O meu enriquecedor passatempo

Este post da Teresa sobre lutas de galos em Timor fez-me lembrar um outro passatempo, bem menos sangrento e a vários títulos enriquecedor, que muito me divertia em Macau, nos anos em que por lá passava as minhas férias de Verão todinhas – as corridas de galgos. Era à quinta-feira à noite e era sempre um gozo. 

A começar pela simples ida até ao Canídromo. Porque o dito ficava do outro lado da cidade, era preciso ir de taxi. E explicar ao motorista para onde pretendíamos ir, articulando esforçadamente a correspondente expressão cantonense, que integrava o nosso  muito limitado léxico. Às vezes a coisa resolvia-se logo à primeira, de forma ortodoxa. Mas com demasiada frequência não (devíamos ter má pronúncia). O impasse linguístico era normalmente ultrapassado pela imitação, tão fiel quanto possível, do ladrar de um cão – que motivava a pronta gargalhada e a imediata compreensão do nosso interlocutor.

Já lá dentro, era um espectáculo único. Multidões de aficionados e, sobretudo, de apostadores. A enorme pista, a lembrar as de ateltismo, onde os cães corriam, perseguindo um objecto que zumbia, as coloridas baias onde aguardavam o tiro de partida, os potentes holofotes, os altifaltantes que incessantemente debitavam informações e alertas sobre a série que se seguiria, o relato da corrida em curso, e, nos tempos mortos, os últimos êxitos pop produzidos em Hong Kong. Os galgos competiam em séries que se sucediam ao longo da noite. Antes de cada corrida, os campeões eram exibidos numa pequena cerca junto às bancadas, acompanhados pelos seus treinadores, que os seguravam pela trela e que, consoante o caso, os tranquilizavam ou acirravam. Tinham nome e número e eram muito diferentes entre si, tanto na cor (do preto aos vários tons de castanho, passando pelo sempre fabuloso cinza), como na altura e  envergadura.

Fomos lá parar por mera curiosidade. Só mesmo para ver como era. Mas a verdade é que aquele ambiente de cor, entusiasmo e competição contagiava. E rapidamente deu para perceber que grande parte do gozo daquilo residia em apostar e torcer, aos gritos, pelo “nosso” cão, na esperança de que o dito ganhasse a corrida e nós umas patacas. Estávamos, afinal, na terra em que toda e qualquer situação era pretexto para uma boa aposta – fosse o mais insignificante acidente de tráfico (em que os mirones esperavam ansiosos que a polícia chegasse, para determinar o culpado e, por tal via, o palpite vencedor), fosse o iluminar, ao entardecer, da antiga ponte da Taipa (que levava vários interessados a juntarem-se por ali à espera de comprovar qual deles acertara no número de lâmpadas que, nesse dia, estavam fundidas).

Não foi um percurso fácil, este meu de apostadora. Comecei por me basear numa atenta observação dos cães: descartando os muito gordos e os muito raquíticos, decidia-me pelos que pareciam conjugar envergadura com agilidade e tinham atitude de vencedores. Não correu bem. Atravessei depois uma fase (que agora reconheço problemática) em que apostava aleatoriamente – conforme a cor (cinzento), o número (5 ou 7), a cor da faixa que identificava o cão (vermelha). Ganhei uma vez – e muito, porque o bicho, oficialmente um looser, se revelou afinal uma fera veloz – mas perdi em todas as outras. Até que, cansada de desperdiçar as minhas contadas patacas, descobri a via para o sucesso, que logo partilhei com irmão, primos e amigos. Aquilo pululava de apostadores experts, munidos de jornais desportivos chineses, os quais antecipavam as séries da noite e forneciam — suspeito – dados relevantes sobre os canídeos. Os ditos experts, depois de os mirarem lá no paddock, dirigiam-se aos guichets, onde apostavam. E nós ali à coca. No derradeiro minuto que antecedia o encerrar das apostas, corríamos aos mesmos guichets e explicávamos ao atónito funcionário, numa caótica e apressada mistura de inglês, cantonense e linguagem gestual que queríamos apostar no mesmíssimo cão que aqueles senhores todos. Infalível, esta técnica do follow their dog. Não se ganhava muito, mas ganhava-se quase, quase sempre. E isso, era já então, continua a ser, para mim, a most significant part of the fun

