Aviso já que vou fazer batota. Tal como alguns colegas dos tempos de liceu, que trocavam a leitura de Os Maias por um resumo comentado na preparação para o teste sobre a obra de Eça de Queiroz, vou atrever-me a escrever sobre um realizador do qual não vi um único filme e que, até ontem, era para mim um perfeito desconhecido. Mas a batota tem desculpa: a verdade é que ele próprio, Silvano Agosti, se assume como um cineasta clandestino e não disfarça algum orgulho por nenhuma das suas dezoito longas-metragens ter sido exibida numa sala de cinema. O que não impede (ou está aí também a explicação) que se tenha tornado um realizador de culto, e que os seus filmes muito pouco convencionais sejam considerados obras-primas pelos seguidores. Para ele, tudo serve como espaço de projecção: a fachada ou as escadas de um edifício, um parque ao ar livre, uma igreja e até as costas de um polícia fardado de branco que tentou em vão impedir a projecção de um dos seus filmes perante uma assembleia impaciente. Mas isto de se manter à margem da indústria cinematográfica não é, só, uma posição de princípio. Tem muito a ver, também, com a censura, melhor dizendo, com os entraves a que os seus filmes têm sido sujeitos pelo Vaticano, que, segundo o próprio, é quem tudo decide em Itália e terá acedido a que ele prosseguisse a sua carreira de realizador com uma única condição não desprezível: a que tivesse sempre a seu lado, no processo de escrita do argumento, alguém que por ele se responsabilizasse (sic). Para Agosti, nada há mais importante do que a obra-prima perfeita, que é nem mais nem menos do que o ser humano e a sua individualidade. E, por isso mesmo, sente que a sua missão de cineasta é a de denunciar o massacre a que o homem tem sido submetido por todas as formas de poder. A liberdade não admite quaisquer concessões, diz ele, nem mesmo as que são impostas por uma vida a dois (nenhum ser humano deve sujeitar-se a partilhar uma casa com outro). E nem o trabalho nem a cultura libertam, só mesmo a vida, o bem supremo a que todos se devem entregar totalmente, como ele o fez quando saiu de casa, aos 17 anos, para correr o mundo tendo por companhia apenas um saco-cama.
Isto tudo fiquei a saber ontem na curta “Agosti, seul avec tous” que lhe foi dedicada no Indielisboa. O suficiente para me aguçar a curiosidade em ver os seus filmes — que, pela personalidade revelada e pelos excertos exibidos, estão mesmo a pedir uma visita prolongada. Talvez a polícia marítima, que usa farda branca, disponibilize algumas costas para uma projecção.

















Diogo, não vi nenhum dos filmes do Agosti (que até hoje desconhecia), mas o parti-pris parece-me original e meritório. Temo que alguns ultras, levada a peito a filosofia do Mestre, se lhe recusem a ver os filmes, com fundado receio de que a “forma cultural” que os filmes são lhes “imperfeiçoe” a “obra-prima” a que aspiram alcandorar a humana existência do seu individualíssimo corpo. Não é o meu caso que aceito com gosto mil imperfeições e, por isso, lhe peço que me diga quando dele se voltem a projectar por cá os filmes. Bom post.
Já estou a gosto na fila para encontrar este Agosti que desconhecia.