Red, Red, Red
JV, The Red House, Marlborough

JV, The Red House, Marlborough, 2008

O vermelho é a minha cor preferida. A paixão é antiga — não me lembro de não gostar muito – e não tem nada, mas nada que ver com inclinações clubísticas, sendo eu, na expressão feliz da Eugénia, convictamente desfutebolizada. O vermelho é bonito e alegre, caloroso e expressivo. É a cor das joaninhas, dos morangos e das cerejas, das flores mais bonitas – e, agora que olho à minha volta, do meu i-pod, das minhas pens, do meu porta-moedas, do meu filofax e de todos os meus dossiers. Na China, vermelho é cor de festa e de sorte: as noivas casam vestidas de vermelho e são sempre vermelhos os panchões que, em enormes fiadas, se rebentam em todas as ocasiões festivas, seja para celebrar datas ou eventos, seja para invocar a maior das fortunas em novos projectos ou fases.     

Há muitos anos, uma fantástica professora de inglês que tive, ao saber deste meu gosto, falou-me da quantidade de sugestivas expressões idiomáticas inglesas que incluem red. Fui ver e fiquei fascinada. Porque, na verdade o vermelho, melhor dizendo, o red torna tudo tão mais intenso e compreensível. Àquele que é caught red-handed, seja no que for, de nada adianta tentar explicar-se: não se concebe mais patente flagrante. Advertir que um prato ou condimento é red hot não significa que pica, significa que é fogo. O mesmo red hot aplicado alguém que muito nos agrada (in that very sense, of course) indicia very, very passionate feelings, uma really strong attraction. E é evidente que chamar red-letter day a uma data digna de lembrança ou de celebração a torna, desde logo, especialmente festiva*. Tal como não carece de grande explicação ser interdito, outrageous mesmo, o que se encontra num red-light district  Existem depois o red herring, a misleading clue ou diversion que, de tão enganosa, despista qualquer um, apreciadores de vermelho incluídos, e o red top, o berrante e excessivo tablóide.

Mas há mais. O red é ainda profusamente utilizado, sempre a propósito de coisas boas  e engraçadas**. Agrada-me que o belo tinto seja red wine, que sejam red headed aqueles cujo tom de cabelo, natural ou nem por isso, é arruivado e red-faced aqueles cujas faces são rosadas ou ficam assim quando se atrapalham. E, ainda, que o vermelho alargue as suas fronteiras de modo a cobrir certos tons mais felizes de laranja, como o brick-red, entre nós baçamente designado cor-de tijolo.

 

*Que pode bem vir a ser o dia de manhã para os inúmeros intensely-red-soccer-fans deste blog.

** Ao contrário do que sucede com outras cores, associadas a realidades tão moody como os baby-blues, tão falhas de solidariedade como os yellow dogs (fura-greves) ou tão gozáveis como os inexperientes e ingénuos  greenhorns (otários).

Comentários a “Red, Red, Red” (26)

  1. Anita visita os mortos diz:

    Ora aqui está uma coisa inovadora : um red grave yard!
    A juntar à tua lista, ocorrem-me outras expressões idiomáticas que posso colocar sobre a forma de pergunta, ou melhor dito, desafio, que é uma prática tão acarinhada por aqui. Por exemplo, qual foi a última vez que te aconteceu “paint the town red”? :)

    • Joana Vasconcelos diz:

      Essa é mesmo muuuuito boa Anita! Respondendo à tua pergunta, diria (melhor, cantaria …) como o Don Mc Lean … (it was) a long, long time ago (but) I can stil remember … ;)

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Este post será saudado nas ruas e praças de Portugal. Já hoje em Lisboa, amanhã no Porto. Ou seja, a minha vénia é o menor e mais risível dos aplausos, face à ovação universal que já se ouve.
    Não quero ainda assim deixar de acrescentar que tenho um livro lindo, capa dura, forrado a pano vermelhíssimo, a superfície externa das páginas tintada também a vermelho. o livro chama-se RED, foi escrito por Stéphanie Busuttil-César para as edições Assouline (New York). É um livro celebratório dos usos do vermelho, do seu uso simbólico aos mais iconoclastas e provocatórios.
    Talvez, tão incerto que ando, volte cá por cá amanhã para o apresentar.