 

Comentários a “O meu enriquecedor passatempo” (26)

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Joana!… Que escândalo, não a fazia jogadora/apostadora, que revelação enorme!
    O meu pai dizia-me que em Macau, nos átrios dos hotéis, havia sempre gente a apostar no elevador que chegava primeiro. É um bocado demencial.
    Mas eu também gosto imenso de jogar.
    Aliás tenho um post engendrado sobre uma das mais infrutíferas e flutuantes partidas de poker da minha vida.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Pois é, António, as coisas que se revelam e se descobrem neste extraordinário blog …

      E sim, também gosto imenso de jogar: culpa, suponho da genética e da acção concertada do meu avô e tios maternos, que sempre jogaram e que, tinha eu 9 ou 10 anos, numas férias de Verão na Beira Alta, faltando-lhes um parceiro de jogo, me ensinaram sumariamente as regras do king e me sentaram à mesa com eles. Seguiu-se o poker. Ainda hoje, os épicos almoços de Natal e de Ano Novo em casa da minha avó são seguidos de intensivas, renhidas e divertidíssimas tardes de poker com tios e primos (e mais um outro consorte mais afoito, que invariavelmente acaba “esfolado”) …

  2. Anita visita os mortos diz:

    Claramente não ficaste milionária. Mas também não ficaste eternamente presa à adrenalina da aposta. Pelo menos de um retorno. Mas o gozo da antecipação de um resultado, de uma reacção e a felicidade de uma vitória justa, ainda que com boleia da sorte, são traços que te conheço. E que aprecio e desfruto. Quanto aos galgos, sou alérgica. Uma Cruella DeVille em potência :)

    • Joana Vasconcelos diz:

      Hello Anita, que bem me conheces!

      Eu é que não te conhecia essa faceta … mas a referência à Cruella deixou-me confusa … tu não gostas mesmo de galgos (o que me parece no mínimo insólito … nem dos do Sousa Cardoso?) ou sonhas com um casaco de pele dos ditos (o que me parece super-hiper-mega gótico, muito além da Cruella …)

  3. Eugénia de Vasconcellos diz:

    FABULÁSTICO!

  4. Luciana diz:

    Passa-se dois ou três dias a cuidar da própria vida e não das mortes alheias e, voilà, já me perco! Mas, de qualquer forma, não poderia dizer outro que não:
    As coisas que eu aprendo neste extraordinário blog!

  5. teresa conceição diz:

    Que descrição tão gira, Joana!

    Nunca senti qualquer apetite por apostas. Se tivesse experimentado, talvez as percebesse melhor.
    O seu relato ajuda muito a perceber a emoção.

    E não se afasta assim tanto do entusiasmo dos timorenses com os galos. Só que aquele era um ringue pequenino de aldeia e ali as plumagens estavam mais na arena do que fora dela…

    • Joana Vasconcelos diz:

      Teresa, acho que o gosto pelo jogo e aposta tem mais a ver connosco, com a nossa maneira de ser, do que com as concretas circunstâncias ou os contextos … Veja só o turbilhão de memórias que as suas belíssimas fotografias e o seu texto foram despertar em mim … e depois no António Eça … E apesar de a ideia da luta de galos me causar alguma certa impressão, não tenho dificuldade em ver-me, ao fim de alguns minutos, a aproximar-me do ringue e a tentar indagar qual seria o preço mínimo da aposta e a quem haveria de me dirigir para arriscar a minha sorte … não iria perder uma tal oportunidade, de participar em pleno num tão único e extraordinário evento …

  6. Manuel S. Fonseca diz:

    Dois comentários singelos que são afinal duas perguntas:
    1. Nos casinos, em Macau, não há um jogo com botões (ou fichas parecidas com botões) que é terrível na simplicidade de, havendo uma multidão de botões em cima da mesa, no final ficarem só 1, 2 ou 3, e é nisso que o pessoal aposta? A Joana sabe como é que se chama?
    2. Viu um filme tardio do Orson Welles, do próprio e com o próprio, intitulado Immortal Story e cuja acção se passa em Macau, que é a coisa mais sentimental que o gigantesco Welles filmou? É um filme pequenino (menos de 90 minutos acho) mas com uma poética que toca quem viveu em Macau.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Manuel,

