Tremendously Short Short-Story

 

A fita.

Como deixei cair a fita?

Como fui capaz de perder a fita verde que a minha mãe me deu quando fiz a comunhão solene, tão orgulhosa do branco do meu vestido e do branco no meu rosto? Como pude descuidar-me e soltar das mãos a fita verde que a mamã usava todos os dias em Ferry Street, a fita que a confirmava como a mulher mais bonita do Ironbound, a rainha da beleza original, de nariz altivo, do espírito sem quebra, das portuguesas que fizeram de Newark o que a cidade é, com as bandeiras escondendo os pecados das townhouses, as sessões de caridade nas antigas igrejas ortodoxas multiplicando o pão dos afro-americanos, levantando o ânimo dos chicanos e dos porto-riquenhos, tirando da droga os filhos dolentes dos operários da siderurgia, dos empregados das cervejeiras, dos porteiros nocturnos das centrais de autocarros?

Porque não agarrei a tempo o verde do mar da avó, junto a Caminha, do prado nas colinas sobre Vila Praia de Âncora, aquele verde das limas que perfumam as histórias do pai quando era menino, nas encostas a sul de Pádua, a roubar cogumelos do tamanho de porcos-espinhos?

O Nicola nunca mais irá passar-me a mão esquerda entre os cabelos, com o sol fraquinho mas tão doce de Hoboken a bater na janela junto à cama, aquecendo-me as maçãs do rosto enquanto ele pega na fita, quase azul pelo contraste das cinco da tarde, e a cruza sobre os meus mamilos, deslizando-a na pelugem loira, quase transparente, detendo-a uns segundos junto ao umbigo para a poisar no lençol enquanto desce os lábios cheios, frutuosos, até ao meu sexo.

Adorava sentir o vento que vinha, ainda fresco, da costa de Staten Island, e pensar nos lábios do Nicola. Mas deixei de sentir o vento, e o Nicola que o vento me trazia. Já não sinto nada.

Será que foi por isso que deixei cair a fita?

Boris Savelev, “O Apartamento de Nicola”

 

Comentários a “Tremendously Short Short-Story” (10)

  1. Turmalina diz:

    PMS, seria esse Nicola aí um tipo de Nabokov?

  2. Vasco Grilo diz:

    PMS, o único comentário que me permito fazer, advêm do facto de os ventos de Staten Island só muito raramente serem frescos. Em SI existem as maiores lixeiras dos estados de NY e NJ. Talvez a nossa amiga tenha deixado cair a fita devido ao mau cheiro que emanava da ilha?

    Independentemente do que esses ventos me sugeriram, a tua short faz-me pensar em todo um mundo que conheci de perto. Conheci muitos emigrantes portugueses e as suas famílias nos estados de NJ e Penn e sempre gostei de conhecer as histórias das suas aventuras pessoais. Gente incrível, que no geral é mal tratada e olhada com desprezo pelos que ficaram em terra e nunca tiveram coragem de ir a lado nenhum e sobre quem (os primeiros) um dia escreverei aqui qualquer coisa.

    Gostei muito.

    Abraço

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Short indeed, but tremendously graceful.

  4. pedro marta santos diz:

    Andei duas vezes de comboio de Newark para NY e nunca senti nada. Mas acredito piamente em quem lá passou largas temporadas. E tens razão: é gente na sua maioria excepcional (tenho primos luso-americanos em Naugatuck, arredores de Waterbury, no Connecticut, e são das melhores pessoas que alguma vez conheci, com um sentido de iniciativa e entreajuda inabalável. Ab

  5. pedro marta santos diz:

    And many thanks, professor.

  6. Joana Vasconcelos diz:

    Pedro, gostei muito. Bem que eu suspeitava — e disse-o (escrevi-o) há dias à Turmalina — que um vestido branco com saia de balão rimava com fita no cabelo!

    PS 1 — Esta sua short trouxe-me de volta uma música de que já mal me lembrava, da Suzanne Vega, e que tinha um curioso começo, mais ou menos assim: “in the ironbound section of the avenue L, where the portuguese women come to see what you sell” … Remember?

    PS 2 — O “meu” convento, aquele de que falei no post das maçãs na cabeça, ficava em Staten Island. Os ventos que por lá me soprarm eram ao mesmo tempo calorosos (a freiras eram maioritariamente de ascendência italiana) e refrescantes, pelas razões que então referi…

  7. Joana Vasconcelos diz:

    Gostei muito, Pedro. Bem que eu suspeitava — disse-o (escrevi-o) há dias à Turmalina — que um vestido como este, branco e de saia em balão, rimava com laço no cabelo!

    PS 1 — Esta sua short trouxe-me de volta uma música de que já mal me lembrava, da Suzanne Vega, que tinha um curioso começo, mais ou menos assim: in the ironbound section of the avenue L, where the portuguese women come to see what you sell … Remember?

    PS 2 — O “meu” convento, aquele de que falei no post das maçãs na cabeça, fica em Staten Island. Todos os ventos que então por lá me sopraram eram calorosos (as freiras eram maioritariamente de ascendência italiana), mas sobretudo refrescantes, pelas razões que apontei …

  8. pedro marta santos diz:

    Lembro-me perfeitamente da canção de mademoiselle Vega, Joana. Era de meados dos anos 80 e chamava-se (chama-se) mesmo “Ironbound”. Turmalina, talvez Nicola seja neto do Vladimir…

  9. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Gostei muito, Pedro.

  10. pedro marta santos diz:

    Gosto muito que tenha gostado, Eugénia.

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