Do outro lado da linha há um silêncio humedecido:
— Vais para Timor?
— Vou, pai. Não posso faltar ao grande acontecimento. Já perdi demais. Agora é a História a nascer. E é a sua história. Quero fotografar outra vez as suas fotografias, 40 anos depois. Acha que vou conseguir encontrar os sítios?
Eu a distraí-lo com retórica. Percebo que se senta. Não é só pela convocação de recordações. Sei que sou uma filha imprópria para pais pacatos. Além de preferir nas férias sítios que as agências de viagem não recomendam, já suportaram comigo um catálogo de sarilhos no Médio Oriente, uma ameaça terrorista no Níger, dois golpes de estado na Guiné. Ía sempre em missão de paz, saía (quase) sempre emissão guerreira. Mas foi em trabalho, papá, que podia eu fazer?
O pai suspira. Entende que esta viagem também será trabalho, não lhe retiro a ilusão. Quero que se concentre na minha vontade de lhe oferecer uma memória refrescada a cores. E pela primeira vez, agora, conta-me alguns episódios da experiência timorense. No primeiro grupo de militares destacados, em 1959. Recebem um obscuro título lírico: Companhia de Caçadores? Mais de dois anos em Díli. Aileu, Ermera, as montanhas. O que escolhe para relatar são encontros com nativos, missões de charme, oferendas, jangadas de pescadores, marchas na floresta. Como se abrisse um poço de ternura. E memórias turísticas.
- Mas de tudo, sabes, não há nada mais bonito do que…
- Eu sei, pai, eu lembro-me.


















Que bom, contou. E é verdade, as primeiras tropas que chegam a Angola, quando a guerra estoirou como um feio fogo de artíficio em 61, foram Companhias de Caçadores.
Aqui nunca tivemos guerra de verdade e o único risco real que corremos é o de sermos assaltados. No máximo podemos ser vítima de alguma bala perdida.
O que acho lindo neste seu texto em especial é a sua relação com seu pai. Meu pai orgulha-se muito de eu ter seguido a mesma profissão que a dele, mesmo sem nunca ter confessado. Afinal ele é de uma época em que as mulheres deviam estudar mas para cuidar da casa e dos filhos.As meias palavras dizem tudo…
Continuo me encantando com o seu Ramelau :o)