      1 — Lembro-me de ouvir falar nesse jogo, mas nunca vi e não sei como se chama: as minhas passagens pelos casinos eram meteóricas, normalmente a meio da tarde, quando, vagueando com o meu irmão pelas ruas de Macau, constatávamos não ter dinheiro suficiente para lancharmos ambos no Mc Donalds (que ainda não viera para Portugal, na altura), pelo que entrávamos e em cinco minutos, na roleta, faziamos a aposta mais singela (big or small, black or red) e, consoante o a sorte do dia, ou lanchávamos abundantemente ou ficávamos sem lanche … (os meus pais ainda hoje não sonham que isto alguma vez sucedeu …)

      2 — Não vi, mas já tomei nota e vou ver.

      Macau fez parte da minha vida durante quatro anos e foi um caso absoluto de paixão desde o primeiro minuto. Foi lá, nas minhas deambulações, no muito que vi, ouvi e aprendi por lá — no contacto com uma cultura e uma civilização tão diferentes, mas também com o melhor e o pior da natureza humana, potenciados pelo ambiente de um lugar em que tudo parecia execesivo — que verdadeiramente a minha cabeça se abriu. Teria dedicado todo o post das maçãs de Newton a Macau, não fora o limite ter sido estabelecido nos 18 anos e Macau ter começado aos 19 … Há 21 anos que lá não vou e não sei se voltarei: dizem-me que a Macau que eu conheci desapareceu por completo e que daquilo de que ainda falo já não existem nem vestígios …

      • Manuel S. Fonseca diz:

        Já descobri. O jogo é o fantan e na mesa podem ficar de 1 a 4 botões (ou pequenas fichas). Mesmo quando ainda há em cima da mesa umas dezenas de fichas, há um pessoal que já está a pagar por ter percebido que perdeu ou ganhou porque no final só vão, por exemplo, ficar 2 botões. Como raio é que eles só por olhar de relance sabem é que eu gostava de descobrir. E julgo que o Marlon Brando escreveu um romance com esse nome. Mas acho que não há filme (PMS where are you?). Oh yeah.
        Ah, a Immortal Story é com o OW e com a Jeanne Moreau e tenho uma memória tão “prazeirosa” do filme (é de 68 e vi-o em Luanda no começo dos anos 70) que me recuso a voltar a ver-lhe os 60 ou 70 minutos que dura.
        Joana, visitei Macau duas vezes, ambas depois do seu turismo de Macdonalds, e da última vez nem queria acreditar na visão lasveguiana que encontrei.

  7. António Eça de Queiroz diz:

    Há o NIM, com uma versão esquisita em ‘O último verão em Marienbad’.
    Que ninguém tente jogar isso comigo — perderá sempre…

  8. António Eça de Queiroz diz:

    Manuel: em ‘O último verão em Marienbad’ há um jogo desses. Desde que o aprendi ninguém me ganha.

  9. Marta Costa Reis diz:

    Joana, lembro-me bem dos galgos de Macau, embora nunca tenha apostado. Estive lá com 15 anos e também me apaixonei. Quis lá voltar antes de passar à China e confirmo que desapareceu…

  10. Diogo Leote diz:

    Joana, veja lá se se lembra do nosso colega de curso inveterado jogador que, quando entrava na praia, a primeira coisa que lhe ocorria era… “carreirinhas a dinheiro”!

  11. Paula Guilherme diz:

    Olá Joana;

    Mais um texto fabuloso, parabéns!!!

    Não me surpreendeu a tua pequena e curta faceta de “apostadora”, depois do que descreves, deve ser um espectáculo simplesmente fabuloso e mto emocionante.
    Emocionante tb é a parte da aposta, aliás como é qualquer aposta que se faça em qualquer jogo…., o tempo que decorre até sabermos se ganhámos ou não é de facto um pequeno tempo que se transforma numa eternidade com mtas emoções à mistura, no final existem sempre dois grandes sabores, o de ter ganho algo, em que o pensamento diz logo “excelente, fantástico, irei arriscar novamente!” e o contrário que naturalmente vem logo a simples frase “da próxima é que é!” e o acto de voltar a apostar poderá ser inevitável em ambos.

