Um só medo

 “The only thing we have to fear is fear itself”

Franklin D. Roosevelt, 1933

É o meu único, grande e verdadeiro medo. Do próprio medo e de tudo o que me faz. O medo gela-me, paralisa-me, aperta-me por dentro, retira-me a capacidade de desfrutar o presente, enquanto, sombria e imaginosa, antecipo todo o tipo de negros cenários. O medo afecta o meu discernimento, distorce a minha avaliação das situações, dirige o meu raciocínio para a busca de recuos, desvios, appeasements e fugas, para a frente, para trás, para qualquer direcção. É este medo que me esforço diariamente por combater.  

Talvez por ter vivido durante demasiado tempo com demasiado medo, sei hoje que a realidade é quase sempre mais suportável que a sua angustiada antecipação, quanto mais não seja pela possibilidade de lutar, de esperar, de vencer ou simplesmente de aceitar o que se não pode mudar ou evitar. E que o medo é como aqueles bichos pretos com muitas patas e olhos brilhantes que sabíamos debaixo da nossa cama em pequenos: desaparece quando se acende a luz, dominando-o, falando e às vezes rindo dele. Escrever um post também deve dar, acho.  

O que é que me faz medo? Eis uma pequena parte da lista:  

- baratas, escaravelhos, carochas, grilos e afins (estes últimos muito latamente entendidos)

- pessoas intransigentes, intolerantes, duras de coração, invejosas, providenciais e/ou de “consciência tranquila”    

- falar em público (é dos piores, mas dura só os primeiros minutos)

- tirar sangue (só de escrever já estou arrepiada)

- fazer exames médicos (sabe-se lá o que se irá encontrar)

- túneis muito compridos, parques de estacionamento muito fundos, estações de metro muito subterrâneas, caves e grutas  

- desiludir aqueles que gostam e/ou confiam em mim

- ver sofrer aqueles que amo sem nada poder fazer para os ajudar

- perder o optimismo, a esperança e alegria: ficar amarga, agoirenta e baça

Comentários a “Um só medo” (10)

  1. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Confesso, Joana, que tinha levado o post no sentido dos medos mais estapafúrdios e por isso difíceis de erradicar: os monstros de quando somos pequenos, mas agora, em crescidos. Ainda bem que o acrescentou em sentidos. Esses outros medos que refere, absolutamente racionais, o da decepção, da perda e da impotência perante aqueles que amamos, são aflitivos.

    (Tenho isso de sofrer por antecipação — ainda bem que disse em voz alta, é uma daquelas coisas que sentimos privadamente e com mau julgamento sobre nós mesmos por o sentirmos, e também por pensarmos que somos os únicos tontos a fazê-lo.)

    • Joana Vasconcelos diz:

      Eugénia, já sofri muito mais por antecipação do que sofro, mas nunca me senti mal por isso, para além claro daquela tremenda e inexplicável angústia, dos sombrios presságios, dos cenários de absoluta desgraça.

      O meu avô tinha um extraordinário hábito, que só há poucos anos compreendi e que tenho vindo a por em prática, com o crescente proveito — o de anunciar, mais para si próprio do que para quem estivesse a ouvir, “amanhã (ou para a semana ou quando chegar a altura) vou aborrecer-me muito com isso” (e quem diz aborrecer, diz preocupar, stressar …). Requer algum treino, mas que resulta, resulta…

  2. António Eça diz:

    Joana: de todos os seus medos só excluo três, que me são indiferentes ou até divertidos — a saber:
    grilos e afins, túneis e grutas,e, ainda que sinta o frisson da adrenalina inicial, falar em público.
    Eugénia, você tocou no meu ponto emocionalmente mais fraco… A antecipação do sofrimento e a má consciência na auto-crítica do momento.
    É algo de inexplicável, que enxoto com fúria mal me apercebo da intromissão.
    Detesto pieguices.

    • Joana Vasconcelos diz:

      António, não creio que a antecipação do sofrimento seja pieguice. Qundo muito exprime a consciência da nossa fragilidade e do pouco que controlamos afinal a nossa vida. O verdadeiro teste da coragem e da fortaleza é diante do sofrimento a sério (e, mutatis mutandis, de todos os nossos outros porventura mais tontos medos quando estes se materializam, por exemplo, numa manada de baratas, escaravelhos e carochas todos a correr pelo chão da minha casa …).

  3. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Dizem que a antecipação do sofrimento cumpre uma função psicológica já que nos ajuda a desenvolver as estratégias de que nos socorreremos ao deparar-nos com inevitáveis perdas, uma espécie de rota de emergência como têm os japoneses para quando soa o alerta de tsunami, ou as simulações de acidentes e lailailai.

    Isto, obviamente, não me consola meia pevide: o que eu queria era ter nervos de aço como Kwai Chang Caine!

    • Turmalina diz:

      Somos duas…e três, quatro, cinco a engrossar a lista dos que sofrem por antecipação. O auge desse meu sofrimento é quando meu filho passa por algum problema que só ele pode resolver. Eu sofro demais até que tudo se resolva e no final tudo acaba se resolvendo, eu é que não aprendo.
      Mas fora sofrer por antecipação eu vivo e anseio desmedidamente por antecipação.Conto os meses, dias, minutos, planejo, visualizo, desfaço tudo e reorganizo outra vez.É como aquele ditado que diz que o melhor da festa é esperar por ela.Eu me estresso mas eu gosto :o)

  4. António Eça diz:

    Eugénia, nem meia pevide, mesmo.

    • Turmalina diz:

      É uma das minha favoritas!!! Porque tenho sim medo de gente…mas ao contrário da música, o medo é uma casa que costumo visitar, porque sou teimosa demais!!!

    • Joana Vasconcelos diz:

      Thks MJC: não conhecia e gostei mesmo muito!

      Turmalina, ainda bem que a encontro por aqui: baça quer dizer sem brilho, sem luz, sem vivacidade, basicamente sem interesse …

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