linha última, por escrever, deverá ler-se: assim, ABDÓLMEN, integrado no léxico; substantivo, masculino, singular. Plural abdólmens.
*onde poderá verificar declaração conforme, de Vasco Grilo, no dia 1 de Junho de 2010, às 23:05

















Olhe que belo texto! E porquê? Porque os rapazes são uma matéria dúctil, se deixam levar, aceitam com boa cara a eugeniana adjectivação, submetem-se ao seu (da Eugénia) substantivo império. São um bicho, disse? São só bicho de contas.
Gostei que me fartei. Até me deu fome. Vou já almoçar.
Matéria dúctil?! De boa cara e submissos?! Pois sim… E não vos chamei bichos. Se chamasse, chamar-vos-ia, olhe, feras. Veja lá, querido Manuel Fonseca, não faça uma digestão, como direi?, estupendaça..
Com que então digerimos «pedras de grande porte», hein?…
Ok, eu não me importo nadinha. ALIÁS, GOSTO!
ISTO DVE SER UM VÍRUS SEU, EUGÉNIA: DE REPENTE SÓ ESCREVE EM MAIÚSCULAS!
BEM FEITA!
Também simpatizo com o seu pensamento :o)
Afinal não vejo nada de errado com as pedras de grande porte, como por exemplo as de stonehenge ou então os menires que Obelix tão cuidadosamente carregava, embora comesse mesmo os javalis.
E É MELHOR LER PROUST QUE BARBARA CARTLAND!
& TOCLAS!
Eu disse que as meninas não liam Proust? Eu disse que os rapazes faziam malinho em ler Proust? Quem falou em Barbara Cartland, quem foi?.. Ah bom. E toclas!
- Barbara Cartland???? Quem é mesmo???
– Ah, o Bárbaro Benedito conhece-a…então tudo bem…
Turmalina, Benedito, o Bárbaro, sabe que a Cartland um dia existiu e até escreveu — livros, para cúmulo, dedicados ao universal gineceu. Era o ‘core business’ da madame…
Não a li, mas sei que vendeu milhões. Esse conhecimento é fruto da aturada análise e monitorização sócio-cultural (contínuas!) do sincrético mundo desses seres misteriosos e imprevisíveis, tão parecidos connosco — sauf la toute petite difèrence — e mesmo assim tão diferentes (e ainda bem), a que me dedico com afinco.
Nós, os bárbaros, beneditos em particular, devemos saber um pouco de tudo.
Está-nos no sangue, nas vísceras!
Muito bem, Benedito!!! Os homens são mesmo extraordinários estrategistas.Gostei muito da parte aonde declara a sua dedicação com afinco.Salvem os Bárbaros assim…mas somente os assim…
uh uh ah ah
Então isso é linguagem de um leitor de Proust, José Navarro? Já me fez rir a olhar para o ecrã.