    Nestas duas facetas às quais é necessário ter um discernimento mto alto para sabermos quando é tempo de Stop, faz-me lembrar a minha última vez que estive no Casino do Estoril, depois de assistir a um espectáculo e como era o dia do meu aniversário, decidimos ir jogar nas slot machines, digo de passagem são máquinas que me fascinam….

    É sempre fascinante, entrar naquele mundo de fantasia, mas ao mesmo tempo tão real e tão degradante!!!

    Observar as diversas pessoas que estão em frente à slot machine, agarradas ao botão com um olhar ansioso de cada vez que a máquina gira as diversas figuras, em que ao ir parando uma por uma, a face dessas mesmas pessoas transforma-se, perante o resultado positivo ou negativo….

    Observar as pessoas que se encontram com o copo de bebida e de cigarro na mão, não desviam um só milésimo de segundo o olhar do ecran, talvez com receio de perderem algo, que nunca percebi bem o quê!!!!

    Observar com tristeza a degradação de certas pessoas que é bem demonstrada além do seu olhar pelos seus gestos (deixarem as chaves na máquina para mais ninguém jogar, enquanto se afastam por escassos segundos, ou então pelo olhar de desespero que lançam quando alguém ganha algo e obviamente a máquina faz o tradicional tlim, tlim, em que o olhar diz bem “porquê a ela e não comigo!!!???”).

    Sabemos bem que já se perderam mtas fortunas no jogo, isto porque não souberam colocar o sinal de Stop!!!

    Foi neste panorama que troquei uns 25 EUR e fui de fila em fila a ver se encontrava uma máquina disponivel para puder sentir todas as emoções do jogo e obviamente a ver se ganhava alguma coisita…..

    Depois de encontrar uma e de colocar o dinheiro na máquina iniciei o meu período de jogadora que foi um período mto, mto curto, porque ao final de algumas jogadas a máquina mais parecia uma jukebox completamente enlouquecida de tanto barulho que fazia, eu pensei logo “já avariei a máquina!!!”, não querendo dar parte fraca perante os expert à minha volta, olhei para ambos os lados e sorri, passado uns minutos é que vi que realmente tinha ganho e não foi qualquer coisita, foi o JACKPOK da máquina!!!!!

    Eu nem queria acreditar, eu e os expert à minha volta, pois a expressão da face deles era simplesmente “como é possível!!!” hahahahahaha

    Claro que eu nem sabia como tinha que fazer para que o prémio fosse pago…..

    O expert do meu lado direito que se apercebeu da minha atrapalhação disse “Daqui a pouco já lhe trazem o dinheiro, hummmm, se tivesse apostado o triplo teria ganho xxx”.

    Esta destreza de facilmente fazer contas de quanto poderia ter ganho se tivesse feito outro tipo de aposta, deixou-me a pensar “Quanto tempo passará esta pessoa aqui!!!???”

    Passado algum tempo veio ter comigo um empregado com uma bandeja em punho em que estava tapada com um pano, não querendo mostrar a minha parte de leiga no assunto, levantei o pano e retirei o maço de notas, assinando o papel de entrega do prémio de imediato.

    Depois virei-me para a máquina e comentei com as pessoas que estavam comigo “Agora vamos acabar de gastar os 25 EUR e depois vamos embora.”

    E foi assim uma das minhas raríssimas visitas ao Casino, mas esta foi com mto sucesso!

    Um beijinho grande
    PG

    • Joana Vasconcelos diz:

      Paula, sê muito bem aparecida aqui no cemitério! Mas que extraordinária história a tua … Fiquei realmente impressionada: confesso que sempre suspeitei que aquelas máquinas só serviam para engolir moedas e que nada mais acontecia. Mas a verdade é que, gostando eu de jogar e apostar (como já aqui confessei), acho o ambiente dos casinos um bocado sinistro, seja nas máquinas, seja nas mesas …

  12. Olá Joana!

    Muito boa a sua história. Gostei muito da descrição :)

Comentar