Texto com “Rebuke”

O MSF, pôs-me em grande dificuldade, desafiando-me aqui, a um debate ao qual tentei escapar (não por receio de medir os comprimentos das nossas anatomias, mas sim por receio de não estar à altura de um duro e puro debate de ideias) e trazendo consigo um exército de intelectuais difícil de rebater. Repetindo que estes são temas sobre os quais pouco leio e sobre os quais pouco sei, e assumindo que percebi a tese do autor (o que não é óbvio), tentarei satisfazer a sua “curiosidade de saber” dizendo que a minha discórdia com Stark, (autor do livro “The Victory of Reason: How Christianity Led to Freedom, Capitalism, and Western Success”, de que fala aqui o Gonçalo) relaciona-se apenas, com a dificuldade que tenho em ver causa e efeito de uma forma linear. A ideia base, Cristianismo -> Razão -> Capitalismo -> Vitória, parece-me simplista e forçada. Prefiro ver no cristianismo, um movimento que é contemporaneamente origem e produto da infra-estrutura física, económica, intelectual e política que na Europa se construiu ao longo dos séculos. Sem as estradas romanas o pequeno culto de Cristo que existia na Palestina nunca teria saído de si mesmo. Sem o modelo proto-capitalista do Império romano, nunca o culto de Cristo se teria, em Roma, auto-financiado e tornado numa força política relevante. Sem a orgânica e espontânea absorção de “bits and pieces” de outras religiões, nunca o movimento teria tido a “membership” inicial que lhe permitiria ganhar massa crítica para poder crescer.

Se o Cristianismo tem como base os ensinamentos de Cristo, não penso que este entenderia a Razão, o Capitalismo e a Vitória como consequências directas do seu pensamento*. Se o Cristianismo em vez disso, não é mais do que o somatório das ideias que, ao longo dos séculos se foram agregando em torno da ideia inicial, através dos contributos de alguns dos maiores pensadores da civilização humana, não vejo como se possa isolar o Cristianismo de todas as outras correntes de ideias que, contemporaneamente, foram contribuindo para o que o mundo Ocidental é hoje. Penso ainda que o sucesso do Cristianismo é o facto de este se ter tornado numa religião bastante “easy-going”, fácil de aceitar, e com a qual conviver. Uma religião compatível e aberta que foi sabendo integrar razão e tolerância. Uma religião que é fonte e resultado directo das necessidades que, na minha opinião, interessam o homem antes de tudo o resto e que o Cristianismo (Católico ou Protestante) no tempo soube compreender: a busca de liberdade, de recursos de sobrevivência e de algum reconhecimento da parte do outro.

Poderia a Europa ter-se desenvolvido como o fez sem o Cristianismo, ou tendo abraçado outra religião? Talvez não. Na minha opinião, isto reforça mais ainda a ideia de que a Europa desenvolveu e adoptou, o modelo de religião de menor energia, aquele que lhe deu maior espaço e liberdade de acção para se desenvolver na direcção em que o fez.

Dito tudo isto, é melhor que vá comprar o livro do Stark e ler melhor o que escreveram alguns dos amigos do MSF, antes que ele e os meus co-bloguistas mais eruditos me venham aqui enterrar em pântanos ainda mais profundos. Acho que já não vou ter tempo.

*Desculpem-me a enorme presunção de imaginar o que Jesus Cristo pensaria ou não desta conversa.

Comentários a “Texto com “Rebuke”” (8)

  1. Turmalina diz:

    Eu, na posição de leiga absoluta no que diz respeito à religião e filosofia e na forma como tudo isso se processa historicamente, quando disse outro dia no post sobre o livro de Stark, “nem tanto o céu, nem tanto a Terra”, queria dizer que nem tudo o que aconteceu para o desenvolvimento da Europa foi impulsionado pela Igreja Católica.Ela adquiriu força dentro de um terreno fértil e durante muito tempo usou a força política como forma de controle espiritual.
    Mas penso eu, ignorante do assunto e fugindo um pouco do campo acadêmico, que a Europa sofreu fortes influências das religiões pagãs. A própria figura do diabo, segundo alguns historiadores, surgiu da figura de Pã.E a Igreja ganhou muito mais espaço combatendo o Lorde das Trevas e o medo de seus fiéis do que divulgando as palavras de Cristo e os dez mandamentos. E aqui concordo com você, Vasco, quando diz que “Cristo não entenderia a Razão, o Capitalismo e a Vitória como consequências directas do seu pensamento”.
    Outro exemplo aconteceu na Itália (região que sofreu forte influência de gregos e etruscos), aonde a Stregheria funcionava em pequenos grupos na forma de matriarcado. Aqui mais uma vez a Igreja Católica alimentou o medo de seus fiéis e acabou com o problema queimando as bruxas nas fogueiras.
    Na Irlanda, Bretanha e País de Gales viveram os druidas que já se organizavam em cidadelas muito antes do nascimento de Cristo. De lá surgiu a figura da Grande Mãe, que contribui para a organização social. Nesta época também os caçadores passaram a ficar mais tempo nas cidades e a agricultura foi desenvolvendo-se, fazendo com que surgissem novas técnicas e ferramentas. Nasceram aí os primeiros sinais de avanços tecnológicos.
    A Igreja perseguiu e matou, ou queimou, homens e mulheres considerados pagãos por praticamente 800 anos, desde 1100 até 1900 e qualquer coisa.E eles não iriam combater e exterminar algo que não tivesse força política e cultural.
    Reconheço a influência do Cristianismo sobre a sociedade européia, principalmente no desenvolvimento da escrita, da literatura e das artes. E também na filosofia, assunto que eu pouco conheço.Mas tenho lá minhas dúvidas de que a Europa floresceria mesmo sem tal influência. Talvez eu precise ler primeiro Stark, na íntegra, para tentar compreendê-lo.

