Psicadélicos integrados



Capa de A Maze of Death, de Philip K. Dick

Há já uns dias que tinha uma ideia a cocigar-me as meninges, depois de ter apanhado no youtube algo que não conhecia de todo – embora conhecesse os seus autores e algumas das suas mais incríveis peripécias musicais.
A ideia tinha a ver com o contributo do chamado psicadelismo na sonoridade particular que muitas bandas bem conhecidas de todos apresentaram nos anos 60/70 – com sequelas mais ou menos bem sucedidas. O click para a transformar em algo legível chegou-me esta tarde com o Querido Morto que o Diogo, ainda que virtualmente, enterrou à força (toca a ler para perceber a relação, ou queriam a papinha toda feita?!…).
Antes de mais, o que aqui vou mostrar resulta em algo absolutamente diferente de Lust for Life ou de qualquer outro dos galopes desenfreados de Iggy Pop. Mas se os resultados práticos são muito diferentes em termos sonoros já os fundamentos disto tudo não são particularmente distintos, porque todos os seus autores utilizaram o excessivo como filtro mágico e inspirador das suas extremadas aventuras musicais. E nem sequer se pode contrapor o número de cadáveres que cada modelo produziu para estabelecer uma grande diferença nos estilos visíveis das respectivas criações – porque todos estes modelos apresentam um vasto rol de vítimas reais.
Toda a gente conhece alguma da música surgida com o psicadelismo: no final dos Sessenta Lucy in the Sky with Diamonds, dos Beatles, era o santo e a senha do reino do LSD; Syd Barrett e os Pink Floyd primitivos deixavam o mundo atarantado com o seu primeiro álbum, The Piper at the Gates of Dawn, todo ele uma imensa trip lisérgica explicada de modo mais ou menos alegórico ao ouvinte embasbacado: you only have to read the lines/ the scripty black/ and everything shines… (in Matilda Mother).
Hendrix e a sua guitarra estratosférica, os Stones (ainda com Brian Jones) e o seu Their Satanic Majesty Request, os Birds e os Canned Eat, Ten Years After ou os Moody Blues, os Yes, Génesis, e tantos outros e em tantas partes (os alemães Can, Faust e Amon Düll, por exemplo) são sem excepção testemunhos mais ou menos vivos dessa passagem, necessariamente efémera, pelo LSD.
E aqui o efémero faz toda a diferença, porque quem permaneceu intelectualmente viciado em ácido acabou por pagar pesada conta: Barrett flipou de vez; Brian Jones, Hendrix, Jim Morrisson morreram, todos eles bem agarrados à harpa do niilismo*.
Os que sobreviveram – ou seja, os que tiveram algum cuidado, em especial no que diz respeito ao intervalo entre as várias experiências – integraram-se melhor ou pior numa existência que, no entanto, já não dispensaria a plástica de alguns dos side effects mais espectaculares (e físicos) produzidos por aquelas pequenas pastilhas (microdots) que apareciam no mercado com nomes sugestivos de orange sunshine, window pane ou crystal drops.
Com tais sobreviventes o psicadelismo largou a subjectividade experimental e instalou-se definitivamente na paleta melódica dos iniciados – que entretanto deixaram de cantar as nuvens de Saturno e os Neptune games para se dedicarem ao novíssimo território da filosofia e das causas públicas (Animals e The Wall, dos Floyd de Roger Waters, são um exemplo acabado desta trajectória).
Só que em todas as regras existem excepções.
É o caso de Gong, um grupo formado em 1967 por Daevid Allen, um australiano que abandonou os Soft Machine depois de ter sido impedido de reentrar em Inglaterra. Refugiado em França, Allen juntou-se a Gilli Smyth (um londrino e conceituado professor da Sorbonne) formando então a banda psicadélica mais duradoura de sempre (embora Allen e Smyth ainda tenham fugido de França para Maiorca, como personas non gratas, na sequência do Maio de 68). Pip Pyle, Steve Hillage, Mike Howlett, Allan Holdsworth, Pierre Moerlen e Bill Bruford ajudariam depois a criar o mito Gong, que, contra as normais expectativas de sobrevivência deste tipo de associações estético-intelectuais, se mantém alive and kicking em pleno século XXI (2032 é o nome do álbum publicado em 2009).

