(Z)iggy Stardust or the Rock´n´Roll Suicide
Queridos Mortos

Um engodo é o que é este Querido Morto. Porque vem ao engano quem pensa que vai ser glorificado o álbum Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars. E ainda mais se sentirá ultrajado quem vier à espera de um obituário antecipado do camaleónico Bowie, que foi quem deu à luz Ziggy e o matou com as suas próprias mãos.

Mas, concedamos. Convirá explicar, ao menos, porque veio Ziggy ao mundo e dele se despediu tão cedo. A conjuntura era a de um pré-apocalipse, com a destruição da humanidade e da Terra anunciadas para daí a cinco anos. Tudo por causa da delapidação dos recursos naturais do planeta. Nada que — quase quarenta anos depois de Ziggy — não continue a ser apregoado como uma inevitabilidade se o desperdício se mantiver ao ritmo da indiferença dos tempos presentes. Enquanto não vinha a débacle final, os adolescentes pilhavam tudo o que podiam, perante a complacência dos mais velhos que os deixavam entregues a si próprios. O rock´n´roll, que até então constituía a sua principal ocupação, já não era opção, pois que a electricidade era bem escasso para tanta fúria nas guitarras. Ziggy, que era um deles, não desistia porém de cantar e tocar. E foi com a sua voz e guitarra que anunciou aos fans aquilo que lhe tinha surgido em sonhos: que estaria para chegar à Terra, vindo do Além, uma espécie de anjo ou messias (“a Starman”) que traria de novo a esperança e a hipótese de redenção à humanidade. De um momento para o outro Ziggy foi convertido em profeta e os fans passaram a segui-lo como fiéis discípulos. Só que os “Starmen” (eram vários, afinal) nada tinham de anjinhos. Aterraram na Terra, sim, mas sem nenhuma preocupação pelo bem-estar da humanidade. E, porque, no seu estado original de anti-matéria, não conseguiam ter existência terrena, desfizeram o corpo do pobre Ziggy e recolheram os bocados para os tomarem para eles e se tornarem visíveis. Isto tudo num palco metaforicamente adequado: o do próprio palco onde Ziggy actuava e enquanto cantava Rock´n´Roll Suicide.

A morte de Ziggy Stardust – que, numa outra variação da história, era ele próprio o marciano “Starman” que se finava em palco às mãos dos seus fans – funcionava, para Bowie, como uma alegoria da glória e decadência do rock´n´roll que, de tanto se alimentar dos seus excessos, estava condenado à auto-destruição. Era essa a alma do rocker, a de levar sempre uma vida de extremos, a de um comportamento nos antípodas daquilo a que o caminho do sucesso aconselharia, a da negação do corpo através da apologia do vício que o consumia. Em suma, havia no rocker um desejo de eternidade que só a morte podia consumar, e o culto desse sacrifício – a que os fans se rendiam e alimentavam — era tanto maior quanto mais profunda fosse a descida aos infernos. Com a morte de Ziggy, morria também o rock´n´roll, ou pelo menos o seu espírito original. Aos excessos e vícios do rock´n´roll poderia até suceder — depois de uma transição da mais absoluta anarquia a que se chamou punk — uma sua derivação, convenientemente depurada do roll e sem dúvida mais clean e ordenada. Mas aquilo que o pós-punk e a new wave produziram já nada tinha a ver com a urgência da life in the fast lane dos ícones que fizeram crescer o imaginário do rock nos anos loucos compreendidos entre a segunda metade de 60 e a primeira de 70.

