Como ameacei em comentário a post da JV sobre o seu descontrolado vício de jogo, aqui me apresento para um relato digno dos JA’s – os AA’s da jogatina.
Devo confessar que desde os meus 13 anos que jogo poker – entre muitas outras coisas. O momento a que me vou reportar aconteceu ainda no aquém-túmulo, mais concretamente nos alvores da última década do último século do milénio passado. Ou seja: foi há muito tempo.
Tudo começou quando recebi um convite para participar numa das etapas da Cutty-Sark Tall Ships Race’s, na que ligava A Coruña ao Porto.
O barco – que por momentos quase comandei (interinamente) – era o fabuloso clipper Dar Mlodziedzy, o actual navio-escola da marinha polaca. Uma coisa com 110 metros de comprimento, três mil toneladas, 3.000 m2 de velas, um mastro-real de 50 metros de altura e uma tripulação média de 180 marujos.
A esta juntaram-se em A Coruña cerca de trinta convidados de várias nacionalidades.
Não vou perder tempo com pormenores, saltando de imediato para o momento em que, já o mar ia alto, ficámos a saber que o comandante rumava a norte, para o meio da Biscaia, «porque isto é um veleiro e para andar precisa de vento».
Nada a obstar – até ao momento em que o supracitado vento resolveu aparecer, em versão sobreexcitada: o monstro, full rigged, deitava-se sobre as ondas e seguia agora a uns 12 nós, fazendo com que a água cobrisse o deck, onde só se podia estar com o arnês preso aos cabos de aço da amurada.
Mas se no tombadilho eu me acalmava perante o evidente à vontade com que toda a marinhagem encarava a coisa – toda contente – já na sala dos oficiais o panorama era, para alguns, verdadeiramente desolador: uma senhora italiana pedia que a matassem depressa enquanto tentava vomitar ar, duas gémeas portuguesas agarravam-se uma à outra a chorar convulsivamente – uma verde e a outra cinzenta –, enquanto uma série de outros mareados tentava de forma infrutífera e bastante acidentada rumar aos aposentos para definhar em sossego.
Da enjoativa chacina sobrou um indómito grupo (uma científica metade) que, como adiante se verá, animou o ambiente por cinco trepidantes dias.
Primeira noite em águas calmas – algures em parte incerta, mas na latitude de Finisterra. ÁS 22h00 em ponto os oficiais do Dar Mlodziedzy vão dormir e o bar fecha. A solução foi o suborno: como éramos convidados da Cutty-Sark (com acesso ilimitado aos produtos da conhecida casa comercial), entregávamos duas garrafas ao copeiro para que ele nos deixasse uma arca térmica cheia de gelo e garrafas de cerveja. Depois, a grande mesa por onde diariamente se estendiam mapas e se definiam rotas, transformava-se num antro de pecado (isso, santinhas!, de pecado): o álcool, o jogo, as mulheres… Uma em particular, holandesa…
Bem! O estupor da mulher já não lhe bastava ser gira e ter um ar bem louco, porque era tudo isso e jogava como um sacana dum homem!
Comeu-nos a cabeça a todos, sem excepção – como podem ver na foto abaixo.
Dois dias mais tarde, já em águas de Viana, tivemos de ficar à deriva um dia inteiro porque o nosso clipper andara tão depressa que se adiantara demasiado à cabeça da flotilha: o gigante russo Sedov, o mais próximo, estava a dez horas de distância.
A 40 milhas da costa, num meio-dia esbraseado, vários bacalhaus arrastavam-se pela seca. O ambiente era tenso, a água dos baldes um imenso insulto face à magnífica extensão líquida onde boiávamos, como ratos em cima duma rolha.
Katherina, a holandesa jogadora, resolve então desafiar as convenções e com isso quase fomos a pique (de popa, o que é mais raro). Passo a explicar: no deck da popa, em improvisado espaço balnear, Katherina, a gira e bem rapiocante jogadora holandesa, decide, no meio da marujagem já entusiasmada com a rara presença de várias mulheres no seu barco, fazer topless…
É evidente que enquanto o comandante não chegou para impor algum decoro as correrias excitadas e os «Áh’s.…» de espanto concorreram para uma concentração inesperada de peso na popa do barco.
Temi o pior. Que chegou, com Katherina.
Queria tomar banho no mar e queria que eu fosse com ela falar ao comandante – que obviamente já nos adorava a todos – para o convencer a deixar-nos ir tomar banho no meio do Atlântico!
– You do the speech, I’ll do the smile, ordenou-me sem apelo.
E lá fui eu com cara de cretino, rumo à sala dos oficiais – seguido de perto de pequena mas aguerrida comitiva.
O homem olhou-me com cara de materialista científico irritado por comer sapos às carradas. Quando lhe contei das nossas pretensões – que logo concentrei na holandesa incitadora de desacatos – o potente comandante abriu um sorriso ferino e disse que tal era impossível «porque as leis do mar não o permitem, a não ser em condições especiais mas com a necessária presença dum escaler por perto». E mais adiantou que muito gostaria de fazer descer um escaler para nos ser agradável, mas que só o podia fazer para um mínimo de 20 pessoas – sabendo perfeitamente que nós éramos apenas 15 operacionais… Os restantes convidados haviam melhorado um pouco, jazendo agora de vergonha no escuro das suas cabines.
E lá voltei eu de requitó, quase satisfeito por a coisa não ter tido danos colaterais.
Só que mal chegámos ao tombadilho Katherina expôs uma nova estratégia: íamos agora perguntar à tripulação se, com 35 graus e no meio do mar, não gostaria de dar um mergulhinho refrescante. Entre os «se fosse possível» e os «era bom, era» ficámos a saber como, na verdade, se deu a revolta na Bounty.