Exemplifico Gong com duas obras muito diferentes (aconselho headphones e full-screen no segundo exemplo).
A primeira dedico-a o todas os alicianos que vivem ou frequentam o ETGM. Com facilidade perceberão o porquê da dedicatória.

You – Perfect Mistery

http://www.youtube.com/watch?v=tgohx8gNtRA&feature=related

A segunda segue direitinha para todos aqueles a quem o espigão da curiosidade perguntou alguma vez que diabo seria afinal uma trip de LSD.
É claro que este som e estas imagens (onde a espaços surge o insuspeito Timothy Leary, conhecido por muitos como o papa do LSD, no seu filme How to operate your brain) não permitem a percepção dos diferentes estados de consciência e das complexas lutas de personalidade que o ácido lisérgico propõe – embora quem o tenha experimentado possa aqui entrever certos padrões. Tudo o que a experiência permite assegurar é que estes nove delirantes minutos conseguem no mínimo invocar alguns dos cenários a que as cerca de 10 a 30 horas de viagem submetem o sujeito – um sujeito por vezes bem assustado, mas certamente ainda mais abismado com os extraordinários territórios que assim consegue vislumbrar.

Flying Teapot – com excerto do filme How to operate your brain, de (e com) Timothy Leary

Nada há aqui de apologético: embora não mate objectivamente, o LSD é uma droga poderosíssima e muito perigosa em termos mentais, apenas comparável a coisas menos conhecidas do público, como a psilocibina dos cogumelos psylocibe mexicana ou a mescalina dos cactos peyote.
Só posso afirmar que, debaixo do sol, nada conheço que seja exclusivamente mau.
Ou bom.

*Termo utilizado por Philip K. Dick, em Valis, para caracterizar o estado mental dum potencial suicida


Comentários a “Psicadélicos integrados” (4)

  1. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Sempre tive pavor.. a mera possibilidade de um imprevisível resultado de ser, onde se inclui um irreconhecível ser, do lado de lá do túnel da experiência que se pretende recreativa e/ou coadjuvante, corresponde à minha ideia de pesadelo acordado.

    Gostei muito deste post. Fez-me pensar no Hunter S. Thompson. Escreve bem, tão bem, mas essa voragem consumiu-lhe cedo, creio, a obra que esteve ao alcance do seu talento e lhe falhou completamente.

  2. Alberto Nogueira diz:

    O LSD coloriu a música dos anos 60/70 tornando-as décadas quase inultrapassáveis em criatividade e qualidade, mau grado as vidas que isso custou. Acho mesmo que o futuro nos reserva uma droga equivalente mas sem quaisquer danos colaterais.

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Eugénia, a questão não estará tanto no «irreconhecível», mas antes no que surge desvendado — por vezes uma grande surpresa. Em LSD não há biombos mentais, eles desvanecem-se aos olhos do próprio. Obviamente, assim de repente pode ser muito perigoso — e daí as vítimas. O resultado é diferente quando há mais pessoas a fazer os mesmo. Sozinho os fenómenos são outros e podem induzir o experimentador (desreferenciado) em disparates do género «posso voar»…
    É sempre perigoso.
    Alberto, talvez isso aconteça — mas, contradizendo o que disse acima, o perigo também faz parte da experiência. Na verdade há «queima» de neurónios. Na ressaca sente-se que algo nos mexeu na cabeça (suponho que será a transferência de competências para uma zona do cérebro não afectada), e há mesmo quem diga que iso é o melhor da trip…
    Tudo muito complexo. Gostava de ouvir o prof. António Damásio falar disto.

  4. Turmalina diz:

    Eu tive gratas experiências de alteração de estado de consciência, sem perdê-la por completo e sem uma única droga.Aliás nunca provei LSD, nem chá de cogumelo ou outro psicotrópico do gênero.Fazíamos exercícios de mentalização induzidos por sons e cores.Como eu sempre tive uma enorme capacidade de abstração, eu ia longe, sem nunca sair do lugar.Daí que compreendo a pessoa que precisa de um agente externo para atingir tal estado. E já conheci muitos que se aventuraram justamente por causa do perigo que a experiência pode proporcionar, mas aí já é uma outra conversa.

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