O blues mais divertido e mais tropical dos anos 80.
O blues mais divertido e mais tropical dos anos 80.

Vão desculpar-me mas hoje deu-me para a bola. Para escrever sobre bola. Mais estimulante ainda, deu-me para perorar sobre as estatísticas da bola que, como bem se sabe, são a marca verdadeiramente distintiva de um intelectual dos relvados. Pois bem, das 32 selecções que iniciaram o grande jogo do Mundo, 13 eram europeias, 6 eram africanas, 3 eram asiáticas, 2 representavam a Oceânia e 8 o continente americano.
Fast Forward: oitavos de final. A Oceânia desapareceu do globo sem que ninguém tivesse reparado que alguma vez lá tinha estado. A África, continente eternamente esquecido, quase deixou de existir. Mas é na Europa que o panorama é mais deprimente. Porque se revelaram largamente infundadas as expectativas dos profissionais das casas de apostas e porque se revelou cruelmente ilusória a riqueza de um futebol que descobriu, do dia para a noite, que importa muito mais estrangeiros do que deveria. Mas tristezas não pagam dívidas e o que é certo é que mais de metade das selecções ficou pelo caminho. A Grécia, por exemplo, naufragou miseravelmente depois de ter passado os últimos anos a enganar meio Mundo com o seu anti-jogo patrocinado por um seleccionador alemão. A França recusou-se a perceber que nada lhe restava da grandeza de outros tempos e, à primeira dificuldade, dedicou-se a fazer aquilo em que verdadeiramente é especialista: greve ao trabalho. O resultado foi o que se viu. Um estrepitoso fracasso do seu modelo de jogo com direito a honras de Estado e cimeira no Eliseu. Já a Alemanha, depois das hesitações do costume, lá fez o que lhe competia para evitar um risco sistémico e acabou na liderança do grupo. A Inglaterra, que não vai em euros, passou a ronda de braço dado com os aliados de sempre, os Estados Unidos. Portugal foi igual a si mesmo e oscilou entre a depressão e a euforia no espaço de poucos dias. E a Espanha, para ser sincero, estraga-me a estatística porque, a fazer fé nos economistas, era suposto ter implodido depois da euforia do Euro..
E se dúvidas existissem quanto ao futuro do Mundo, ter-se-iam dissipado de vez. Até mais ver (escrevo-vos na segunda feira), nesta guerra implacável da globalização os grandes campeões são mesmo a Ásia (2 das 3 selecções apuradas para os oitavos) e a América (7 das 8 selecções continuaram em prova). A Oriente só destoou mesmo a Coreia do Norte. Três derrotas em três jogos e doze golos sofridos são, convenhamos, um grande embaraço ideológico para a nossa Odete e não podem deixar de merecer uma leitura politica. A Ocidente, nada de verdadeiramente novo. Dos Estados Unidos continuam a chegar sinais de retoma, a América latina cresce a olhos vistos, o Brasil que desconfiava de Dunga mais ainda do que desconfiou de Lula, voltou a ser a promessa do momento e da crise Argentina já ninguém fala.
Dir-me-ão que é só bola. E eu respondo que sim. Que é só bola. Mas a verdade é que a bola se presta a implacáveis metáforas. Serão só coincidências?
Publicado na Visão. 1.7.2010
É o meu último olhar. O último que lhe dirijo antes de acabar com isto de uma vez por todas. A resposta é a mesma de sempre: ele, imperturbável, agarrado aos seus papéis, fingindo que não estou aqui. Sem fazer ideia de que só existo para ele. Já chega. Cinco anos desde o primeiro dia em que aqui cheguei para que nada lhe faltasse. E pelo menos quatro desde o dia em que comecei a vestir-me para ele, a pentear-me para ele, a perfumar-me para ele. Até o corpo mudei para que, quando finalmente ele me tivesse nos braços, nunca mais de mim se quisesse separar. Um ano de salários custaram os implantes. Para nada. Nem um sorriso quando me vê aqui, quase de madrugada, servil, à espera das ordens dele. E eu, na ausência dele, com este irreprimível desejo de tocar em todos os objectos por onde passaram as mãos dele que eu nunca apertei, de sentir o seu aroma na gravata preta que ele aqui deixa para as ocasiões fúnebres. E quando ele me chama ao gabinete como agora, só eu e ele no gabinete, como me apetece apontar-lhe o fecho do meu vestido para que ele o abra e o deixe a meus pés, e eu pronta para lhe entregar o meu corpo que, se não for dele, de nenhum outro homem será. Se não for dele, de nenhum outro homem será. Se não for dele, nem eu própria serei mais. Chega. Já que não sou dele, não quero ser mais. É o meu último olhar. O meu olhar de despedida. Amanhã já não serei mais. Amanhã, quando ele me encontrar esvaída em sangue na casa de banho dos fundos, com a fotografia dele numa mão e a pistola na outra, já não serei mais.
……………………….
É a última vez que resisto. É hora de acabar com este sofrimento de uma vez por todas. Eu, para aqui imperturbável aos olhos dela quando Deus sabe quanto perturbado ela me faz ficar, agarrado aos meus papéis, a fingir que não dou por ela. Como seria maravilhoso que ela só existisse para mim. Desde o primeiro dia que ela aqui chegou como desejei eu um dia ser tudo para ela. Desde aí como gosto eu de imaginar que ela se veste para mim, que se penteia para mim, que se perfuma para mim. E como sonho, em todos os minutos em que estou acordado ou a dormir, com as formas perfeitas que o vestido dela esconde. Ah, como invejo o homem que a tem nos braços todas as noites. Como invejo o homem que faz arfar de desejo aquele peito magnífico. Sim, ela não consegue esconder que é uma mulher que vive em estado de graça por um homem. Daria tudo para não ser quem sou só para poder ser ele. E por ser quem sou nem me atrevo a olhar para ela. Não me atrevo sequer a sorrir-lhe quando ela me cumprimenta de manhã. Trair-me-ia. Expor-me-ia ao ridículo deste amor que não mereço. E como sofro por não a merecer. Como sofro por ser eu e não quem a merece. Mas é a última vez. Amanhã já não sofrerei mais. Amanhã já não serei mais eu. Amanhã, quando ela me encontrar esvaído em sangue na casa de banho do meu gabinete, com a fotografia dela na mão e a pistola na outra, já não serei mais eu.

