
Este texto foi publicado na Alice, uma revista online a cuja narrativa não linear se adapta. Mas gosto sempre de trazer tudo aqui para casa, mesmo que seja uma simples cópia.
Já agora, o desafio da Alice é simples: a lagarta azul pergunta a cada um dos convidados, “Quem és tu?” Respondi como soube, assim:
Uma das coisas que me faz gostar da Alice é ela dar pontapés a lagartos. Ao Bill, capítulo IV, acertou-lhe valente biqueirada que o fez voar, como um foguetão, para o lado de lá da sebe. Mas se os lagartos forem lagartas e azuis, daquelas que fumam narguilé e perguntam “Quem és tu?”, já a música tem de ser fina.
“Quem és tu?” nem a Alice sabia nem eu sei, que é a cândida resposta que se deve dar a lânguidas lagartas azuis.
Eu? Às vezes sou, outras não. Lembro-me de um dia em que fui. Aconteceu em Luanda quando, antes de saber quem era, vinha do Liceu. “Aquele que ainda não sabia que era eu” ia de olhos postos no chão e não viu as nuvens. Num instante as nuvens desabaram. Que grande dilúvio! As nuvens caíram espalhando-se todas em gotas grossas. Quentes, mas menos quentes do que o quente que o chão estava. “Aquele que ainda não sabia que era eu”, molhado, tão molhado, disse: olha sou eu. Tinha 10 anos e era eu; eu era a água a correr com alegria pela camisa branca de terylene, a cheia a tapar-me os quedes* se quedes se calçassem até aos joelhos, calções ensopados. Se nesse dia a lagarta azul me tivesse perguntado “Quem és tu?”, teria respondido: eu era eu de tirar a camisa, o peito raquítico de costelas a assomar, contente de estar seminu no meio da rua, mundo sem porquê, sem puxão de orelhas, de uma felicidade aquática, quente, como um pequeno saguim sem ter de dar explicações: de aceitação panteísta se já na altura se dissessem palavrões.
Ó que mentira, estimada lagarta, se dissesse que não voltei a ser eu. Voltei, muito. Às vezes tão alegre, uma vez tão triste. E sempre um eu animal, bicho.
Quando na sala de partos, acabada de sair da nua mãe tua rainha, te puseram pinguim nos meus braços de urso, fui eu nas convulsões estremecidas, no grito sufocado, no riso que me rolava dos olhos em gotas grossas quentes muito mais quentes do que Junho em Lisboa.
Soube que eu é que era eu para responder a esse “quem és tu?” no dia da vida, mas também soube no dia de morte e morgue de meu pai. Sim, fui eu, estavas já vestido, animal frio em cima da pedra fria, a palidez maquilhada, para sempre fechados os olhos que tinham aberto os meus, e estou agora a tratar-te por tu o que nunca em tua vida fiz, cachorro sempre a seguir-te, ali de repente a uivar, eu órfão com medo de ladrar à tua morte.
Fui sempre assim, mais eu, a responder a “quem és tu?”, do que na placidez biográfica de ter nascido em aldeia beirã, ter vivido gentil infância e adolescência em Luanda, ter tão pouco estudado direito e tanto gostado de filosofia, ter dez anos servido João Bénard na Cinemateca, outros tantos e mais três Balsemão no Expresso e SIC, ou tentar agora fabricar filmes ou livros. E tudo isso é o que civilmente, com gosto e nenhuma negação, sou. Eu.
Hei-de voltar “quem és tu?” a ser eu, daquela maneira, só de emoções e bicho-do-mato. Serpente, águia, macaco equilibrista, animal sem nenhuma metafísica. Voltarei a ser eu à chuva, ao sol, de pé e deitado. Lânguido, nunca lagarto, ou sequer lagarta que fuma narguilé.
*Quedes era o que, em Angola, se chamava aos “ténis” ou sapatilhas. Corruptela da marca Keds, que era a que dominava o mercado.

















Grande Manuel! O que eu gostei disto, por aqui ter encontrado marcos tão semelhantes da ‘eu’ vida: a morte do meu pai, que me desreferenciou a pontos de pela primeira vez me ter sentido verdadeiramente sozinho — apenas comigo. Tinha 17 anos e dois dias antes tinha-me zangado com ele, o que me deixou marcas duras e fundas.
Depois, já em 79, por volta do meio dia de 16 de Novembro, deitei pela primeira vez a minha filha Joana em cima do peito nu, para a sentir, e ela procurou na aridez do meu xerófilo mamilo o que de facto só a mãe lhe poderia dar. ‘Eu’ estava ali, nela, como também estou agora nos gestos do meu filho.
