Já aqui o disse: tudo o que conheci da guerra foram os intervalos.
Não disse: E as fotografias (um outro nome para intervalos?)
Tão pequeninas que quase era preciso lupa para reconhecer as pessoas nelas. Chamava-lhe as provas. Mais pareciam pistas, traços de passagem. Algumas em álbuns, outras em envelopes, raras indicavam lugar ou data. Grupos fardados, companheiros de bicicleta, ele rodeado de meninos, uma igreja com mar. Há uma com duas mulheres de vestidos floridos, a minha mãe enervava-se sempre que a descobria repetida em mais um envelope. “Guarda essa, ainda se perde…” Atrás, a tinta permanente: Aileu, 1960. Nessa data ainda faltava muito para se casarem. Mas os ciúmes conhecerão datas?
Naqueles dias, eu pegava nos quadrados a preto e branco e fazia um aeroporto e este quadrado aqui já era um avião a levantar, e outro era um pato e outro um lago, e mais outro um avental para uma menina desenhada a lápis.
Não havia quadrado para a frase mais repetida, “O amanhecer no Ramelau foi das coisas mais bonitas que vi na vida”, mas é aquele que lembro mais nítido. Letra a letra, para cada uma um degrau de sol sem fim à vista. As outras eram fotografias sem legenda, o Ramelau era uma legenda sem fotografia.


















Impressionou-me tanto o Ramelau e fiquei tão encantada, que fui procurar saber mais.
Li que este é o nome de uma montanha no Timor Leste para onde vão os espíritos dos nativos, depois da morte.
Sem sombra de dúvidas, o seu Ramelau é infinitamente mais bonito :o)
Essa sua é uma descrição bonita, Turmalina, acho que muito mais do que a que eu poderei fazer.
Mas ainda não mostrei o meu Ramelau, esta é apenas uma introdução a mais uma saga,
temo que ramelausa. Que quis contar nesta altura por causa de um aniversário.