Leituras para não ter de ir à Praia (1)

Em casa dos meus avós, em Ponte de Lima, existia um livrinho pequenino chamado «Código do Bom Tom». Nunca cheguei a lê-lo (eu sei que isso explica muita coisa).  Foi gesto de pueril revolta. Achava que, anos mais tarde, haveria de escrever um tratado chamado «Da importância do implícito. Uma interpretação marxista das regras de boa educação». É claro que nunca cheguei a escrever o livro mas também nunca mais esqueci o Código (o do Bom Tom, não o de Vinci). Mas divago.

Tudo isto são desculpas para vos confessar que acabei de ler «A História da Arte» de Ernst Gombrich. É uma espécie de «Código de Bom Tom» para petulantes como eu que acham que fazer boa figura é discorrer sobre Brunelleschi, entre duas cervejas, numa festa de Verão. Ou que anseiam encontrar a oportunidade certa para poder dizer «que manhã tão extraordinariamente pontilhista, não lhe parece?». Divago, mais uma vez. A História é um clássico, no sentido em que o Calvino do Manuel os definiu. De uma erudição feita luminosa simplicidade. E eu, que destas coisas sei muito menos do que gostaria, tenho-me fartado de aprender. Pesa alguns 3 kgs e é a minha primeira recomendação de Leituras para a Praia que não são mais do que  boas razões para não ter de lá pôr os pés. Convirão, em qualquer caso, que em mais nenhum livro do Mundo se podem aprender coisas tão estivalmente úteis:

Retrato de Hesire, ca 2778 — 2723 a. C.

«Tudo tinha de ser representado a partir do seu ângulo mais característico. (…) A cabeça era mais facilmente vista de perfil, de modo que eles [os egípcios, who else?] a desenhavam lateralmente. Mas se pensarmos no olho humano, é como se fosse visto de frente que habitualmente o consideramos. Portanto um olho de frente era implantado na visão lateral da face. A metade superior do corpo, os ombros e o tronco são melhores vistos de frente, pois assim observamos como os braços se ligam ao corpo. Braços e pernas, porém, vêem-se com muito mais clareza de lado. Essa é a razão pela qual os egípcios nessas imagens, nos parecem tão planos e contorcidos. Além disso os artistas egípcios tinham dificuldade em visualizar um pé ou outro a partir do exterior. Preferiam o contorno definido a partir do dedo grande. Portanto, ambos os pés são vistos do lado de dentro, e o homem representado no relevo parece ter dois pés esquerdos.»

Na primeira ocasião vou-me sair com esta: A menina não acha que, no fundo, no fundo, o cubismo de Picasso e Braque, já está todo no Antigo Egipto?


Comentários a “Leituras para não ter de ir à Praia (1)” (19)

  1. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Bonne chance para a manhã pontilhista e afins de cubismo egípcio.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Pedro, estou cheio de inveja, assim em livros grandes e de peso, só tenho a História do Janson que a Gulbenkian edita. Já está velhinha e desbotada, aliás. Mas o que eu queria mesmo ler era a sua interpretação marxista das regras da boa educação. Escreva aqui, no blog, o primeiro capítulo esta semana.
    ISTO É UM ABAIXO ASSINADO E CONTO COM OS RESTANTES AUTORES PARA FAZER LOBBY.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Joana Vasconcelos gosta da ideia de Manuel Fonseca
      Joana Vasconcelos subscreveu o abaixo assinado iniciado por Manuel Fonseca
      Joana Vasconcelos pertence agora ao grupo Queremos saber tudo sobre a interpretação marxista das regras da boa educação segundo Pedro Norton

      • Eugénia de Vasconcellos diz:

        Joana Vasconcelos está offline?

        • Joana Vasconcelos diz:

          Não. Temos de pedir ao Francisco que nos arranje umas bolinhas com luzinhas. Vermelhas, claro. Para controlarmos quem está e quem não está à coca, quero dizer online e offline e essas coisas

          • Manuel S. Fonseca diz:

            Ó Joana, isso é que não. A clandestinidade é fundamental. É bom vir aqui, pé ante pé, ver sem ser visto, ouvir sem ser ouvido. Nada de bolinhas, nem vermelhas.

            • Joana Vasconcelos diz:

              Concordo. Mas só em parte. As bolinhas podiam ser optativas. Quero dizer, só ligava a bolinha quem quisesse.

      • Pedro Norton diz:

        Manuel, Joana, pois eu não vos digo que não cheguei a escrevê-lo?

        • Manuel S. Fonseca diz:

          E então?! é muito boa altura para fazer coisa que literariamente se veja. Comece mas é a escrever que é fonte de riqueza para o país.

    • Eugénia de Vasconcellos diz:

      Há uma nova história do Janson. Da Gulbenkian, claro. Saiu em Março. Acho. Planeio comprá-la brevemente para substituir a ausência de si mesma em edição anterior.

  3. Luciana diz:

    Passa-se um fim de semana sem passear neste cemitério e de tudo se acha na volta, em ritmo tal que não se consegue ler, quanto mais comentar…mas, caríssimo Pedro, começo eu uma série oposta à tua (apenas para meu usufruto pessoal), pois entre as situações que me dão enorme prazer com certeza consta uma rede de varanda larga, brisa do mar, água de coco, boa leitura e — tal como a famosa cereja — uma bela massagem nos pés.

    • Pedro Norton diz:

      Luciana,
      Tudo bem quanto à varanda, à rede, a brisa, a água de coco, a massagem e sobretudo a boa leitura. O que me chateia mesmo é a areia nos livros, as multidões, o calor infernal, as criancinhas aos gritos e mais umas centenas de coisas irritantes que não caberiam neste comentário.

      • Luciana diz:

        Pedro, Pedro, Pedro,
        antes de negar três vezes, deixe-se ir a uma praia das minhas e veja lá se não há um outro tanto de livros a combinar com elas…

  4. Gonçalo Pistacchini Moita diz:

    Pedro. Conheço o livro — o do Gombritch, claro. Mas nunca o li todo. Também me lembro da explicação sobre os pintores egípcios, que afinal parece que sabiam pintar. Sobre a interpretação marxista sobre as regras da boa educação já não sei bem o que diga. O tema é, no mínimo, imprevisto. Talvez o melhor seja o Manuel Socialista Utópico Fonseca começá-lo. Depois disso poderemos nós, materialistas dialécticos, continuar.

  5. Marta Costa Reis diz:

    “em mais nenhum livro do Mundo se podem aprender coisas tão estivalmente úteis” ?
    Cheira-me a desafio…sem me cansar muito — que ainda ando a meditar sobre a beleza de Deus — sugiro o Diccionário de Sentenças Latinas e Gregas, de Renzo Tosi, editado pela Martins Fontes, onde podemos encontrar, entre muitas outras coisas úteis, várias sugestões para, com clássica elegância, chamar nomes feios a alguém ou dar sábios conselhos:
    “Nec te equo magis et equos ullus sapiens” (nenhum cavalo é mais sabido do que um cavalo como tu); “anemou dialeguê” (falas ao vento) ou “septem convivium, novem verum convicium” (sete fazem um banquete, nove uma balbúrdia”, são algumas, das muitas, alternativas.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Excelente sugestão, Marta. Aqui há tempos, comprei o irresistível How to Insult, Abuse and Insinuate in Classical Latin, a que só não dou mais uso pela generalizada incompreensão a que sei que seriam votadas as elaboradas pérolas dele retiradas …

    • Pedro Norton diz:

      está-me a dar umas ideias… Mas já sei como é que isto acaba. Quem leva das fúrias sou eu.

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