![ziggy-stardust[1]](http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/05/ziggy-stardust1.jpg)
Um engodo é o que é este Querido Morto. Porque vem ao engano quem pensa que vai ser glorificado o álbum Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars. E ainda mais se sentirá ultrajado quem vier à espera de um obituário antecipado do camaleónico Bowie, que foi quem deu à luz Ziggy e o matou com as suas próprias mãos.
Mas, concedamos. Convirá explicar, ao menos, porque veio Ziggy ao mundo e dele se despediu tão cedo. A conjuntura era a de um pré-apocalipse, com a destruição da humanidade e da Terra anunciadas para daí a cinco anos. Tudo por causa da delapidação dos recursos naturais do planeta. Nada que — quase quarenta anos depois de Ziggy — não continue a ser apregoado como uma inevitabilidade se o desperdício se mantiver ao ritmo da indiferença dos tempos presentes. Enquanto não vinha a débacle final, os adolescentes pilhavam tudo o que podiam, perante a complacência dos mais velhos que os deixavam entregues a si próprios. O rock´n´roll, que até então constituía a sua principal ocupação, já não era opção, pois que a electricidade era bem escasso para tanta fúria nas guitarras. Ziggy, que era um deles, não desistia porém de cantar e tocar. E foi com a sua voz e guitarra que anunciou aos fans aquilo que lhe tinha surgido em sonhos: que estaria para chegar à Terra, vindo do Além, uma espécie de anjo ou messias (“a Starman”) que traria de novo a esperança e a hipótese de redenção à humanidade. De um momento para o outro Ziggy foi convertido em profeta e os fans passaram a segui-lo como fiéis discípulos. Só que os “Starmen” (eram vários, afinal) nada tinham de anjinhos. Aterraram na Terra, sim, mas sem nenhuma preocupação pelo bem-estar da humanidade. E, porque, no seu estado original de anti-matéria, não conseguiam ter existência terrena, desfizeram o corpo do pobre Ziggy e recolheram os bocados para os tomarem para eles e se tornarem visíveis. Isto tudo num palco metaforicamente adequado: o do próprio palco onde Ziggy actuava e enquanto cantava Rock´n´Roll Suicide.
A morte de Ziggy Stardust – que, numa outra variação da história, era ele próprio o marciano “Starman” que se finava em palco às mãos dos seus fans – funcionava, para Bowie, como uma alegoria da glória e decadência do rock´n´roll que, de tanto se alimentar dos seus excessos, estava condenado à auto-destruição. Era essa a alma do rocker, a de levar sempre uma vida de extremos, a de um comportamento nos antípodas daquilo a que o caminho do sucesso aconselharia, a da negação do corpo através da apologia do vício que o consumia. Em suma, havia no rocker um desejo de eternidade que só a morte podia consumar, e o culto desse sacrifício – a que os fans se rendiam e alimentavam — era tanto maior quanto mais profunda fosse a descida aos infernos. Com a morte de Ziggy, morria também o rock´n´roll, ou pelo menos o seu espírito original. Aos excessos e vícios do rock´n´roll poderia até suceder — depois de uma transição da mais absoluta anarquia a que se chamou punk — uma sua derivação, convenientemente depurada do roll e sem dúvida mais clean e ordenada. Mas aquilo que o pós-punk e a new wave produziram já nada tinha a ver com a urgência da life in the fast lane dos ícones que fizeram crescer o imaginário do rock nos anos loucos compreendidos entre a segunda metade de 60 e a primeira de 70.
