O Milagre



A mãe de S. nasceu nos primeiros anos da 2ª Grande Guerra. Mais coisa, menos coisa. Na Bélgica. Ruiva. Judia. Coisas de má sorte, naquela época. Judia porque sim, ruiva porque dava nas vistas. Coisas de má sorte, em 1940.


Ao avô de S. nunca lhe conheci o nome. Imagino que em Auschwitz ou em Buchenwald lhe tivessem emprestado um número e muitas vezes me perguntei se lhos davam de forma sequencial até chegar a um pavoroso seis-milhões-e-qualquer-coisa ou se os redistribuíam de cada vez que um algarismo perdia o corpo. Para o efeito tanto faz. O que para aqui verdadeiramente importa é que o avô de S. percebeu, com aqueles percebimentos muito angustiados que só percebem os que vão morrer, que a sua hora ia chegar. Intuiu tudo. O almoço interrompido por violentas pancadas na porta. O homem de farda e as botas altas. A sua própria morte estampada no rosto da mulher e depois o comboio, comprido de tão fatal, rumo a parte nenhuma. E as filhas. A mãe de S. e a irmã mais nova. Ruivas, vá-se lá saber porquê. Apartadas do número que viria a ser o seu pai e perdidas da doçura austera da avó de S. que tão bem conheci, noutras paragens e noutros retratos. Intuiu sobretudo as mãos de meninas. Últimos e derradeiros tesouros. Segredos do tamanho do Mundo que as ligariam entre si e através de si a tudo o que ali brutalmente se fechava, naquele almoço de família de 1941. Intuiu tudo e ordenou que as tatuassem. Uns símbolos pequeninos cravados nas coxas. Gémeos e muito, muito azuis. E depois foi o que se sabe. O comboio, o campo, a escuridão, e o número que o servira a ele e que, imagino, passou a servir outro e depois desse ainda outro.


No dia da fotografia iam de férias. A mãe de S. e a irmã mais nova. No Verão, o orfanato mudava-se para o campo. Era já 48, a vida fingia-se normal, e os vestidos, podem vê-los, esvoaçavam, ligeiros, como tinham esvoaçado todos os vestidos, de todas as meninas, todos os verões, antes da Guerra. E ele, o avô de S., que era já coisa nenhuma, talvez a tenha despertado do seu sono triste de mãe sem filhas. Talvez isso. Talvez outra coisa a que prefiram chamar sonho ou simples coincidência. O que é verdade, uma luminosa verdade, é que a avó de S. ouviu os gritinhos abafados das tatuagens azuis. Iguais, muito iguais, mesmo por baixo da borda dos vestidos.

E se me disserem que invento, juro-vos, como outros juraram antes de mim, que não. É o único milagre em que acredito. Contou-mo, muitos anos mais tarde, o meu amigo S.

Comentários a “O Milagre” (9)

  1. Turmalina diz:

    PN, seu texto é uma poesia em prosa. Lindo!!! As tatuagens azuis ficaram extremamente poéticas.

  2. Orcama diz:

    É, inscritas a vitríolo azul…

  3. Luciana diz:

    Pedro, cheguei a este cemitério no rastro de suas palavras. E, ainda, sempre que as encontro assim, como estão aqui, eu sei bem porque vim. Tocou-me que fossem ruivas. E que a vida, por todo canto e em tantas épocas, finja-se de normal.

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Gostei dos percebimentos do avô de S. Li recentemente um romance romeno, de Norman Manea (de quem Philip Roth muito gosta) e chamar-lhe romance é tão fraco percebimento, porque é só a catártica lembrança de uma vida de judeu, menos ruivo. No romance era raro perceberem — por ser tão pouco romance?

  5. Joana Vasconcelos diz:

    Que bonito, Pedro, o final tão inesperado quanto feliz desta história. Encantador o detalhe das meninas ruivas.

  6. antónio eça diz:

    Ganharam vida, as suas meninas, Pedro.
    É mesmo caso para perguntar se não a ganharm realmente, num facto específico, não inventado.

  7. vasco grilo diz:

    Magnifico Pedro! Por vezes gostaria que existisse um blog dedicado exclusivamente a’ decada de 35–45…

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