Um quarto de hora mais tarde apresentei-me a papaguear o que Katherina me industriara: «O senhor comandante disse que o mínimo para descer um escaler eram 20 pessoas, não foi? Pois agora somos 195…».
E o homem cumpriu.
Ainda hoje, quando vejo um veleiro gigante…






















ESTE BLOG HOJE ESTÁ AO RUBRO..MENINAS, POMBINHAS NUM TEXTO BOM E DIVERTIDO DO MSF, JOGATINA QUE COMEÇA POR EXIGIR LATIDOS DA NOSSA JOANA, LOGO NO TAXI, E AGORA ISTO. TEM SIDO UM DOMINGO DE RISO EM CADA VEZ QUE ME BLOGO.
PS: DESCULPE, ANTÓNIO, MAS O DANADO AGORA SÓ ME ESCREVE EM MAIÚSCULAS. É UM HORROR.
António, mas que linda vida de marinheiro que tu já tiveste. Grande história.
Ah Leão… do mar!
Aie!, Eugénia, até pensei que estava a berrar comigo…
Ainda bem que gostou.
Manuel: já tive sim senhor. Até já tomei de assalto Tânger e Gibraltar, vê lá tu!
DE TODO. SE HOJE ESTÁ TÃO BENEDITO QUE ATÉ SE DESCONFIA..
PS: ISTO DAS MAIÚSCULAS DÁ-ME NERVOS! ACHO QUE ME VOU EMBORA.
António,
como se vê, uma mulher quer, um homem fala, a obra nasce.
Que belo banho deve ter sido!
BEM, TERESA, MUITO BEM APANHADA…
Eugénia, experimente no seu teclado carregar na tecla Caps Lock (na ponta esquerda do teclado), desactivando a coisa. Pode ser que seja só isso…
Foi sim, Teresa.
Quando uma mulher quer… tudo pode acontecer!
Às tantas caiu viagra no teclado…
António, que fantástica aventura e que delicioso texto!
Nasci numa família de feros velejadores e não me lembro da primeira vez que entrei num barco à vela. Mas lembro-me das escasas duas ou três vezes em que, em várias décadas de mar, enjoei e posso garantir que jamais em toda a minha vida me senti tão desesperadamente mal … Que sorte a sua ter ido a bordo do navio-escola polaco. Acompanhei, de barco à vela, claro, a partida de uma Tall Ship Race aqui em Lisboa, em 2006, e foi um deslumbramento: os navios-escola eram todos lindos de morrer, lá estava o nosso Creoula, que é sempre tão gracioso, e todo o Tejo era uma animação de barcos de todos os tipos e tamanhos …
E que belo deve ter sido o mergulho que Katherina, a Grande — e pelos vistos só ela, sozinha, grande mulher — conseguiu para todos, ao largo de Viana. É absolutamente fantástico nadar ao largo, em alto mar, de preferência saltando da amurada de um barco (admito que o navio-escola não se prestasse a isso, mas o salva-vidas decerto daria um razoável trampolim …)
PS — Adoro a expressão “ir de requitó”, que a minha tia Luísa — do Porto, claro — usa com frequência, para minha delícia!
Tinha a certeza que ia gostar, Joana. Já tinha percebido a sua costela náutica, e quem gosta de barcos gosta sempre muito!
Não há barcos mais bonitos e perfeitos que os veleiros. A nossa barca Sagres, lindíssima! A D. Fernando e Glória também é, mas o castelo da popa das fragatas parece-me sempre um bocado desproporcionado. E sabe que agora há uma gémea da escuna Creoula? E vai fazer cruzeiros.
Este «meu» clipper é uma jóia. Foi construído em 1982, em Gdansk, com dinheiro dum peditório nas escolas públicas. E por isso se chama Dar Mlodziedzy, que quer dizer «Dádiva da Juventude».
Parece que fiz um comentário desproporcionado, também… »Aguarda moderação»!…
Mas isto é a PIDE!
Não stresse, António, não tem nada a ver com o teor da sua gracinha …Acontece às vezes sem que eu perceba ao certo porquê. Carregue em “aprovar” e a coisa resolve-se …
Qual PIDE, carago! Anthony, puxa-me por essa cabecinha de dragão. Usaste a palavra da pílula azul e o sistema da wordpress, que já sabe o que a casa gasta, pensou logo que eras um delegado de propaganda médica a vender o produto. É que nem te abriu a porta. Já lá está aprovado.
Enfim! A Liberdade…
Benedito…que divino…conte-nos mais!!! Adoro o mar e navegar, mas acho que tenho andado tempo demais em terra firme…lembro com saudade do tempo em que eu descia do barco para nadar no mar.Nunca tive coragem de pular de um veleiro, eu descia pela escada de cordas. Eu amava aquela sensação.Hoje já não sou mais tão intrépida…
Então é isto que se passa nas esplendorosas fragatas que abrilhantam qualquer desfile marítimo. Mas que ricas vidas, as de marinheiro.
Já enjoam os amigos de ouvir-me dizer à exaustão a frase do Rosa: “perto de muita água tudo é feliz!”. Creio, agora, que devo fazer um remendo: “perto de muita água, e galhardamente narrado por Antonio, tudo é feliz!”.
Turmalina, haverá mais histórias marítimas. Ainda bem que gostou.
José Navarro: como diabo pensa que dei cabo de mim?!…
Luciana, obrigado, ainda bem que gostou.
Refrescante! Gostei.
Vais a Pataias?