03 Neologismos do É tudo gente morta

ABDÓLMEN: toda a gente sabe que os rapazes são umas criaturas sanguinárias, teletransportadas do neolítico pelo feixe civilizacional feminino. Não fora este e andariam alegremente uns com os outros a caçar bichezas, a domar bichezas, a levantar casas nas margens dos lagos e rios para poderem mergulhar o duche matinal, não terem maçadas com a louça ou de carregar água engarrafada. Fariam punhais e outras barbaridades lascáveis. No intervalo, para se recuperarem da canseira, leriam Proust. Ora, uma vez do lado de cá da teletransportação, o tanto que ganham com o superior convívio não os faz esquecer a brutidade primeva, em inglês antropológico, primal roughness. Isto verifica-se no entusiasmo que têm por caçadas, futebol que é caçada na mesma, pelos desportos violentos ou desabridos, filmes de pancadaria em geral e de cowboys em particular. São indiferentes a sentimentos de repulsa por ratos, baratas, insectos nojentos e ofídios. Por último, têm grande apetência visual pela crueza anatómica, seja de brunas reais ou irreais, de miolos de macaco, ou estupendaças* imagens de pítons rasgadas pelo jacaré comido ao almoço. Tudo porque os rapazes, ao contrário das meninas, têm, não um abdómen, mas um ABDÓLMEN. Um ABDÓLMEN é um estômago capaz de digerir pedras de grande porte. Este conhecimento é de tal forma do senso comum que costuma ouvir-se entre eles o elogio: é pá!, grande estômago… ie, ABDÓLMEN.

Adendazinha: gente amiga — umas bruxas controladoras! — informa-me que este neologismo não está formalmente tratado como os anteriores.  Já fui verificar. É tudo verdade. Ó. Ainda pensei penitenciar-me adentrando a procissão do Pardon Breton. Mas era uma estafa com este calor. Segue  uma, vá, errata.

ERRATA
Linha primeira, após ABDÓLMEN deverá ler-se, no espaço em branco, neologismo quarto.
Linha última, por escrever, deverá ler-se: assim, ABDÓLMEN, integrado no léxico; substantivo, masculino, singular. Plural abdólmens.

*onde poderá verificar declaração conforme, de Vasco Grilo, no dia 1 de Junho de 2010, às 23:05

Comentários a “03 Neologismos do É tudo gente morta” (12)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Olhe que belo texto! E porquê? Porque os rapazes são uma matéria dúctil, se deixam levar, aceitam com boa cara a eugeniana adjectivação, submetem-se ao seu (da Eugénia) substantivo império. São um bicho, disse? São só bicho de contas.
    Gostei que me fartei. Até me deu fome. Vou já almoçar.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Matéria dúctil?! De boa cara e submissos?! Pois sim… E não vos chamei bichos. Se chamasse, chamar-vos-ia, olhe, feras. Veja lá, querido Manuel Fonseca, não faça uma digestão, como direi?, estupendaça..

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Com que então digerimos «pedras de grande porte», hein?…
    Ok, eu não me importo nadinha. ALIÁS, GOSTO!
    ISTO DVE SER UM VÍRUS SEU, EUGÉNIA: DE REPENTE SÓ ESCREVE EM MAIÚSCULAS!

  3. António Eça de Queiroz diz:

    E É MELHOR LER PROUST QUE BARBARA CARTLAND!
    & TOCLAS!

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Eu disse que as meninas não liam Proust? Eu disse que os rapazes faziam malinho em ler Proust? Quem falou em Barbara Cartland, quem foi?.. Ah bom. E toclas!

  4. Turmalina diz:

    - Barbara Cartland???? Quem é mesmo???
    – Ah, o Bárbaro Benedito conhece-a…então tudo bem…

  5. António Eça de Queiroz diz:

    Turmalina, Benedito, o Bárbaro, sabe que a Cartland um dia existiu e até escreveu — livros, para cúmulo, dedicados ao universal gineceu. Era o ‘core business’ da madame…
    Não a li, mas sei que vendeu milhões. Esse conhecimento é fruto da aturada análise e monitorização sócio-cultural (contínuas!) do sincrético mundo desses seres misteriosos e imprevisíveis, tão parecidos connosco — sauf la toute petite difèrence — e mesmo assim tão diferentes (e ainda bem), a que me dedico com afinco.
    Nós, os bárbaros, beneditos em particular, devemos saber um pouco de tudo.
    Está-nos no sangue, nas vísceras!

    • Turmalina diz:

      Muito bem, Benedito!!! Os homens são mesmo extraordinários estrategistas.Gostei muito da parte aonde declara a sua dedicação com afinco.Salvem os Bárbaros assim…mas somente os assim…

  6. José Navarro de Andrade diz:

    uh uh ah ah

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