E também tenho uma fatiota de lagarta azul, para datas especiais.
Gosto das semelhanças. É uma espécie de caução que mais alguém (ou muitos) seja(m) como nós. E logo tu, my friend.
ps — nada de confusões, a minha fatiota é vermelha e com asas. Aquila. Tu sabes.
Psicanalista que fui, dizia (e, ainda, por vezes, digo) que o gozo está na repetição. Pois então. Já havia lido. De novo li. Já havia comentado. De novo, aqui. Já havia gostado — do texto, ainda mais um tanto se possível de ti — e gostei agora e outra vez. O bom do dizer-se é que não se acaba. A dor do dizer-se, também, é que não se acaba.
Luciana vai ter de explicar melhor o “psicanalista que fui”. Um dia destes contamos com esse racconto. Somos todos ouvidos!
Ser todo ouvidos é uma versão esteticamente tão complicada e inquietante quanto a versão maiokovskiana ligada ao coração…quanto à história da minha vida e ocupações que tive, conto sem dúvida, quando quiseres.
Que delícia de ser..hoje ainda não sei quem sou…mas sei quem fui.
Fui a menina que corria para o meio da rua quando começava a chover nos anos em que viveu no Guarujá, que na época conservava ainda as ruas de areia batida. Não faz muito tempo, um ano ou dois, repeti-me numa rua de areia batida em Ubatuba.Saí para o meio da rua, abri os braços, levantei a cabeça, fechei os olhos e deixei a chuva me molhar.E foi bom demais…e o que fomos nunca sai de nós.
Fui também a mulher que segurou nos braços aquele pequeno ser que com certeza era meu.Não tive dúvidas e eu estava certa. Ainda hoje, passados quase 15 anos, quando o abraço tenho a mesma certeza.
Não sei, ainda, quem sou, mas sei que sou teimosa e insistente…uns dias chuto lagartas enquanto que em outros acaricio-as. Uns dias penso ter respostas enquanto que em outros vão-se todas por água abaixo. Mas que verdadeira chatice seria se não fosse assim.
Turmalina, gosto das ruas de terra batida. Terra vermelha de prefrência a pedir pés descalços. Para depois se enterrarem na carne as bitacaias que se arrancam com agulha e alfinete, cicatrizando-se como o morrão ainda quente dos caricocos. Julgo que no Brasil também há.
Sim..aqui existem muitas ruas de terra batida, mas andei muito pouco por elas.Pisei muito mais nas de areia e depois de “mocinha” não saí mais descalça por aí. Tanto que nunca tive o desprazer de conhecer o bicho-de-pé e nem o bicho geográfico.Acho que por aqui só não temos o Caricoco, mas devemos ter similares.
Estás a falar das matacanhas, Manuel?
Bicharoco estuporado, esse!
É isso mesmo, de seu BI “Tunga Penetrans”, e só a fêmea penetra…
Orcama, a fêmea é que penetra? Que aberração!… Há bichos malucos, isso sim.
Tocaram-me profundamente, Manuel, o seu texto, e António, o seu comentário, sobre o “eu” que cada um dos dois foi/é quando do nascimento da sua filha, quando da morte do seu pai.
Porque antes de ser mãe (e sabe Deus o quanto sou “eu” quando o sou) fui e sou filha de um pai absolutamente único. Que me fez quem “eu” sou quando me ensinou a velejar e a andar de bicicleta, a cozinhar e a mudar pneus, a dançar e a beber, a dar o meu máximo e a ter gosto nisso, a fazer valer, argumentando, as minhas razões, que ouvia e aceitava (as saídas à noite eram pelouro paterno, pois com a minha mãe, no way).
Com o meu pai sou sempre e verdadeiramente “eu”. Quando, ainda hoje, lhe conto todos meus projectos e os meus sonhos, o faço rir com os meus exagerados relatos, quando choro, abraçada a ele, os meus desgostos e os meus medos, quando digo “não sou capaz”, “não consigo”, “não aguento mais”. E, sobretudo, quando, depois de fazer tudo o que tinha de fazer (às vezes só mesmo para não defraudar a sua infinita confiança nas minhas limitadas capacidades), sorri e diz “bravo” e/ou “eu sabia que conseguias”.
Bem-hajam pelo tão bem que me fizeram ver e sentir a questão por este outro lado …
Joana, quantas coisas me comovem neste extraordinário blog! Corri pra telefonar pro meu, que tanto fez e faz quem eu sou e quem eu não serei. Obrigada!
Este é que é mesmo um sincero thank you. Só, mais nada.
Bestial!!!
Adoro isto.
Então já não bastava o post do Manuel e o comentário do António, Joana?! Isto daqui a pouco é uma choradeira pegada. Acha bem comover-nos assim?