pisando o pé de Ferguson
No fatídico dia 14 de Maio de 1994, Carlos Queiroz decide no intervalo de um jogo decisivo contra o Benfica, retirar o defesa esquerdo Paulo Torres e dar entrada ao volátil extremo esquerdo Pacheco. Chovia. Foi como se um dique tivesse rebentado e uma avenida vermelha se abrisse naquele flanco. Não me recordo muito bem do resultado, olvidei-o, recalquei, mas tenho uma vaga reminiscência de que foi muito desagradável. Quem é filho de boa gente, ainda hoje sente.
No funesto dia 29 de Junho de 2010, o mesmo Carlos Queiroz, vendo congestionado uma partida crucial, decide aos 58 minutos substituir o ponta de lança Hugo Almeida pelo imponderável médio ofensivo Danny. O monolítico Almeida estava a fazer o jogo da vida dele, pondo em campo todo o seu vigor teutónico. Não sei se os catalães Puyol e Piqué suspiraram de alívio, mas todos vimos como aproveitaram a gentil oferta de Queiroz para se juntarem aos seus patrícios do meio campo e com eles irem trocando a bola em passe curto e trote de passeio. Restou à equipa portuguesa a “satisfação do dever cumprido”.
Entre estes dois momentos Carlos Queiroz aprendeu nada, evoluiu zero.
Talvez ainda um dia saibamos porque é que o “Q-Report” de 1998 se transformou em “Project 2010” e foi entregue a Bruce Arenas; porque motivo tendo apurado a seleção da África do Sul para o Mundial de 2002 foi dispensado às portas do evento; e quais eram verdadeiramente as suas atribuições no Man United além de colocar os pinos no campo e “planificar” os treinos. (by the way: não é curioso que tenham sido precisamente os seus pupilos no clube inglês, Ronaldo e Nani, a insinuar desaguisados?). Escancarados à vista de todos estiveram os resultados da sua passagem pelo Real de Madrid, quando foi desmontar a excelente base deixada por… Vicente del Bosque.
Uma pilha de fiascos.
E, já agora, querem saber o porquê dos campeões de Riad e de Lisboa, em 1989 e 1991? Perguntem a Aurélio Pereira.

