Mapa Cor de Rosa

A história tem irritantes manias. Uma das principais é teimar em repetir-se. O Portugal de 1890, triste, pobre, inculto, endividado e politicamente degradado, alimentava sonhos demenciais de grandeza cor-de-rosa. Sem meios militares, sem meios financeiros, sem população que sequer lhe alimentasse a quimera, sonhou juntar Angola à Contra-costa e pintar dessa cor o mapa do seu fantasioso futuro. José Sócrates, intérprete aggiornato de uma espécie de segundo rotativismo português, também sonhou um país cor-de-rosa. Sem dinheiro a que pudesse chamar seu, sem um povo a que pudesse chamar educado, sem uma justiça que o não envergonhasse, sonhou amanhãs que cantam feitos de torres eólicas, de choques tecnológicos, de TGV’s e de milagrosos computadores azuis distribuídos a torto e a direito.

A deriva de 1890 acabou como se sabe. A velha Inglaterra, fidelíssima protectora do Reino, falou grosso e o Governo de José Luciano pôs o rabo, ou melhor o mapa, entre as pernas. Daí ao apodrecimento final do regime foi um tirinho. Infelizmente, foi-o, como se viu, no sentido literal do termo. A deriva cor-de-rosa de José Sócrates vai acabar mais ou menos da mesma maneira. A potência protectora é hoje outra mas voltou a falar grosso. A ordem, humilhante mas sensata, para que a piolheira se deixe governar é acatada com igual afinco. E daqui até à derrocada fatal pode ser que também não falte muito. Tanto mais que, no seu estertor final, o regime (de que o PSD sempre foi e continua a ser um importante pilar) persiste na sua suicidária caminhada. Tal como em 1890, metemos, uma vez mais, o rabo, neste caso o PEC, entre as pernas. Mas, e este é o verdadeiro drama, em 2010, fizemos questão de o fazer da pior maneira.

De facto, o ultimato do século XXI cumpre-se castigando os pacóvios do costume. Em vez de aproveitar o humilhante ensejo para, culpando a odiosa Europa, tirar da gaveta as já tão estafadas (de tão prometidas) reformas estruturais e tratar de controlar a despesa pública, optou-se, mais uma vez, por adiar o problema. É bem verdade que, a muito custo, lá se cuidou (provisoriamente) do que resta das nossas finanças. Mas não é menos verdade que, assobiando para o lado, regeneradores e progressistas, perdão, PS e PSD, lá enterraram, mais ainda, o que resta da nossa economia. Que os primeiros o façam, ainda vá que não vá. O ar de fim de festa é tal que, do seu ponto de vista há, de facto, pouco a perder. Que o PSD de Passos peça desculpas em vez de impor que se trate a doença sem acudir apenas aos sintomas, pode bem ser que o poupe a estragos eleitorais imediatos. Mas não é grande augúrio para a saúde do regime.

Era Eça de Queiroz quem dizia, em Agosto de 1891, «eu creio que Portugal acabou». Não tenho queda, e muito menos arte, para tão definitivas declarações. Mas que isto se arrisca a acabar também muito mal, lá isso arrisca. Resta-nos esperar que as coincidências se fiquem por aqui e que, pelo menos, nos poupem aos tiros.


Publicado na Visão a 20 de Maio de 2010 (amanhã, portanto)

Comentários a “Mapa Cor de Rosa” (5)

  1. Portugal continua ainda a ser a “promessa do que há-de vir”. Creio que ficamos só com a promessa. Quanto a Sócrates, ficará na história como mais um coveiro do país. E não fica sózinho…

  2. José Alves da Silva diz:

    A bem da Nação e dos actores deste novo regabofe esperemos que não acabe tudo como em 19 de Outubro de 1921, com a mesma sorte do António Granjo.

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Eu sei que somos um pouco diferentes dos demais, mas o pessoal está danado e há muitas armas por aí. Vão haver conflitos civil-regionais por todo o mundo, nos próximos anos de crise. Com picos marcados por momentos indetectáveis na navegação à vista — que é o que se está a fazer agora.
    Não se pense que a questão depende apenas de nós.
    Muito pelo contrário, depende de todos.
    E isso até pode agravar o problema.
    Estarei muito errado, Pedro?

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