O amanhecer no Ramelau # 01

            Ele fica quieto, numa terra que é só dele, horizonte no olhar. Tantas vezes. ­Conheço-lhe desde sempre este olhar mudo. O mar em frente protege-o: quem não se embala a olhar o mar? Mas às vezes o mar em frente é de pinheiros ou laranjeiras ou hera na parede. E o mesmo olhar.

          Da sua involuntária geografia viajada nunca falou senão por episódios anedóticos e definitivos. Tantas vezes olhei os mapas a desenhar sem caneta as linhas por onde os navios deviam ter passado. E os portos onde o teriam deixado.

          Tentei adivinhar-lhe os passos de botas cardadas, as pernas camufladas, os medos. Ele dizia sempre: a guerra não é para meninas. E tudo o que conheci da guerra foram os intervalos.

          Desses nunca esqueci um olhar nascente e a frase repetida:

         — O amanhecer no Ramelau foi das coisas mais bonitas que já vi na vida.



Comentários a “O amanhecer no Ramelau # 01” (1)

  1. Vasco Grilo diz:

    Olá Teresa!

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