Uma danação danada maligna vos desse um estalo que fossem parar bocados de bofe e de fígado a Vila Nova de S. Pedro!
“Os portugueses devem orgulhar-se da sua equipa, que foi ambiciosa e brilhante durante este campeonato do mundo”.
Porque é que o Senhor Professor persiste em ofender a nossa inteligência?
P.S. : No final do jogo, Ronaldo deu aos jornalistas a resposta que eu gostaria de ter dado. Mas o seu ego colossal — Cronos e Mercúrio teriam inveja — nunca lhe permitirá ser capitão de equipa de um país. Ronaldo é o zénite da Geração do Eu. A força colectiva é, para ele, uma dimensão ética, e épica, incompreensível. Nisso, não o podemos culpar. A maturidade, que ele talvez nunca tenha, diz-nos ser um exercício inútil pedir a um homem que anule a sua natureza essencial. E a natureza essencial de Xavi, Iniesta e Fabregas é: ó génio só se manifesta ao serviço do Outro.
Posto isto, o futuro futebolístico de Portugal é negro.
Segue recolha de assinaturas para esfumar de vez o mito Queiroz: 1 — Pedro Marta da Cruz dos Santos (nome completo).

Não vale a pena dourar a pílula. Saímos humildes e, a partir da substituição de Hugo Almeida, medíocres sem ambição. Alguns belos jogadores, rigor táctico a defender? Sim. Mas é como se não quisessemos nunca ganhar; basta-nos (Beckett teria adorado) ficar à espera de que a vitória venha ter connosco. Não sou especialista, e (a menos que algum filósofo muçulmano me explique) não consigo perceber que raio de sistema de jogo é que a nossa selecção adoptou que consegue implodir, apagar, desvitalizar e desvertebrar um jogador como Ronaldo.
Hoje, e para além desse caso sério chamado Fábio Coentrão, um gentleman de Caxinas que se fez aristocrata na Catedral (Luciana e Turmalina, ladies: é como se chama, a Catedral, ao estádio mais bonito do melhor clube do mundo, o Benfica, o SLB), fiquei rendido às prodigiosas defesas de Eduardo e à forma rija, vibrante e musculada como Hugo Almeida jogou.
Agora, força Ramires, força Luisão, força Di Maria, força Cardozo. São os únicos Lordes, vermelhinhos, SLB, que estão na África do Sul. Alegrem o meu coração.

Talvez um pouco básico mas, em tempos de exaltados unanimismos, um pouco de “political incorrectness” não faz mal a ninguém.
O Diogo já aqui falou dele. Por aqui discutem-se os gostos gastronómicos do outro.
Por aqui, em alternativa, podem deliciar-se com uma melancólica mas muito inspirada composição, em que o primeiro canta o segundo.
Saul Bellow — Sufjan Stevens
What’s the worth of
All the work of my hands?
And the worst of
On Lake Michigan
Get in solid walls
With the know-it-alls
Get in trouble with Saul Bellow
And my good friends
With their eyes on what it takes
I could kiss them
But the bravest make mistakes
Get in solid walls
With the know-it-alls
Get in trouble with Saul Bellow
Get in solid walls
And with what it calls
Get in trouble with Saul Bellow