E, para além de toda a simbologia que encerrava, quem era afinal de contas a personagem que se escondia atrás de Ziggy Stardust, aquele em quem Bowie se inspirou para criar a figura que o converteu numa celebridade mundial? Bowie himself não seria certamente uma hipótese credível, pois que o próprio sabia – e o tempo veio a comprová-lo para quem tivesse dúvidas – que a sua pose estudada a puxar à sofisticação (ou ao pretensiosismo, dirão alguns) pouco compatível era com a alma de um verdadeiro rocker. Seria Hendrix para quem apontava o he played it left hand dos primeiros acordes do tema-título? É possível, dirão os seus devotos, mas, estando Hendrix já morto quando Ziggy nasceu, o final da história soaria demasiado previsível. O que dizem os entendidos – e Bowie nunca o desmentiu – é que Ziggy seria nem mais nem menos do que James Osterberg, nome de registo de um rapaz de Detroit que ficou para a história como Iggy Pop. E, nesse sentido, concorrem tantos sinais que se torna arriscado dizer o contrário. A começar pelo Iggy, abreviatura de Iguana que se fez anteceder de um Z. A continuar na enorme admiração que Bowie nutria por Iggy e pelos seus Stooges, e que o fazia lamentar não ter a virtude da medida da decadência necessária para fazer uma obra-prima como Raw Power, álbum contemporâneo da Rise and Fall de Ziggy que, assim como fechou o ciclo do rock´n´roll, funcionou como a pedra de Roseta do punk (e que, verdade se diga, nenhum álbum da era punk conseguiu igualar). A continuar ainda em todos os excessos que Iggy exibia em palco e fora dele, ao lado dos quais Jagger e Richards faziam figura de anjinhos, e que, a serem aqui reproduzidos, levariam certamente a que muitos leitores deixassem neste exacto ponto a leitura do bizarro obituário que lhes propus. Tão bizarro como o fenómeno que levou a que a glória e a decadência da Iguana fossem uma e a mesma realidade, como se cada uma se alimentasse da outra, como se cada mutilação que o monstro Iggy se infligia em palco fosse condição necessária para a libertação da fúria criativa que elevou ao altar da intemporalidade muitas das suas canções. It´s only rock´n ´roll, dirão os saudosos. Ou melhor, it was, porque, depois de Iggy, veio o dilúvio, como Bowie nos quis dizer com o seu Ziggy. O próprio fez questão de se encarregar das exéquias: o último estertor do rock´n´roll é também da sua responsabilidade, pois foi ele que produziu Raw Power, não sem que Iggy e seus compinchas tivessem, na altura, sido iguais a si próprios, escarnecendo de quem lhes dava de comer e rejeitando os arranjos de Bowie.  

O tempo acabou por fazer a justiça devida: a Bowie, que acabou de ver, neste ano de 2010, e por vontade de Iggy claro, reeditado o álbum histórico dos Stooges na versão que para eles produziu. E a Iggy Pop que, contra todas as evidências, não só sobreviveu a uma morte anunciada como acabou a ser adoptado pela indústria, que o entronizou no Rock and Roll Hall of Fame e o fez Cavaleiro das Artes e Letras.

E o roc´k´n´roll, o que lhe aconteceu? Esse, morreu mesmo. Apesar de um e outro grito de revolta da Iguana e de assomos como os de Cobain, nunca mais se fez nada com a urgência, intensidade e o desespero de Raw Power. Ainda bem, dirão os paizinhos dos adolescentes da idade daqueles que veneravam Ziggy e o levaram à morte. Nós, que só nos preocupamos com a imortalidade, não somos da mesma opinião.

 

 

Comentários a “(Z)iggy Stardust or the Rock´n´Roll Suicide” (4)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    A primeira vez que vi o HP em palco fiquei com a sensação de ter à frente um animal raivoso disposto a tudo para comer, ou sobreviver simplesmente.
    Mas nunca pensei que sobrevivesse muito — havia exemplos a msi de como as coisas normalmente se passavam nessas zonas extremas.
    E ele aí está, o morto que se recusa a morrer.
    Consta que numa dessas sessões de design musical o Iggy arreou uns murros no Bowie — mas nunca vi provas de nada.
    Fica muito bem aqui, sim senhor (além de que me deu uma ideia coruscante!)

    • Diogo Leote diz:

      António, do meu Ziggy/Iggy para os seus Gong e destes para uma nova ideia que me surgiu (mas que fica para amanhã). O que o ácido lisérgico faz às nossas cabeças…

  2. vallera diz:

    “…With God given ass
    He took it all too far but boy could he play guitar
    Making love with his ego Ziggy sucked up into his mind
    Like a leper messiah
    When the kids had killed the man I had to break up the band.”

    Que maravilha de post! (é o primeiro comentário que faço com epígrafe, com toda a certeza devido ao deslumbramento que a leitura do texto me causou. Espero que a primeira estrofe não cause riots..).
    Quem melhor para enterrar que um alter-ego?

    Os alter-egos de Bowie são tão fascinantes que permitiram que Todd Haynes realizasse um filme onde Ziggy é Maxwell, Bowie é Brian e Curt é Iggy numa trama Wellesiana. E é precisamente Curt, interpretado magnificamente por Ewan McGregor que dá uma vitalidade pós glam e proto punk, ou melhor, de impossible love affair entre as duas correntes que de facto, não podem viver uma sem a outra.“Velvet Goldmine” não só alude ao “Rise and fall…” e a outros, mas também ao “Diamond Dogs” conceptualmente concebido para evocar o “1984” de Orwell.

    • Diogo Leote diz:

      Estimadíssima Vallera, mas que boa razão me deu para ter optado por este estranho Morto, esta de me trazer à memória, e de tão erudita forma, o Velvet Goldmine (que, claro, me ocorre sempre que o Ziggy vem à baila). Muito obrigado pelas suas simpáticas palavras. E apareça sempre para me ensinar mais preciosidades destas…

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