E, para além de toda a simbologia que encerrava, quem era afinal de contas a personagem que se escondia atrás de Ziggy Stardust, aquele em quem Bowie se inspirou para criar a figura que o converteu numa celebridade mundial? Bowie himself não seria certamente uma hipótese credível, pois que o próprio sabia – e o tempo veio a comprová-lo para quem tivesse dúvidas – que a sua pose estudada a puxar à sofisticação (ou ao pretensiosismo, dirão alguns) pouco compatível era com a alma de um verdadeiro rocker. Seria Hendrix para quem apontava o he played it left hand dos primeiros acordes do tema-título? É possível, dirão os seus devotos, mas, estando Hendrix já morto quando Ziggy nasceu, o final da história soaria demasiado previsível. O que dizem os entendidos – e Bowie nunca o desmentiu – é que Ziggy seria nem mais nem menos do que James Osterberg, nome de registo de um rapaz de Detroit que ficou para a história como Iggy Pop. E, nesse sentido, concorrem tantos sinais que se torna arriscado dizer o contrário. A começar pelo Iggy, abreviatura de Iguana que se fez anteceder de um Z. A continuar na enorme admiração que Bowie nutria por Iggy e pelos seus Stooges, e que o fazia lamentar não ter a virtude da medida da decadência necessária para fazer uma obra-prima como Raw Power, álbum contemporâneo da Rise and Fall de Ziggy que, assim como fechou o ciclo do rock´n´roll, funcionou como a pedra de Roseta do punk (e que, verdade se diga, nenhum álbum da era punk conseguiu igualar). A continuar ainda em todos os excessos que Iggy exibia em palco e fora dele, ao lado dos quais Jagger e Richards faziam figura de anjinhos, e que, a serem aqui reproduzidos, levariam certamente a que muitos leitores deixassem neste exacto ponto a leitura do bizarro obituário que lhes propus. Tão bizarro como o fenómeno que levou a que a glória e a decadência da Iguana fossem uma e a mesma realidade, como se cada uma se alimentasse da outra, como se cada mutilação que o monstro Iggy se infligia em palco fosse condição necessária para a libertação da fúria criativa que elevou ao altar da intemporalidade muitas das suas canções. It´s only rock´n ´roll, dirão os saudosos. Ou melhor, it was, porque, depois de Iggy, veio o dilúvio, como Bowie nos quis dizer com o seu Ziggy. O próprio fez questão de se encarregar das exéquias: o último estertor do rock´n´roll é também da sua responsabilidade, pois foi ele que produziu Raw Power, não sem que Iggy e seus compinchas tivessem, na altura, sido iguais a si próprios, escarnecendo de quem lhes dava de comer e rejeitando os arranjos de Bowie.
O tempo acabou por fazer a justiça devida: a Bowie, que acabou de ver, neste ano de 2010, e por vontade de Iggy claro, reeditado o álbum histórico dos Stooges na versão que para eles produziu. E a Iggy Pop que, contra todas as evidências, não só sobreviveu a uma morte anunciada como acabou a ser adoptado pela indústria, que o entronizou no Rock and Roll Hall of Fame e o fez Cavaleiro das Artes e Letras.
E o roc´k´n´roll, o que lhe aconteceu? Esse, morreu mesmo. Apesar de um e outro grito de revolta da Iguana e de assomos como os de Cobain, nunca mais se fez nada com a urgência, intensidade e o desespero de Raw Power. Ainda bem, dirão os paizinhos dos adolescentes da idade daqueles que veneravam Ziggy e o levaram à morte. Nós, que só nos preocupamos com a imortalidade, não somos da mesma opinião.
![raw-power[1]](http://www.etudogentemorta.com/wp-content/uploads/2010/05/raw-power1.jpg)

















A primeira vez que vi o HP em palco fiquei com a sensação de ter à frente um animal raivoso disposto a tudo para comer, ou sobreviver simplesmente.
Mas nunca pensei que sobrevivesse muito — havia exemplos a msi de como as coisas normalmente se passavam nessas zonas extremas.
E ele aí está, o morto que se recusa a morrer.
Consta que numa dessas sessões de design musical o Iggy arreou uns murros no Bowie — mas nunca vi provas de nada.
Fica muito bem aqui, sim senhor (além de que me deu uma ideia coruscante!)
António, do meu Ziggy/Iggy para os seus Gong e destes para uma nova ideia que me surgiu (mas que fica para amanhã). O que o ácido lisérgico faz às nossas cabeças…
“…With God given ass
He took it all too far but boy could he play guitar
Making love with his ego Ziggy sucked up into his mind
Like a leper messiah
When the kids had killed the man I had to break up the band.”
Que maravilha de post! (é o primeiro comentário que faço com epígrafe, com toda a certeza devido ao deslumbramento que a leitura do texto me causou. Espero que a primeira estrofe não cause riots..).
Quem melhor para enterrar que um alter-ego?
Os alter-egos de Bowie são tão fascinantes que permitiram que Todd Haynes realizasse um filme onde Ziggy é Maxwell, Bowie é Brian e Curt é Iggy numa trama Wellesiana. E é precisamente Curt, interpretado magnificamente por Ewan McGregor que dá uma vitalidade pós glam e proto punk, ou melhor, de impossible love affair entre as duas correntes que de facto, não podem viver uma sem a outra.“Velvet Goldmine” não só alude ao “Rise and fall…” e a outros, mas também ao “Diamond Dogs” conceptualmente concebido para evocar o “1984” de Orwell.
Estimadíssima Vallera, mas que boa razão me deu para ter optado por este estranho Morto, esta de me trazer à memória, e de tão erudita forma, o Velvet Goldmine (que, claro, me ocorre sempre que o Ziggy vem à baila). Muito obrigado pelas suas simpáticas palavras. E apareça sempre para me ensinar mais preciosidades destas…