  2. Marta Costa Reis diz:

    Desde a tentativa de introduzir a referência à matriz cristã da Europa no defunto Tratado Constitucional Europeu, que se tem discutido bastante a questão da influência do cristianismo “nisto” que nós somos. Li há tempos um livros com a mesma preocupação “Le Christ philosophe” que também já está editado em Portugal. As ideias são similares às de Stark, embora o foco seja mais sobre a democracia, a liberdade e a separação entre Estado e Igreja (“dar a César o que é de César”) e não tanto sobre o capitalismo… et pour cause !
    É inegável que o cristianismo está profundamente entrelaçado com a Europa histórica, tal como foi sumamente hábil em se entrelaçar com a herança filosófica grega e, apesar dos arroubos aristotélicos mais tardios, é sem dúvida Platão e a sacrossanta aliança do Belo, do Bem e da Verdade que marcam o cristianismo — e não há teologia cristã sem filosofia.
    A questão para nós é saber o que isto hoje significa, quando deslaçámos essa aliança, quando já não reconhecemos o caminho para a Verdade e o Belo e o Bem já não podem ser sinónimos.
    Como preservar os valores europeus, com que matriz, agora que o cristianismo não pode ser usado como valor-padrão e já ninguém sabe latim?

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Vasco, acho que fiz muito bem em provocar-te. Uma das razões pelas quais aprecio este blog, a principal aliás, é saber que nos enterrámos aqui por gosto, um certo “descompromisso”, algum hedonismo e apetite pela escrita. Mas sempre confessei ao PN, quando abrimos esta frente, a vontade de que, mais espontâneamente do que por obrigação, surgissem outros textos. Este é um deles e suscita a vontade de responder, concordando e discordando. É o que vou fazer, não com a tua rapidez, mas logo logo que despache duas obrigações que até 5ª me vão encolher ainda mais este part-time. E continuando a conversa contigo, aproveitarei também para rezingar um bocadinho a nossa Turmalina e fazer o fine tuning com a Marta que, sem surpresa, tem ajudado a subir o nível deste nosso cemitério.

  4. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Vasco. Atrevendo-me a dizer aqui qualquer coisa, concordo com muito do que dizes. É claro que o cristianismo (e ao dizer cristianismo não dizemos já Cristo) não é a única fonte verdadeiramente universalizável do Ocidente. Mas é sem dúvida uma delas. E das mais importantes: normalmente diz-se a religião cristã, a filosofia grega e o direito romano (Sorel acrescentou-lhe a força dos bárbaros). O importante, porém, é descobrir o que somos. E para isso descobrir o que é o cristianismo. Ora, o que o autor aponta neste livro (que nem sequer é o mais decisivo em termos da doutrina religiosa de Jesus Cristo, propriamente dita) é a característica, talvez ainda única no seio das várias religiões, da religião cristã, segundo a qual a sua fé quer, desde a sua raiz, harmonizar-se com a razão. O próprio Deus é definido como lógos por São João e depois de 3 a 4 séculos de profundo diálogo com o helenismo Santo Agostinho estabelecerá a fórmula que será depois continuada por Santo Anselmo: fides quaerens intellectum et intellectus quaerens fidem (a fé busca a razão e a razão procura a fé). É isto que, segundo Rodney Stark, permitirá a extraordinária abertura do espírito ao mundo que se verificou no Ocidente e que se determinou em várias conquistas, nomeadamente políticas, científicas, económicas, etc. E isto parece-me acertado. Sobretudo parece-me que não deve ser preconceituosamente esquecido pelo próprio Ocidente, como ultimamente tem sido. E é nesse sentido que o livro — que não é religioso, ou apologético — vale a pena.

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Gonçalo, desculpa lá mas não estou de acordo com a relativização do papel do cristianismo. O cristianismo incorporou a filosofia grega, o direito romano, paganismos e pensamento mágico, mas foi a locomotiva; forjou valores, criou uma ética e deu-lhe fundamento. Criou o caldo para que aparecesse a ciência ou donde é que se julga que saiu Galileu? Sem isso, não seríamos o que somos hoje. Que muita gente se dê ao luxo de não gostar de ser ocidental, de ter vergonha de o ser e de se obrigar ao folclore antropo-multiculturalista e outros folclores para ver se escapa a que lhe chamem o que Maomé sempre chamou ao toucinho, é outra história. Não sou católico, nem cristão, e só não sou ateu por que me parece pouco científico e, isso sim é o diabo, tenho pavor de não ser científico, pelo que ninguém me encomendou esta missa, mas recuso racionalmente aceitar a relativização do papel do cristianismo. A ver se uns amigos meus me ajudam a escrever um post decente.

  6. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Manuel, estás desculpado, mas eu não fiz aquilo que disseste. O cristianismo tem um papel independente ou autónomo na construção da cultura ocidental — e não só. Mas não tem um papel exclusivo. Nessa construção é fundamental, também, a filosofia grega e o direito romano (pelo menos) ambos também independentes do ponto de vista dessa construção. Nem nego que o papel do critianismo possa ser até mais relevante que o daqueles outros. Mas não único. É este o ponto.
    Quanto à palavra relativizar, aliás, se se entender como pôr em relação, posso até então afirmar a relatividade do cristianismo como seu traço culturalmente distintivo. Porque justamente o que a diferençou de quase todas ou todas as otras religiões foi essa capacidade de relacionar-se com a razão (e com a razão concretamente determinada por outras culturas e determinável, depois, pela fé) no seu precurso apostólico e universalizante, isto é, católico.
    Julgo, por isso, que estamos de acordo, mas quinta-feira certamente falaremos no teu post.

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