Treating dandruff by decapitation


Frank Zappa — US Senate 1985


Não penso que o Frank Zappa alguma vez, e até àquele dia, tivesse sequer assistido a um “hearing” do senado americano. Suspeito até que, ele próprio, nunca se tenha sequer imaginado vestido num fato e gravata, com um microfone daqueles pequeninos em frente da farfalhuda bigodeira, a dirigir-se respeitavelmente aos políticos que desde sempre satirizou sem piedade». Disse políticos? Queria dizer mulheres de políticos. Naquele caso a Tipper Gore e as suas amigas do Parents Music Resource Center (PMRC). Estas queriam que todos os discos com material de conteúdo explícito fossem rotulados voluntariamente pelos músicos num complexo sistema de classificação de conteúdos. Naquele dia e sem rodeios Zappa foi pois ao Senado dizer-lhes o seguinte:

«The PMRC proposal is an ill-conceived piece of nonsense which fails to deliver any real benefits to children, infringes the civil liberties of people who are not children, and promises to keep the courts busy for years dealing with the interpretational and enforcemental problems inherent in the proposal’s design. It is my understanding that, in law, First Amendment issues are decided with a preference for the least restrictive alternative. In this context, the PMRC’s demands are the equivalent of treating dandruff by decapitation … The establishment of a rating system, voluntary or otherwise, opens the door to an endless parade of moral quality control programs based on things certain Christians do not like. What if the next bunch of Washington wives demands a large yellow “J” on all material written or performed by Jews, in order to save helpless children from exposure to concealed Zionist doctrine?»

Naturalmente que o PMRC levou a melhor e o famoso “Tipper Sticker” pode ser visto hoje em muitos discos considerados “explícitos”. O Zappa como castigo levou com um desses no seu “Jazz from Hell” que, curiosamente, não continha uma palavra sequer que fosse.

Frank Zappa and Bianca Odin — “Dirty Love”, Live in Philly 1976

Comentários a “Treating dandruff by decapitation” (5)

  1. Joana Vasconcelos diz:

    Vasco, pelo menos uma música da Avril Lavigne e outra da Lily Allen (para além do delirante F— You) surgem assinaladas como contendo explicit lyrics (a versão do The Fear que passa nas rádios é, aliás, modificada face à original). Descobri-o numa das primeiras vezes que carreguei os i-pods das minhas filhas mais velhas, seguindo a lista com os pedidos delas … E garanto que é uma situação no mínimo constrangedora para uma mãe: to download or not to download …

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Joana, a situação é mesmo constrangedora. Descobri o primeiro CD com o infecto selo pelaa mão da minha filha. Um grupo qualquer (deve ser um dos que o Diogo ouve!!!) que ela adorava e, sensata, ela não mo deixou ouvir.

  3. António Eça diz:

    Poderá ser constrangedora, mas é uma causa perdida: não há nada nem ninguém que os possa impedir de ouvir o que quiserem.
    Tal como aconteceu connosco.

    • Turmalina diz:

      Isso é verdade Benedito, e não serão as senhoras do P M R C que vão impedí-los. Meu filho ouve cada coisa que é melhor nem comentar. O bom é que passa logo…

  4. António Eça diz:

    Vasco, este ‘Dirty Love’ é óptimo, não conhecia a Bianca Odin — que entre outras coisas tem um nome bem curioso.

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