    • Joana Vasconcelos diz:

      YES, PLEASE DO IT, MANUEL (pus a resposta a bold, mas peço que a imagine também a vermelho). Esse livro deve ser um sonho

    • Luciana diz:

      Por favor, por favor, traga-o, já estou de binóculo e bem deitada em minha antes referida espreguiçadeira à espreitar as tais estantes…

  3. António Eça diz:

    Prontos! Já está! Não aguentaram esperar até ao dia da consagração e desataram a abrir os armários.
    A gripe do mofo tem estas características estranhas: discursos ditirâmbicos como quadras partidárias, a vista toldada de tinta (ou tinto, conforme os vícios), e a voz de oboé afogado que hoje detectei no MSF.
    Vá lá que tudo passa em meia dúzia de meses…

    • Joana Vasconcelos diz:

      António Benedito, ora retire lá o plural a esse seu comentário! Não leu que eu sou desfutebolizada? Não percebeu ainda ao fim destes meses todos que, a ter um acesso de futebolice jamais torceria pelo Benfica e que por isso este meu lindo post evidencia o meu fair-play, a juntar a todo o vasto leque das minhas qualidades? Porque é que só pensa em bola? Valha-me Deus!

      Não sabe que hoje é Primeiro de Maio, data ideal para publicar este post vermelhinho que há tempos eu já andava para escrever? Mas que mau-feitio …

      • Manuel S. Fonseca diz:

        Joana, o homem do norte já treme como varas verdes sem ninguém lhe dizer nada. Aparece a Joana a fazer-lhe tércios de capote com o seu lenço vermelho e ele deu-lhe uma coisa azul na vista.

  4. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Gosto de vermelho e gosto que a Joana goste. E gostei deste red red red post.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Obrigada Eugénia (num lindo vermelho). Leu o comentário do Manuel lá em cima sobre o fantástico livro vermelho? Suponhamos que o livro desaparecia da estante dele (e que a Luciana nessa altura não estava a ver de binóculo porque tinha ido comer os caranguejos … ) … O que é que acha que diria o post-it que decerto MSF iria encontrar coladinho lá bem perto do espaço vazio?

      • Eugénia de Vasconcellos diz:

        Isso é que é um liiindo! desafio, Joana. Vamos pensar e fazer um post it para oferecer ao Manuel Fonseca para quando ele lhe fizer o red book post que merece?

        • Joana Vasconcelos diz:

          Bora lá! Tem que ser realmente científico, que ele gosta muito! Vamos ter de caprichar, Eugénia! What a challenge!!

          • Eugénia de Vasconcellos diz:

            Se não, crucifica-nos e com os pregos da lógica, mais os da epistemologia e assins. Tem razão, tem de ser ciência. Pura.

            • Joana Vasconcelos diz:

              Ou então uma coisa completamente ininteligível, apresentada como interessante e estimulante charada, claro, que o deixe entretido a decifrar … Qualquer coisa que o mantenha — e a nós sobretudo — longe da tal da epistemologia e, pior que tudo, dos assins

      • Luciana diz:

        Ai, ai, Joana, aproveitem amanhã que cedo vou à praia comer bem comidos os tais caranguejos e ainda um ou outro camarão a ver se melhoro meu humor…

  5. Turmalina diz:

    Não gosto tanto assim do vermelho mas gosto das Lanternas Vermelhas do Zhang Yimou, assim como do Viiolino, também Vermelho, do François Girard. Gosto mais do rosa e do lilás, assim como do verde e do azul…mas tenho aprendido como apreciar o vermelho :o)

  6. António Eça diz:

    Manuel: eu não tremo, e menos ainda em verde.
    E até gosto do encarnado.
    Amanhã falamos.
    Joana, desculpe. Já a desfutebolizei da minha agenda.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Já é um começo. Agora releia o meu post e tente, ao menos tente, um comentáriozinho desfutebolizado, de preferência simpático …

  7. António Eça diz:

    Prontos!
    Gosto imenso de encarnado…

  8. António Eça diz:

    Particularmente nas flores…

  9. António Eça diz:

    E em alguns pássaros, e nas lagostas, depois de cozinhadas…

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