Joana, malgré tout

É talvez a única das muitas Joanas vindas do passado (e que, pelo tanto que me agrada o meu nome, há muito colecciono) de que não gosto. Nada nela e na sua curta e desgraçada existência me suscita admiração ou interesse, compaixão ou afecto, Não sei explicar porquê. Suponho que é mesmo isso que define uma embirração. Poderia tentar alinhar razões para este meu desagrado – mas a verdade é que muitas Joanas houve, bem mais loucas e mais patéticas, bem mais excessivas noutros traços que não valorizo, aprovo ou compreendo mas que, ainda assim, não deixam de me atrair e fascinar. Ou seja, é implicação mesmo.  

Ora eu quando embirro, desgosto ou, o que é raro, detesto, não ligo nem faço caso: procedo como se aquela pessoa, coisa, situação não existisse. Caso contrário, estaria a conferir-lhe uma importância que não tem, nem merece ter. Por isso a excluí da série de Histórias de Joanas, que há tempos aqui comecei.

Em todo o caso, e como em tudo na vida, há que ter um mínimo de fair-play...

Porque hoje, 30 de Maio, data da sua morte (em 1431) se festeja Jeanne d’Arc, venerada em toda a cristandade como padroeira dos soldados, prisioneiros e presos e Sainte Patronne de França.

E, sobretudo, porque a sua controversa figura inspirou, ao longo de séculos, pintores e escultores, escritores e dramaturgos, realizadores, actores e músicos, nalgumas das suas mais belas criações.  Escolhi, de entre tantas, duas — uma lá em cima, outra já a seguir - que justificam, só por si, celebrar uma Santa que não é da minha devoção e lembrar uma Joana que não está no meu panteão.  Last but by no mean the least, permitem desfrutar da beleza e talento destes extraordinários não santos, que conseguem sempre o milagre de me fazer olhá-la com outros olhos.


Comentários a “Joana, malgré tout” (8)

  1. Turmalina diz:

    Me identifico um pouco com esta Joana, mas não pela devotada religiosidade.Talvez por ter a coragem de comandar soldados à luta. Muitas vezes na minha vida precisei agir de forma a não demonstrar falta de coragem.Não existia espaço para frescuras de menina ou mesmo dúvidas.

    • Joana Vasconcelos diz:

      Turmalina, vista a coisa por esse prisma, sempre melhora o retrato … Mas mesmo assim não chega: são muitos anos de embirração profunda … ;)

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Da santa torresmo pouco me interessa, mas da Santa Jean Seberg lá em cima!!! Ó Joana, pela sua santíssima saúde…

    • Joana Vasconcelos diz:

      Mas Manuel Santinho Fonseca, porque protesta, se eu acabei de devotamente afirmar ser justamente a — só por isso Santa — Seberg (com a inestimável ajuda do São Cohen, do São Rubens e de um ou outro Santo Artista) a única, derradeira e definitiva hipótese de remissão, a meus olhos, da insuportável Pucelle!!!

      • Manuel S. Fonseca diz:

        Joana, e julga que eu, na minha repermível santidade, não reparei?! Claro que sim, só que a Joana não pôs o ar pio, devoto e de êxtase que aquela linda cabecinha tão bem rapada, os traços espessos das sobrancelhas, o desenho circunflexo dos lábios, exigem. Olhe lá bem para a imagem: é de uma pessoa se benzer ou não? Não se trata de “uma das mais belas criações”, trata-se de “A Criação”. Santa Joana Seberg. Aqui sim, o fundamentalismo é obrigatório.

        • Eugénia de Vasconcellos diz:

          Uma coisa é reconhecer-lhe a beleza, a da Seberg, outra, Manuel Fonseca!, é pretender a Joana, arrebatada em corpo e espírito por tal beleza. Olhe, torto, muito torto ia o andor.. O efeito parúsico que a Seberg tem em si, fica todinho para si.

          • Joana Vasconcelos diz:

            Eugénia, agadecida pelo pronto e sensato apoio.

            Isto do nosso MSF com a Seberg ultrapassa de largo a fervorosa devoção, o fundamentalismo até — aproximando-se perigosamente da possessãoAcha que é de nos começarmos a preocupar?

  3. Paula Guilherme diz:

    Sempre admirei a Jeanne d’Arc pela sua grande coragem de comandar os soldados à luta, não nos podemos esquecer em que época se passou, época medieval, ela foi uma personagem mto importante durante a Guerra dos Cem Anos (1337−1453), quando seu país enfrentou a rival Inglaterra.

    A sua vida não foi nada fácil, pois é marcada por fatos bastante trágicos. Quando era criança, presenciou o assassinato de membros de sua família por soldados ingleses que invadiram a vila em que vivia.

    Com 13 anos de idade, começou a ter visões e receber mensagens, que ela dizia ser dos santos Miguel, Catarina e Margarida (isto é o que reza a história…), nestas mensagens, ela era orientada a entrar para o exército francês e ajudar seu reino na guerra contra a Inglaterra.

    Seja verdade ou não esta personagem da história francesa, motivada pelas mensagens, cortou o cabelo bem curto (pois sabemos bem que mulheres não podiam de todo entrar no exército), vestiu-se de homem e começou a fazer treino militar, temos que admitir que a coragem desta “grande” mulher foi de facto extraordinária (penso que eu não a teria tido!)…
    Foi aceita no exército francês, chegando a comandar tropas. As suas vitórias importantes e o reconhecimento que ganhou do rei Carlos VII despertaram a inveja em outros líderes militares da França, como não poderia deixar de ser…, estes começaram a conspirar e conseguiram diminuir o apoio de Joana D’arc, homem é mesmo burro quando toca à sua masculinidade e então naquela época!!!

    Em 1430, durante uma batalha em Paris, foi ferida e capturada pelos borgonheses que a venderam para os ingleses.

    Foi acusada de praticar feitiçaria, em função de suas visões (facto engraçado, foi pelas visões que tudo começou e por elas mesmas que tudo terminou!!!), sendo condenada à morte na fogueira.

    Foi queimada viva na cidade de Rouen.

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