Zoe Strauss, 2008
Coragem rapazes…

Às vezes também é preciso fazer bem a quem nos faz bem. Agradeço, por isso, ao “Actual” do semanário “Expresso”, dois fabulosos e inteligentes trabalhos publicados no passado sábado.
O primeiro é um artigo de opinião de Eduardo Lourenço sobre José Saramago. Mais precisamente sobre o ateísmo de José Saramago, a quem, como Unamuno terá dito de Espinoza, Lourenço chama um “ébrio de Deus”. Cito só este pequenino e saboroso excerto: “Saramago… exigiu com todas as forças do seu coração e da sua vontade um Deus que assumisse todos os males que a narrativa bíblica imputa à desobediência humana e que um Deus bom devia ter impedido.” O resto, gentil, culto, bela conversa de Lourenço, é um elogio muito bem medido da pulsão ateia do escritor. Para ler deliciadamente aqui.
Mais adiante, outro artigo cheio de amor pelo discurso, pelas ideias que toca – a crítica e a acrimónia estão ao alcance de qualquer miserável fraco e ressentido. Não é um artigo, é mais uma “entrevista – reportagem”, assinada por Luísa Meirelles e Faranaz Keshavj sobre e com o filósofo muçulmano Aziz Esmail. Confesso que fiquei fascinado e, pelas alminhas, peço que leiam.
Esmail com uma argumentação simples e desarmante faz, por amor a Shakespeare e a Dante, por amor à ciência e à democracia, o elogio da “musicalidade religiosa” que falta ao ouvido laico ocidental. Crítico do multiculturalismo, Esmail reconhece que o modernismo do Ocidente só se compreende pela sua história cristã (“O Ocidente deve prestar mais atenção à religião. Não quero dizer que devam regressar às culturas mais antigas, mas existe uma negação do poder histórico da fé na evolução das sociedades europeias…) como é pela história muçulmana que se compreende a razão do fracasso da modernidade nas sociedades que o Profeta inspirou.
Se calhar era preciso um filósofo muçulmano – o olhar do outro — para nos fazer ver o mais óbvio: “…pode realmente apreciar-se Shakespeare sem se conhecer o cristianismo ou a cultura cristã? Há Humanismo em Shakespeare, mas também uma dimensão do simbolismo cristão. E será que os italianos conseguem apreciar o poder de Dante? Não se pode entendê-lo, sem se entender o cristianismo dessa época.”
Do que eu muito gostei neste “olhar do outro”, foi do amor genuíno que ele mostra, sem prescindir da sua identidade. “Acho importante que os europeus, para que possam apreciar o seu passado e a sua História, sejam sensíveis e tenham um “ouvido musical” para ouvirem o som e sentirem a lógica da fé. De outra forma, o mundo ocidental será separado da sua própria História — e não só da tradição judaico-cristã, mas também do humanismo grego, porque tudo isso faz parte do passado. A minha convicção é que as sociedades que têm uma riqueza como esta — e eu sou um grande admirador da civilização ocidental — ficarão empobrecidas se perderem esse contacto com o passado.”
Exactamente aquilo que falta na ideologia irreligiosa politicamente correcta que inunda a praça pública.
A garrafa de Klein é um determinado objecto de superfície não-orientável, uma superfície (espaço topológico em duas dimensões) sem distinção entre os lados «de dentro» e «de fora» – diz a Wiki-Wiki num ataquinho de weakness.
Feita a partir do conceito geométrico da Fita de Moeubius, tem a suprema vantagem de, tanto quanto se sabe, não servir para coisíssima nenhuma (a não ser para especulações, o que lhe garante um extra de valor). A minha filha Joana deu-ma de presente de anos (ou terá sido de Natal?…) com a garantia de ser o único objecto da 4ª dimensão alguma vez produzido por humanos (!).
O prussiano Félix Klein, seu inventor, foi um matemático teórico do século XIX e casou com uma neta de Hegel – o que explica parcialmente a ambígua serventia desta coisa.
Gosto duma certa elegância malévola de loop informático.
Este personagem é-me em grande parte desconhecido. Sei que o meu avô o trouxe de África há cerca de um século, presumo que tenha origem na antiga Niassalândia, e o seu coco, sendo uma réplica dos usados à época pelos colonos ocidentais (ingleses em particular), representa um sinal de grande poder.
Tem pouco mais de 20 cm de altura mas pesa bem mais de três quilos. É feita em pau-ferro – facto que o meu irmão Carlos comprovou de forma bastante estrepitosa ao tentar cortar-lhe a base com uma serra eléctrica: a serra partiu, a fita voou disparada pelos ares e partiu vários vidros duma estranha porta de garagem que escondia a «operação» de alheios olhos (os da minha mãe, por exemplo). Ele tinha 16 anos e eu 11.
Ninguém sofreu danos físicos.
Isto é uma urna funerária para ofertas, feita em frágil pau-rosa, e é sem dúvida a peça de arte africana mais bonita da minha pequena colecção. Se bem me lembro, veio do Quénia – também há cerca de um século, pelas mãos do meu avô.
Completamente a despropósito, acabo este desinspirado post com a primeira vitória do FCP na presente época.
Só para aborrecer – porque chatear é chato.
Álvaro Parente no seu melhor