short: “abrir o mundo em folhas de cinza”

Já temos mais fogo amigo a animar as nossas short stories. Este chegou assinado pela Sofia Loureiro dos Santos, autora do atentíssimo Defender o Quadrado.

Abrir o mundo em folhas de cinza
por Sofia Loureiro dos Santos

Na cara o esquecimento do vento, olhos bem fechados, o ruído surdo e o embalo do comboio. De lado é como se um enorme tela pintada por quem corre, como o dia que fica para trás. À frente só o emaranhado de cabelo, os pássaros que não vêem mas passam quase colados à vertical do horizonte.

Apetece a vertigem do abismo, dos carris em linha que perigam a vontade irresistível de cair, ficar aonde já não há começo. Para lá do que já passou passa tudo sem saber que morre. Apetece a orgia veloz do desconhecido, sem traços de sangue nem passos firmes. Apetece abrir o mundo em folhas de cinza, irreal e fantasmagórico como os sentidos que adormecem.

Sem sugestão do risco, para lá do que não tem lei.

Comentários a “short: “abrir o mundo em folhas de cinza”” (4)

  1. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Olá Sofia, que bem vinda.

  2. Joana Vasconcelos diz:

    Sofia, que bem que me soube este short trajecto debruçada na janela… Regresso ao trabalho revigorada e ligeiramente desgrenhada.

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